Eu fui um Capitão de Abril, testemunho de Miguel Sobrino. Por Suso Iglesias

25deabril 2020

Seleção e tradução de Francisco Tavares

Eu fui um Capitão de Abril

Em 1974 Miguel Sobrino era estudante de sociologia em Madrid, mas levado pela vontade de lutar, viajou até Portugal e transformou-se em testemunha da Revolução dos Cravos. Quarenta anos depois, conta como se transformou em jornalista e quase em agente secreto.

 

Por Luzes-Público/ Suso IglesiasSuso Iglesias

publico es es  em 28/04/2020 (ver aqui)

Publicado originalmente em Luzes em 25/04/2020 (aqui)

 

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Página principal do Diário de Lisboa de 25 de abril de 1974

 

A Miguel Sobrino aconteceu-lhe o mesmo que a Portugal: não soube, não pôde, não quis ficar em casa. Assim que a Rádio Renascença começou a emitir Grândola, Vila Morena, os apelos do Movimento das Forças Armadas foram inúteis. “Fique em casa, tranquilo”, repetia o locutor da RTP vezes sem conta, lendo durante horas uma lista interminável de comunicados.

“Fiquem em casa”, diziam os altifalantes dos veículos militares nas ruas de Lisboa. Mas as pessoas só ouviam o José Afonso cantar que “o povo é que mais ordena”. E como se num Hamelin de libertação, todos saíram para as ruas, ignorando os slogans e as advertências, para as tomar, torná-las suas e para celebrar a vitória. Esse apelo, esse uivo de democracia que foi o 25 de Abril de 1974, chegou também ao galego Miguel Sobrino, então estudante de Sociologia em Madrid. Assim, movido pelo mesmo impulso de todo o Portugal, apanhou o primeiro comboio para Lisboa. E acabou por se tornar uma testemunha excepcional da Revolução dos Cravos.

Assistiu à rendição da PIDE, a temível polícia secreta do Estado Novo. Patrulhou com os tanques através do centro de Lisboa. Foi testemunha da libertação dos presos da prisão de Caxias. Participou na assembleia que, na primeira noite revolucionária, mudou o nome da Ponte António Salazar para 25 de Abril. Assistiu à chegada do exílio de Mário Soares. E ao encontro entre Cunhal e Spínola. E conviveu com o próprio José Afonso durante os primeiros dias revolucionários. Ele também apareceu nas páginas do Paris Match. E agora, quando se cumprem 40 anos, recorda os dias vermelhos da explosão dos cravos.

“Na faculdade estávamos muito sensibilizados para a questão portuguesa graças ao movimento das canções. No 25 de Abril, de manhã e como éramos muito loucos, dissemos: ‘Vamos para lá'”, recorda Sobrino, que mais tarde se tornou professor de comunicação na Universidade Complutense, onde estudou política. “Ao longo do dia, alguns dos nossos colegas perderam o interesse. O comboio partiu à noite e eu entrei sozinho. Lembro-me de me despedir da minha namorada pensando que eu não ia voltar. Eu queria juntar-me à revolução. E morrer lá se fosse preciso”, diz ele, rindo da febre da juventude.

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Miguel Sobrino, atualmente

 

O primeiro medo surgiu na fronteira. A travessia para Portugal, na madrugada de 26 de Abril de 1974, foi altamente suspeita. “Chegámos à fronteira. O comboio estava a ficar vazio. Na fronteira estava o controlo salazarista. Mas não houve qualquer problema. Mostrámos os passaportes e entrámos. De manhã chegámos a Lisboa”, recorda Sobrino. O rapaz, carregado de força, apresentou-se lá ao seu contacto. Era o cantor-compositor José Jorge Letria (hoje presidente da Sociedade de Autores de Portugal), irmão do famoso jornalista Joaquim Letria. “Chegavas lá com aquele romantismo, pedindo uma missão, pensando: “Quero morrer aqui”. Então disseram-me: se queres fazer alguma coisa, vai à PIDE e faz o que puderes”.

A PIDE, a Polícia Internacional e de Defesa do Estado, era a força do terror na ditadura salazarista. Era a polícia política que sequestrava e torturava os opositores. E que mantinha um controlo total da sociedade, através dos bufos, os informadores civis inseridos em cada bairro e em cada trabalho, prontos a denunciar qualquer dissidência. Por isso, não foi surpreendente que, fiéis ao regime e temendo a reacção popular, tenham sido os últimos a render-se. Entrincheirados na sua sede na Rua Antonio Maria Cardoso, tinham disparado contra a multidão durante a noite, matando quatro manifestantes. Os únicos quatro mortos da Revolução dos Cravos. Assim, na manhã seguinte, no meio de uma enorme tensão, Miguel Sobrino chegou ao epicentro da revolta.

