SINAIS DE FOGO – (E)TERNO CONTADOR DE HISTÓRIAS – por Soares Novais

 

Luís Sepúlveda na Arca das Letras em 14 de Fevereiro de 2004

 

 

O assassino ameaçado
(desde 11 de Setembro de 1217)

por César Príncipe [*]

 

Escrever sobre um escritor como Luís Sepúlveda é viajar pelas dores e pelos anseios humanos, traduzindo-se algumas das escalas da viagem por consciência literária, por consciência social, por consciência histórica e por consciência cósmica. No livro O General e o Juiz [1], em Ferramenta portátil para reconhecer os amigos e os inimigos da literatura [2] , para além do objecto literário (fremente e envolvente), sobressai uma teoria da responsabilidade da escrita e das artes em geral. Sepúlveda não é um anestesista das letras: é um cirurgião da Língua. E não apenas do Espanhol del Sur : o conceito operatório é transponível para os demais idiomas e dialectos. Sepúlveda não se deixa cativar nem nos pretende cativar com literaturas de cordel de veludo, pseudo popular só porque se dispensa de inquietar os ignorantes e os delinquentes, de empregar a riqueza da Língua a defender os pobres de bens e de mentalidade e a atacar os ricos de bens e pobres de mentalidade. Porque há expressões de lazer e de prazer. Sepúlveda, como Goyito [3] , o pescador cubano, amigo e confidente de Hemingway, também confidente de Sepúlveda em ferramenta portátil , propõe o uso justo e audaz da imaginação e da indignação.

Para ele, escrever é um acto em que o verbo está acima da verba, conciliando verdade e verticalidade, criatividade e cidadania. Não se deixa auto-embalar pelos best-sellers : ele sabe que há cultos de aparência em todos os domínios do Saber e do Poder. Um combatente da República das Letras aplica os verdadeiros nomes aos amigos e aos inimigos da literatura, que são os mesmos amigos e inimigos da humanidade. [4]

Luís Sepúlveda está vivo num tempo de grande inclemência e de sofisticadas tecnologias do embuste. Toca-lhe, como a nós, suportar e denunciar a Era Cristã de Bush, Blair, Berlusconi, Aznar ou Pinochet. Encontra-se, mais uma vez, em Portugal, num dos arredores da Europa, e até se deslocou, para uma sessão-debate [5] a uma terra denominada Gondomar, nos arredores do Porto, onde só um escritor que valoriza as coisas importantes, como gostar dos povos esquecidos, se dignaria reconhecer sem cobrar cachet euro-americano.

Para ser totalmente franco, vale mais um Luis Sepúlveda ou um Pablo Neruda, um Gabriel García Márquez ou um Ernest Hemingway do que 50 Paulos Coelhos e 100 Margaridas Rebelos Pintos. É a escolha entre o grande prazer e o pequeno lazer, entre cirurgia e anestesia. Ora, o que o planeta da Globalização do Pensamento Único e da Teologia do Mercado requer é operações de barriga aberta.

Luís Sepúlveda está, de novo, em Portugal, como mensageiro do Chile de Allende e denunciador do Chile de Pinochet, dois paradigmas dos caminhos e dos pactos do mundo; e Portugal acolhe o mensageiro com as suas ciências e artes da esperança, com 30 anos de 25 de Abril e com uma memória de resistência a 48 anos de fascismo.

A tal propósito, será oportuno introduzir uma breve antologia do 11 de Setembro, data duplamente aflorada por Luís Sepúlveda na referida Ferramenta portátil para reconhecer os amigos e os inimigos da literatura (o 11 de Setembro de 1973, assinalador do golpe de Pinochet, claramente assessorado pelos Estados Unidos e o 11 de Setembro de 2001, assinalador do golpe da Al-Qaeda contra os Estados Unidos, ignorando-se o nível de assessoramento) É que existem muitos 11 de Setembro nos cadastros das nações, nos calendários do crime organizado, das guerras santas ou das revoluções democráticas. Em homenagem ao autor de Encontro de Amor/Num País em Guerra [6] , de O General e o Juiz e de outros enredos — eis alguns 11 de Setembro [7] (que cada setembrista adoptará como Setembros amigos e Setembros inimigos):

 

  • 11 de Setembro de 2001 – Ataque às Torres Gémeas de Nova Iorque, reivindicado pela organização de Bin Laden, ex-agente dos USA. O crime saldou-se em 3.000 mortos.

