

‘O homem não é um ovni vindo de uma galáxia longínqua, o homem é um poema tecido com a névoa do amanhecer, com a cor das flores, com o canto dos pássaros, com o uivo de um lobo e o rugido de um leão. O homem acabará quando acabar o equilíbrio vital do planeta que o suporta’.
Este pensamento/sentença tem cinquenta anos e é da autoria de Félix Rodriguez de la Fuente, um documentarista espanhol que foi conhecido em todo o mundo, devido a uma longa série de trabalhos com o título ‘O Homem e a Terra’.
Talvez esta seja uma boa altura para aqui a deixar, por serem tempos de uma razoabilidade muito discutível pois, seguindo o ‘velhinho’ Heráclito (cinco séculos A.C.), a vida nasce do conflito e, o primeiro de todos, foi o da ordem contra o caos.
De acordo com aquele paradoxo cósmico, um precisa sempre do outro para existir e, quando a atracção do caos aparece, aparece também a nostalgia da ordem, que mais decidida e bem acompanhada, oferece uma ideia simples e sempre bem propagandeada – ceder nos direitos para ganhar em segurança.
Por alguma razão, ao escrever isto, logo me lembrei do ‘Make America great again’!
Como me lembrei de Dostoievski e nem resisto a transcrever umas linhas de ‘O Grande Inquisidor’ (1879), as das palavras de Torquemada e Jesus, sobre o futuro dos esfomeados de Sevilha e de como o cardeal os controlara com a Inquisição:
‘Hão-de procurar-nos debaixo do chão como outrora, nas catacumbas em que estaremos escondidos e hão-de clamar: «Dai-nos de comer, porque aqueles que nos tinham prometido o fogo do Céu nada nos deram».
Sem nós, estarão sempre com fome. Nenhuma ciência lhes dará o pão, enquanto estiverem livres; e hão-de nos pôr essa liberdade aos pés e dirão: «Fazei de nós escravos, mas dai-nos pão» Compreenderão, enfim, que a liberdade é inconciliável com o pão da Terra à discrição, porque nunca o hão-de saber repartir entre si!’
A ‘ordem’ na sua explicação maior, mesmo mostrando-nos as grilhetas, tanto físicas como morais, a passar até por coisas aparentemente inócuas como tradição, imagem, arte, crenças e informação, todas basilares no comportamento social.
Mas também aqui está, nesta explicação do escritor e analista político norte americano, David Rieff, a propósito do eventual fracasso dos grandes organismos internacionais ‘São produto dos desejos dos países poderosos. Creio que a ONU tem o fracasso inscrito no ADN, porque aqueles países quiseram que fosse um organismo sem poder, sem capacidade para intervir ou mudar o sistema global’.
E, perante todo este ‘espectáculo’ a que temos de juntar as nossas reclusões voluntárias ou não, até nos cabe perguntar que sentido devemos dar à vida.
Não há muito tempo, li em algum sítio, ‘Podemos dar sentido à vida, por três vias: as relações com o outro, o trabalho que podemos fazer para o outro; o sofrimento e as contrariedades a que damos sentido para ajudar o outro’.
E tenho sempre o recurso a Eduardo Galeano para, de algum modo, poder completar as coisas que vou arranjando para estas Cartas. O mesmo acontece hoje porque, parece até a propósito, ‘A diferença da solidariedade que é horizontal e se exerce de igual para igual, a caridade pratica-se de cima para baixo, humilha quem a recebe e nunca altera, nem um pouquinho, as relações de poder’.
Se não for assim o homem-poema de Félix de la Fuente está também e cada vez mais, em vias de extinção, com o seu lugar em perigo neste mundo!
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor