BRASIL – CORREIO DA CIDADANIA – QUARENTENA SABOTADA: NADA PODERIA SER DIFERENTE – por GABRIEL BRITO

OBRIGADO A GABRIEL DE BRITO. RIVALDO GOMES,CORREIO DA CIDADANIA E FOLHA PRESS

 

 

 

Correio da Cidadania, 18 de Abril de 2020

 

Rivaldo Gomes, Folha press

 

A troca de ministro da Saúde no exato momento em que cresce a curva de casos de contaminação pelo Coronavírus precisa ser interpretada da maneira mais drástica possível: o presidente da República Federativa do Brasil deliberadamente trabalha pela morte de um grande número de pessoas. E ao bater de frente com Doria e Witzel nos dias que antecederam a saída de Mandetta mostrou-se um feroz praticante da “velha politicagem” contra a qual se apresentou em sua campanha eleitoral repleta de ilegalidades.

É preciso insistir, pois aqueles que ainda monopolizam a mídia de massa e sua possibilidade de formar consensos – por variadas razões, a maior delas o acordo sobre o projeto econômico do atual governo – se recusam a tratar Bolsonaro como o ser humano que é: corrupto, desonesto, ideologicamente totalitário, extremamente racista. Portanto, um candidato a genocida que precisa ser parado.

Um homem que tem na morte o seu impulso vital, como definiu o filósofo Vladimir Safatle em seu artigo “Estado suicidário”, inspirado no intelectual francês Paul Virilio, e encontra na horda de frustrados e excluídos que forma este acidentado país sua base impermeável a qualquer dado da realidade e informação científica.

“O fascismo brasileiro e seu nome próprio, Bolsonaro, encontraram enfim uma catástrofe para chamar de sua. Ela veio sob a forma de uma pandemia que exigiria da vontade soberana e sua paranoia social compulsivamente repetida que ela fosse submetida à ação coletiva e à solidariedade genérica tendo em vista a emergência de um corpo social que não deixasse ninguém na estrada em direção. Diante da submissão a uma exigência de autopreservação que retira da paranoia seu teatro, seus inimigos, suas perseguições e seus delírios de grandeza a escolha foi, no entanto, pelo flerte contínuo com a morte generalizada. Se ainda precisássemos de uma prova de que estamos a lidar com uma lógica fascista de governo, esta seria a prova definitiva. Não se trata de um Estado autoritário clássico que usa da violência para destruir inimigos. Trata se de um Estado suicidário de tipo fascista que só encontra sua força quando testa sua vontade diante do fim”.

Outro aspecto que antecipa a derrota brasileira na cafona denominação “guerra ao vírus” é a herança educacional e intelectual que o atual presidente capitaliza com toda a perversidade que a ditadura militar exigida pelos liberais de meio século atrás lhe inculcou.

Que Bolsonaro espalha desinformação de forma criminosa todos sabem. Mas se fôssemos uma sociedade menos analfabeta seus delírios não colariam (é certo que tampouco seria eleito, o que talvez expresse que agora vivemos um filme já rodado no qual somos apenas personagens coadjuvantes tentando, em vão, mudar o desfecho. Mas enquanto a cena final não apresenta pilhas de cadáveres e fossas comuns, tentamos).

O jogo sujo do presidente é incessante: enquanto vende a ideia de que o país não pode parar, promove políticas econômicas deploráveis desde o primeiro dia de mandato. Aliás, sempre vale lembrar que sua primeira medida foi extinguir o Ministério do Trabalho.

Enquanto enrola ao lado do não menos fascista Paulo Guedes na execução da renda mínima de 600 reais por mês, cria as condições para as pessoas furarem o isolamento. Ao mesmo tempo em que inventa uma cura mágica através de um remédio que toda a comunidade científica diz não ser garantia de nada, emite Medidas Provisórias que reforçam a precarização do trabalho sob a justificativa da pandemia. Enquanto instiga seus apoiadores a fazerem carreatas pela retomada da normalidade, trata de fazer ataques a governadores estaduais que tentam implantar a quarentena, já armando o discurso para a inevitável catástrofe econômica.