  • 11 de Setembro de 1973 – Golpe militar encabeçado por Pinochet no Chile contra o Governo Democraticamente Eleito. O crime saldou-se em 10.000 mortos e desaparecidos , milhares de prisioneiros, milhares de expulsos dos empregos e das escolas e milhares de exilados. Pinochet foi acidentalmente preso em Londres e, meses depois, libertado pelas maquinações do Eixo do Bem. Ao contrário do intocável Pinochet, Milosevic, que desobedeceu às directivas imperiais, ficou sujeito ao Tribunal da NATO, também conhecido por TPI/Tribunal Penal Internacional, em Haia.

  • 11 de Setembro de 1973 – Governo israelense toma a liberdade de expulsar Arafat da Palestina, medida suspensa por pressão internacional.

  • 11 de Setembro de 1973 – Primeira reunião clandestina dos militares do MFA/Movimento das Forças Armadas, no Alentejo, preparando o derrube da ditadura terrorista portuguesa, apoiada ou tolerada pelas democracias ocidentais , com os USA à cabeça, pela NATO e por outras instituições definidoras e reguladoras do Eixo do Bem e do Eixo do Mal.

  • 11 de Setembro de 1965 – Chegada ao Vietname da 1.ª Divisão de Infantaria dos Estados Unidos, prenunciando a escalada de um conflito com mais de dois milhões de mortos vietnamitas e 58.000 filhos dos USA, a estes últimos se adicionando 2.800 desaparecidos .

  • 11 de Setembro de 1917 –Data de nascimento de Ferdinando Marcos, ditador das Filipinas (governava por decreto), sanguinário e intocável, besta sagrada da Grande Corrupção e fantoche do Eixo do Bem. Após se tornar insustentável a manutenção do friend Ferdinando, os USA hospedaram-no no Hawai, em 1986, onde gozou da fortuna até que o Além decidiu abatê-lo ao efectivo terrestre no ano de 1989 da Era Cristã.

  • 11 de Setembro de 1902 – Data de nascimento de Bento Gonçalves, operário e revolucionário, secretário-geral do Partido Comunista Português, assassinado, em 1942, no Campo de Concentração do Tarrafal, em Cabo Verde.

  • 11 de Setembro de 1840 – Bombardeamento de Beirute pela Grã-Bretanha, já na altura apostada na guerra preventiva contra o poder árabe e islâmico. Não dispomos do balanço letal das canhoeiras de Sua Majestade. De resto, em meados do séc. XIX, a vida de um libanês não merecia tratamento estatístico: ainda valia menos do que hoje a vida de um libanês, de um palestiniano, de um afegão, de um iraquiano ou de qualquer opositor, resistente, terrorista nouvelle vague ou terrorista amigo descartável.

  • 11 de Setembro de 1217 – Arremetida cristã contra a praça de Alcácer do Sal, a Porta do Algarve . Os bispos de Lisboa e Évora, coadjuvados pelo abade de Alcobaça e pelas Ordens dos Templários e dos Hospitalários e negociada uma coligação (já há oito séculos se promoviam coligações) com os expedicionários do Norte da Europa que se dirigiam para a Terra Santa , lançaram uma ofensiva da cruz e da espada. A empresa foi, mais uma vez, contra os mouros e, desta vez, contra a vontade do rei D. Afonso II, ausente no Norte (e de resto, excomungado pelo Sumo Pontífice Romano, devido a disputas de poder e de propriedades). Não há registos fiáveis de baixas, embora os cristãos houvessem asseverado que mandaram para os anjinhos milhares de infiéis, graças a uma arma de destruição maciça então proliferante: uma cruz que irrompeu nos céus.

 

Pelo exposto, não teremos de aceitar o 11 de Setembro de 2001 como novo marcador/divisor da História, o Antes e o Depois de Cristo de Nova Iorque. É certo que foi um acto de terrorismo contra um sistema terrorista, sendo o seu maior delito haver alvejado seres humanos apenas teoricamente responsáveis por sufragarem com o seu voto e a sua passividade o sistema em vigor. É certo que se tratou de um acto hediondo, de contornos ainda por descodificar em toda a extensão da trama. É certo que tem sido um providencial pretexto para a militarização e a policiação do mundo pelo Reich anglo-saxónico. É certo que o Império organizou exéquias universais, obrigando os governos-satélites, a comunicação social dominada e dominante e os escribas dos faraós do Far-West a demonstrar luto, repetidas condolências, lágrimas convulsas. Mas o pesar pelas vítimas de Bin Laden não deverá fazer olvidar as vítimas dos Estados Unidos e demais potências imperiais, coloniais, invasoras e espezinhadoras de todos os tempos e lugares. Temos muitos 11 de Setembro para reflectir.