“Nas ruas já se viam os militares com os cravos nas suas armas. E o que se podia ver era uma atmosfera de alegria. Aqueles soldados vendo como o povo os apoiava”, diz Sobrino. “Mas naquela noite houve tiroteio, houve mortos e feridos; e os da PIDE estavam lá dentro, ganhando tempo para queimar o máximo possível. Quando cheguei, as fogueiras ardiam. Sobrino pensou em fazer-se passar por jornalista: “Atravessei o cordão militar como se fosse da imprensa, com o meu cartão da faculdade de Sociologia. Como dizia “Ciencias PP y Sociología”, dizia que PP era “Imprensa”. Na casa de banho, dentro do edifício, com os pides ali, estávamos quatro tolos: eu, uma equipa da televisão sueca e mais três outros. E nós tínhamos os fuzileiros a apontarem para nós.

“Ao longo do dia houve mais tiros. Algumas explosões apanharam-me numa cabina telefónica e temi pela minha vida. Eu disse: “Minha mãe, que faço eu aqui?”, recorda. “Quando se renderam, chegavam pides detidos, alguns deles com a cabeça a sangrar, porque havia pessoas que não havia como impedi-las…”.

Depois de assistir à rendição da PIDE, Miguel Sobrino vai viver outro momento histórico. “Quando o comboio partiu com os agentes presos, subimos a um camião artilhado. E chegámos à prisão de Caxias, onde as pessoas estavam à porta, a pedir a libertação dos presos. E quando a noite chegou, eles começaram a sair”. Ele ainda se lembra da emoção do momento: “As portas abriram, e um tipo abraçou-me e começou a chorar e gritar: ‘Estou aqui metido há 19 anos!’ Todos estavam a chorar. Foi uma festa”. Mas a catarse ainda estava para vir.

“Metemo-nos num carro quando já não havia prisioneiros na cadeia… E voltámos ao centro. E eu senti algo indescritível. A Praça do Rossio, muita gente a dançar, a cantar… Era um estado de catarse e de enorme felicidade. Foi uma festa até às duas da manhã. De vez em quando, aparecia uma coluna de soldados com bandeiras vermelhas, cravos nas suas armas e pessoas a atirar-lhes flores. É incrível como um povo se sente quando acontece algo assim “, recorda Sobrino. Havia uma pressa em mudar tudo. Para exercer a liberdade. E para viver a democracia. Assim, ali mesmo, no Rossio, votaram para mudar um símbolo da ditadura: “Era meia-noite, e no centro da praça fizemos uma assembleia para mudar o nome da ponte… Já não se podia chamar Oliveira Salazar. Era necessário alterar essa situação. Enquanto as pessoas se banhavam na fonte, nós votámos. Não esperámos nem um minuto. Alguns saíram com um camião e com um pincel riscaram ‘Oliveira Salazar’ para colocar ’25 de Abril'”.

Para Miguel Sobrino, aquela noite foi a mais emocionante da Revolução: “O Rossio era milhares e milhares de pessoas a sentirem a liberdade”. No dia seguinte, o agora professor tornou-se jornalista e quase um agente secreto. Porque começou a visitar a sede da PIDE, em busca de informações confidenciais. “Como tinha o meu falso cartão de imprensa metia-me em todo o lado. Fiz várias visitas à PIDE. E saía sempre carregado de papéis. Havia restos de fogueiras, mas ainda se podiam encontrar papéis com “Top Secret” escritos por todo o lado.”

Sobrino levava tudo aos revolucionários: “Tirei material confidencial bastante duro. Mas eu não sabia o que transportava. Somente via ‘Secret’, ‘Top Secret’… Quando lhes dei os documentos, ficaram espantados: “Mas sabes o que trouxeste?”, perguntaram eles. Eram as listas de todos os bufos de Portugal”. Ali estavam os nomes dos colaboradores da polícia política, dos informadores que mandavam os seus vizinhos para o inferno.