Trata-se de um jogo duplo de quem age como arruaceiro opositor o tempo todo, jamais um chefe de Estado preocupado com o bem estar de sua população. E tal jogo duplo fornece munição para o discurso vitimista antissistêmico com o qual se elegeu. Em todos os cenários, Bolsonaro poderá se sair como alvo de uma classe política viciada que nunca o deixou trabalhar. Isso apesar de contar com todos os generais, exército, enorme parcela dos policiais a seu lado. Pra não falar do braço armado ilegal com o qual se relaciona desde sempre.

Wishful thinking liberal

Falando em generais, nos deparamos com a pequenez dos falsos críticos do presidente quando lembramos que dias atrás circulavam matérias e furos dando conta de que Bolsonaro já se tornara uma rainha da Inglaterra, uma vez que os adultos na sala, em suas vestes verde-oliva, estariam discreta e responsavelmente tomando a frente. Fosse minimamente verdadeiro, Mandetta seria ministro intocável e com plenos poderes. Ou, admitamos, as eminências fardadas do governo são da exata qualidade do chefe.

De resto, o jornalismo com alcance de massa alterna entre a apatia e a indiferença ao analisar as atitudes presidenciais e suas prováveis consequências. Se de um lado vai bem ao informar dados oficiais e fornecer debates científicos sobre o vírus, de outro lado é frouxo ao não associar diuturnamente a figura do presidente com o que mencionamos acima: “corrupto, desonesto, ideologicamente totalitário, extremamente racista. Portanto, um candidato a genocida que precisa ser parado”.

Isso porque falamos de um jornalismo dominado por reacionários, assessores do interesse privado, carreiristas preocupados em garantir a cadeira de destaque sem desagradar os proprietários das grandes emissoras, rádios, jornais e revistas, todos, sem nenhuma exceção, amigados com o velho regime militar que consagrou Carlos Alberto Brilhante Ustra no imaginário do capitão do naufrágio social mais espetacular que veremos.

Não deixa de ser conveniente lembrarmos a campanha que tal jornalismo empreendeu contra uma Comissão da Verdade que em sua origem propunha Justiça e Reparação, conforme os melhores processos de julgamento de ditaduras que o mundo moderno já enfrentou. Ao militarem tão enfaticamente pela impunidade de Brilhante Ustra e canalhas assemelhados, tais comunicadores não podem ser separados da figura presidencial em termos de valor humano, ético e moral.

Em resumo: não há nenhuma crítica ao presidente à altura da atual necessidade. O tom que vemos hoje nos principais noticiários não chega aos pés do denuncismo diuturno e ataques coléricos de diversos comentaristas nos tempos de governos petistas. O ódio ideológico do nosso jornalismo empresarial não se canaliza na direção do fascismo, simples assim.

Dessa forma, o projeto de “destruir muita coisa antes de construir” segue a ganhar terreno. Com um já conhecido esquema ilegal de desinformação – e como faz falta que a mídia de massa bata nesta tecla todo dia, a fim de reforçar a imagem de corrupção no atual presidente, como fazia até outro dia em relação a tudo que cheirasse PT, com ou sem razão – Bolsonaro é bem sucedido em confundir a população e sabotar a quarentena.

Ao fazer isso, abusa da necessidade material de um povo que não é contemplado por nenhuma política econômica do seu governo (informação devidamente sonegada por essa mesma mídia e sua ideologia “mercado acima de tudo”), aumenta a pressão sobre os trabalhadores, cada dia mais assediados por chefias despóticas que apoiam o presidente fanaticamente, e garante uma grande quantidade de mortes para o futuro próximo.

Nada mal para uma necropolítica que agora assume abertamente o descarte de corpos não rentáveis, desde os velhos até os mais marginalizados, que podem ir para qualquer vala comum caso pereçam pelo vírus, pois o exército de reserva se encontra em momento de grande robustez.

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Gabriel Brito é jornalista e editor do Correio da Cidadania.

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