UMA CARTA DO PORTO – IMAGEM E POESIA (139) – Por José Fernando Magalhães (330)

IMAGEM E POESIA (139)

 

O HOMEM QUE SE SENTA À MINHA FRENTE

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O homem que se senta à minha frente

Conversa comigo de coisa nenhuma.

Que espera ele que eu lhe diga?

De que coisas banais poderíamos falar, assim de repente?

Penso tristemente que não tenho ideia alguma

Nem para dizer, ou perguntar, ou entoar uma cantiga.

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O homem que olho e vejo à minha frente,

Que espera ele da nossa conversa?

Falamos mudamente de desencontros e memórias fugazes,

Do passado que há-de ser quando se acabar o presente,

Do que somos ou que fomos na realidade adversa

E das tardes absurdas, paradas, incapazes.

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O homem que se reflecte à minha frente

Não está em parte alguma.

Olha-me perplexo, com olhos pestanudos

Emudece o olhar parecendo ausente

Fala-me sem som, com palavras que o saber perfuma

E assim ficamos durante um tempo, quedos e mudos.

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É já meio da tarde de um princípio de Primavera fria, em tempo de confinamento. A luz do dia está a esmorecer. Ainda há momentos o sol, coado por algumas nuvens inundava a sala. Já choveu, mas apesar do chão estar molhado e cheirar a terra, a temperatura está ainda agradável.

Acendo a luz de cima e depois a de um candeeiro. Amarelada, esta, dá-me uma maior sensação de conforto. Pego no livro que tenho andado a ler, mas depressa desisto. Os olhos já não me acompanham a idade. Escritos e fotografias jazem no computador à espera de melhores dias.

Levanto os olhos e vejo-o.

Olho-o com atenção redobrada. Até há bem pouco nem tinha reparado nele. Lá do fundo fixa o olhar em mim. Um olhar parado, como se não me visse.

Quem é ele? Não me lembro de o ter visto. Parece-se com um amigo antigo, mas este é bem mais velho. Já maduro.

Não me apetece ter conversas com ninguém, que chatice.

– Boa tarde, digo.

Fala-me sem dizer nada. Sem uma palavra responde e eu entendo. Cumprimenta e queda-se mudo.

A conversa flui cheia de coisas nenhumas, de falta de palavras mas não de ideias. Eu pergunto e ele limita-se a responder que sim. Eu disserto e ele vai dizendo nada.

Até que a conversa se transforma num monólogo total. Mas não sou eu quem fala, é ele.

Fala-me da infância, da juventude, da vida dele, ano a ano. Dos ganhos, das perdas, das alegrias, dos lamentos, dos encontros e dos desencontros, da verdade e da mentira, da espera, da luta, da luta, da luta … enfim, da vida. E eu ouço, e como o percebo!

Lá fora, com a pandemia, vive agora a escuridão, que está separada de nós pela janela sem cortinas.

Não se cala, o homem que se senta à minha frente. Deve ter uma grande necessidade de falar, de contar, de desabafar.

E eu, o que mais tenho nestes dias, é tempo, e atento, bebo cada uma das palavras que ele, mudo, me diz.

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BARREDO
ARCO DAS VERDADES

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