O Coronavírus quebrou o mito de que a economia deve vir em primeiro lugar. Por Adam Tooze

Espuma dos dias Coronavirus

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

O Coronavírus quebrou o mito de que a economia deve vir em primeiro lugar

Adam Tooze I Por Adam Tooze

Publicado por theguardian em 20/03/2020 (“The Coronavirus broke the myth that economy should come first”, ver aqui)

 

Desde os anos 90, a confiança no “mercado” não foi posta em causa. Agora até as compras das pessoas se tornaram um crime contra a sociedade.

 

91 A Tooze O Coronavírus quebrou o mito de que a economia deve vir em primeiro lugar
Ilustração: Matt Kenyon/The Guardian

 

O confinamento do coronavírus de 2020 é talvez a interrupção mais notável da vida quotidiana na história moderna. Tem sido falado como uma guerra. E recordam-se as histórias contadas sobre a interrupção da normalidade em 1914 e 1939. Mas, ao contrário de uma guerra, o momento presente envolve desmobilização e não mobilização. Enquanto os hospitais estão em alerta máximo, a maioria de nós está confinada aos aposentos. Estamos deliberadamente a induzir uma das mais severas recessões jamais vista. Ao fazê-lo, estamos a espetar mais um prego no caixão de um dos grandes lugares-comuns do final do século XX: é a economia, estúpido.

Era uma vez um tempo em que pensávamos saber o que estava em cima e o que estava em baixo. De acordo com a língua franca dos anos 90, na sequência da guerra fria, era óbvio que a economia era o fundamental, e o resto seguiu-se-lhe. Foi o sucesso económico do Ocidente que acabou com o comunismo. E a economia não governou apenas sobre ditaduras comunistas crepitantes, mas definiu o alcance de uma possível política nas democracias. Argumentar contra a globalização, insistiu Tony Blair, era tão absurdo como argumentar contra as estações do ano.

Depois veio o ano de 2008 e ficámos a pensar quem seriam realmente os donos da economia do universo. Seguiu-se a extraordinária catástrofe, politicamente induzida, da crise da dívida da zona euro, em que o populismo orçamental conservador e o dogmatismo – disfarçado de perícia – reinou sobre a necessidade de garantir o emprego e de fazer crescer o rendimento. Depois, em 2016, o referendo no Reino Unido obteve uma maioria para o Brexit, face às previsões de catástrofe económica. Meses mais tarde, Donald Trump, um bilionário narcisista, foi levado ao poder pelos votos da classe trabalhadora, face à oposição dos grandes e respeitáveis. Desde então, tanto o Reino Unido como os EUA têm seguido políticas de espectacular irracionalidade económica sem receio de um veto esmagador por parte dos mercados. As elites liberais esperaram em vão pela chegada dos vigilantes do mercado.

E agora o Covid-19. Imaginem se o interesse económico fosse, de facto, a ditar a nossa resposta. Estaríamos nós a fechar a economia? O que sabemos sobre o vírus diz-nos que ele mata com mais frequência aqueles que são, pelos números, os membros “menos produtivos” da sociedade. A maioria da população ativa apresenta sintomas pouco mais significativos do que uma gripe comum. Ao contrário da gripe normal, não ameaça as crianças, os futuros trabalhadores. O vírus pode, talvez, ser mau, mas uma lógica económica simplista ditaria que, até termos uma vacina, seria melhor manter a vida em andamento, porque, sabem, “é a economia, estúpido”.

Essa foi, de facto, a primeira reação do Governo britânico. A ideia era que a Grã-Bretanha continuava aberta aos negócios. Os jornalistas com boas memórias desenterraram o carinho de Boris Johnson pelo Presidente da Câmara no filme de Spielberg O Tubarão, [o perfeito prefeito Larry Vaughn] que insiste em que, apesar de um monstro marinho estar a comer os seus eleitores, a praia deve permanecer aberta. A maior sabedoria da saúde pública, foi-nos dito, era que a mão-de-obra produtiva iria adquirir imunidade. Sabemos como terminou essa experiência ousada de economismo heroico: uma retirada em pânico perante o cenário desastroso de centenas de milhares de mortes em excesso, a sobrecarga dos hospitais do SNS e uma crise de legitimidade política.