Recorda-se, também neste encontro com Sepúlveda, com Goyio a ferramenta portátil , uma pintura de René Magritte [8] , de 1926, que jaz (precisamente) em Nova Iorque [9] . O quadro presta-se a uma metáfora irónica e dramática: intitula-se (quem diria) O Assassino Ameaçado. Igualmente, do mesmo artista, jaz, em Londres [10] , outro quadro, este de 1928, intitulado O dormidor imprudente . O dormidor eleva-se a metáfora de uma Europa subalternizada e de uma Grã-Bretanha servil, de uma Europa sem projecto alternativo à Globalização Neoliberal e à Nova Ordem Imperial, antes se resignando com despojos do Big Brother ou se contentando com ritmos de ingerência. Na Europa, como noutros quadrantes, a expectativa de romper a lógica do sistema reside na ruptura entre Povos e Governos, geridos e gestores, a economia civilizada e a economia selvagem, a cultura da diversidade e a cultura da unipolaridade.

Será de complementar que René Magritte, além de pintor, era um homem de Esquerda, da Esquerda sem ambiguidades, temperada nas escolas do infortúnio próprio e colectivo e consolidada na leitura dos clássicos e dos contemporâneos de vanguarda. Magritte era um surrealista, um dadaísta, um rebelde artístico e um revolucionário social, corporizando, neste aparente contraste, um exemplo de coabitação do realismo mágico e do realismo trágico, do espírito inventivo e do espírito interventivo. O seu legado como pintor, ilustrador e decorador está instituído. Haverá, contudo, de fazer acompanhar a sua produção estética da produção doutrinária, que foi fecunda desde 1924 até ao seu falecimento, em particular em revistas dos grupos surrealistas: de Bruxelas (Magritte, Goemans, Lecomte, Nougé, Mesens) e de Paris (Magritte, Arp, Miró, Éluard). Logo em 1929, na capital francesa, agita a intelectualidade com o texto La Révolution surréaliste – Le Surréalisme au service de la révolution.

Em 1929, como em 2004, as artes, a da literatura incluída, não são neutras e muito menos incompatíveis com o progresso humano: as suas conquistas temáticas, formais e ideológicas participam do desenvolvimento integral das ciências e das técnicas, das sociedades e dos indivíduos. Nada é neutro, a não ser por negócio da lucidez e da coragem. Não há refúgio nem performance acrobática ou camaleónica que justifiquem ou legitimem colaboracionismos e branqueamentos, abdicações e omissões. Os intelectuais e os cidadãos da aldeia global , se forem a Nova Iorque, deverão visitar as Torres Gémeas. Mas também deverão visitar o Museu de Arte Moderna.

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NOTAS


1- SEPÚLVEDA, Luís, O General e o Juiz , 4.ª ed. Porto: ASA Editores, 2003 (1.ª ed. 11 de Setembro de 2003).
2- IDEM, p. 68.
3- IDEM, Ibidem .
4- IDEM, p. 73.
5- Sessão-debate c/ Luis Sepúlveda/Gondomar, Livraria-Galeria Arca das Letras,14/02/2004. Apresentação do autor do presente texto, entretanto revisto e acrescentado. Após tomar conhecimento da listagem setembrista, LS adendou uma achega: o dia do seu casamento. Pormenor que acentua o peso simbólico do 11 de Setembro na vida colectiva e pessoal dos chilenos, como data negra e de resistência.
6- SEPÚLVEDA, Luís, Encontro de Amor Num País em Guerra , 7.ª ed. Porto: ASA Editores, 2004.
7- Efemérides de 11 de Setembro: elementos recolhidos de diversas fontes enciclopédicas e monografias históricas; e DUARTE, Ana Maria; GONÇALVES, Egipto; CASPURRO, Joana; FIGUEIREDO, Leonor (Trad.); VÁRIOS (Aut.), O Livro Negro do Capitalismo, 2.ª ed. Porto: Campo das Letras, 1998.
8- MAGRITTE, René (1898-1967), belga, pintor cimeiro do Surrealismo, ao lado de Dali, com obras nos principais museus de Arte Moderna. Dados: BÉNÉZIT, E. – Dictionnaire critique et documentaire des Peintres/Sculpteurs/Dessinateurs et Graveurs , 4.ª ed. Paris: Gründ, 1999. Tome 9, p. 18-21; http://www.artcyclopedia.com/artists/magritte_rene. html
9- Museu de Arte Moderna.
10- Tate Gallery.

[*] Escritor, jornalista.

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