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Página principal do jornal diário “República de 25 de abril de 1974

Como Sobrino estava em todo o lado, sempre a entrar sorrateiramente em momentos chave, foi uma grande ajuda para a imprensa destacada em Lisboa. “Passava-lhes informação, a jornalistas de Espanha, do Le Monde, dos grandes meios de comunicação social… Porque eu estava ali, vivendo aquilo e era uma fonte em primeira mão”, diz ele. Mas a informação que foi publicada em Espanha, ainda sob a ditadura de Franco, foi altamente manipulada. O jornal ABC tinha o título: “Golpe de Estado em Portugal”. E deixava claras as suas simpatias por Marcelo Caetano e o falecido Salazar: “A mudança de regime em Portugal foi consumada. Um longo período chegou ao fim após não poucos sucessos e êxitos económicos e sociais”. A TVE, num papel ainda mais penoso, chegou ao ponto de denunciar um surto de cólera em Portugal, alertando os galegos para não atravessarem a fronteira por razões sanitárias.

“Lembro-me do noticiário televisivo espanhol e do jornal de vómitos do Diego Carcedo. O papel que ele desempenhou na contra-revolução foi lamentável”, critica. “Depois disseram que havia uma epidemia de cólera em Portugal. Na Galiza, as pessoas foram vacinadas contra a cólera. Eles não queriam que se soubesse o que lá estava a acontecer. Não fosse que em Espanha eles quisessem o mesmo. Foi embaraçoso ouvir falar disso na Televisão Espanhola e na Rádio Nacional. Era o ano 74. Ainda governava o velho. E tinham as pessoas enganadas sobre o que se passava em Portugal.”

Sobrino ainda tinha muito que viver: “Quando tudo acalmou, decidi ir ver o José Afonso a Setúbal para lhe dar um abraço. Passei toda a tarde e toda a noite com ele. No dia seguinte foi quando o avião chegou com Cunhal e o músico José Mário Branco, que estavam no exílio. E concordámos em ir lá juntos. Estivemos até a distribuir folhetos nas ruas de Setúbal, até que o aconselharam a não se expor tanto, porque havia ameaças de morte contra ele”, recorda.

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No topo da imagem, Soares e Álvaro Cunhal, líder do PCP, no comício de 1 de Maio de 1974. No centro, em primeiro plano, Miguel Sobrino.

“De manhã, fomos ao encontro de Cunhal. E de lá para ver Spinola. Eu ia com o Cunhal. Chegámos à Cova da Moura e ficámos na antecâmara, enquanto eles decidiam sobre o futuro da revolução. De lá fomos para a sede de um movimento democrático… E com quem é que eu me encontro? Galvão! E eu fui apresentado a ele. Era incrível, porque ia encontrando todos os protagonistas, um após o outro”, recorda o então entusiástico jovem revolucionário.

Sobrino esteve também na chegada de Mário Soares. Ele próprio aparece numa foto na revista Paris Match com o líder do Partido Socialista ou noutra que abre caminho para Soares e Cunhal: “Eles apanharam-me nessa e noutras fotos das agências internacionais, porque eu estava lá; eu tive a sorte de viver a Revolução dos Cravos na linha de frente, como uma pessoa inconsciente”, brinca ele.

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O líder socialista Mário Soares é aclamado pela multidão em Abril de 1974, aquando do seu regresso do exílio em Paris. Do outro lado do carro, Miguel Sobrino (com barba).

O 1º de Maio foi a grande explosão de liberdade no país: “Foi o primeiro acto oficial após anos de ditadura e foi um dia emocionante”. Sobrino ficou sem dinheiro dias depois e não tinha bilhete de ida e volta. Foi à Embaixada de Espanha em Lisboa e pediu para ser repatriado: “Eu estava lá a dissimular: ‘Estava de passagem por aqui como turista e encontrei isto’. Um dos funcionários teve pena de mim e emprestou-me o dinheiro para comprar um bilhete de regresso”. O homem que mais tarde se tornou professor na Universidade Complutense, agora reformado, lembra-se que foi recebido de volta a Madrid quase como um herói. Todos queriam saber o seu relato dos acontecimentos. “Para nós foi um caminho a seguir. Havia que ver como era Portugal antes do dia 25 de Abril. Qualquer jovem tinha de passar cinco anos de serviço militar. E estar ao serviço das multinacionais matando negros em África”.

Hoje, quando olha para trás, lamenta que a Revolução dos Cravos tenha evoluído para o conservadorismo: “As pessoas esperavam muito, mas aquela revolução foi redireccionada”. Mas reconhece que foi “uma ruptura, não uma transição como a que houve em Espanha, onde, no final, estão os mesmos”. E Sobrino ri, emociona-se e disfruta quando se lembra desses dias revolucionários há quarenta anos atrás. Os dias em que o rapaz da Revolução dos Cravos foi testemunha em primeira mão de um momento que mudou a história. Desses acontecimentos únicos em que parece impossível ficar em casa.

 

 

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