Tornou-se subitamente óbvio que, quando se trata de questões de vida ou de morte, o cálculo é diferente. É claro que as pessoas idosas e doentes morrem. Todos morreremos a seu tempo. Mas o que importa fundamentalmente é como e em que circunstâncias. Um enorme surto da mortalidade, mesmo que limitado a populações “vulneráveis” com condições pré-existentes, é existencialmente inquietante. O mesmo acontece com as cenas apocalípticas que se vão desenrolar nos nossos hospitais. Numa época mais precoce, poderiam ter ficado atrás de um véu decente de obscuridade. (Sem dúvida que o NHS e a BBC vão elaborar os protocolos para a elaboração de relatórios “embutidos” a partir das linhas de frente clínicas). Mas as palavras e imagens que já nos chegaram do Norte de Itália e de Wuhan já são suficientemente más. Perante tudo isto, a estupidez está em não reconhecer prontamente que temos de agir, que temos de fazer confinamento, que mesmo a atividade individual mais essencial da era do mercado, as compras das pessoas, se transformou num crime contra a sociedade.

Isto não quer dizer que a economia não esteja a moldar a crise. É a expansão implacável da economia chinesa e a resultante mistura da vida urbana moderna com os costumes alimentares tradicionais que cria as incubadoras virais. São os sistemas de transporte globalizados que aceleram a transmissão. São os cálculos de custos que definem o número de camas de cuidados intensivos e as reservas de ventiladores. É a lógica comercial do desenvolvimento de medicamentos que define a gama de vacinas que temos prontas e em espera; os coronavírus obscuros não recebem a mesma atenção que as disfunções erécteis. E assim que o vírus começou a alastrar, foi o apego do Reino Unido ao fazer de conta (negócios como de costume) e seguir em frente  que induziu um atraso fatal. O confinamento do sistema tem um preço. Ninguém o quer fazer. Mas depois acontece que, perante as previsões aterradoras de doença e morte, não há realmente alternativa.

É quando se ultrapassa esse obstáculo político, intelectual e existencial – perceber que se trata de uma questão de vida ou de morte – que a economia volta a entrar. E fá-lo com uma vingança. A lógica revelada pelos Estados asiáticos bem organizados é que é melhor conduzir um regime de quarentena severa, na esperança de poder regressar à atividade normal o mais rapidamente possível. A economia chinesa já está a retomar passo a passo.

No Ocidente, a escala e a amplitude da epidemia são tais que a nossa resposta terá agora de ser um confinamento  generalizado. E isso suscita questões gigantescas de gestão económica.

Mesmo os governos conservadores de ambos os lados do Atlântico estão a puxar todas as alavancas da política monetária e orçamental . Numa questão de semanas, iniciaram intervenções gigantescas numa escala comparável às de 2008. Podem ser capazes de suavizar o golpe. Mas está em aberto a questão de saber quanto tempo conseguiremos persistir, quanto tempo conseguiremos confinar a economia para salvar vidas.

Ao fazer as escolhas difíceis que temos pela frente, ganhámos pelo menos um grau de liberdade. A grande ideia dos anos 90 de que “a economia” servirá como um superego regulador da nossa política é como um balão rebentado. Tendo em conta a experiência dos últimos doze anos, não nos devemos cansar de perguntar: quais são as restrições económicas reais e quais são as que restrições imaginadas?

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O autor: Adam Tooze é professor de História e diretor do Instituto Europeu na Universidade de Columbia e autor de Crashed: How a Decade of Financial Crises Changed the World.

 

 

 

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