A Universidade em declínio a Alta Frequência – Em forma de carta aberta aos reitores de ontem e de hoje, que espero não sejam os de amanhã também. Por Júlio Marques Mota

Espuma dos dias 2 UNIVERSIDADE 2

 

Em forma de carta aberta aos reitores de ontem e de hoje, que espero não sejam os de amanhã também

 

julio-marques-mota Por Júlio Marques Mota

Coimbra, 13 de maio de 2020

 

Por outro lado, que seja claro o meu reconhecimento:

-aos diretores de Faculdade a quem se lhes impõe por decisão superior gerir a difícil situação da “infeção” da crise pandémica existente no ensino universitário, com decisões a serem tomadas de urgência e a mudarem dia-a-dia , cujo sintoma mais relevante agora é a avaliação à distância. Uma gestão difícil e o meu profundo respeito pela tentativa heroica de quererem salvar dignamente o que, na minha opinião, não é salvável , pois o que verdadeiramente se lhes exige sob a capa da eficiência, de se ser melhor que os outros, é pura e simplesmente que escondam a infeção do vírus que alastra no ensino superior.

– aos professores que se fazem e desfazem em simulações do que pode ser neste contexto criar uma prova de avaliação sujeita aos requisitos mínimos de qualidade e mínimos em termos de fraude, tendo em conta a fragilidade operacional de quem está do outro lado a fazer a prova. Imagine-se só fazer uma prova de avaliação numa disciplina onde se usa habitualmente fórmulas matemáticas e gráficos estando do lado de lá da linha estudantes que podem  não estar habituados a trabalhar com ferramentas de matemática em computador. Este trabalho é tanto mais de sublinhar quanto este será um trabalho , uma preocupação, que não entra na imaginação dos nossos reitores  e nem nos seus critérios de avaliação do trabalho docente.

-aos alunos sérios, que conhecendo as múltiplas hipóteses de fraude à sua disposição que já circulam nos meios estudantis, optam por uma postura séria, de respeito por si-próprios, por quem os examina e pela Instituição que os abriga .

-Por fim e não menos importante o meu profundo respeito e reconhecimento devido e sentido ao explicador Manuel Gomes da plataforma Explicas-me pela sua verticalidade face ao processo de avaliação à distância que pode degenerar em fraude nacional e pela sua posição de recusa à fraude, o que só o dignifica assim como à Instituição em que outrora se formou.

JM

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Tenho publicado diversas cartas abertas quanto à degradação sistemática no ensino superior em Portugal. Numa delas enviada expressamente ao Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Manuel Heitor, escrevi, em forma de bilhete postal o seguinte (texto integral disponível aqui):

“(…) o ensino universitário está lentamente a morrer. Se isto é grave, gravíssimo, pois com isso se compromete o futuro do país, mais grave ainda é o silêncio à volta do caixão do dito defunto que se está a preparar. Operações sucessivas de cosmética, índices de avaliação para tudo, índices para as escolas, índices para os professores, assiste-se, portanto, a uma maquilhagem para mostrar que o morto está vivo.

Neste contexto, a gestão das Universidades tal como está a ser praticada, mais parece uma sucursal de uma agência de rating ou então do Ministério das Finanças ou ainda das duas instituições, como se queira. Se dúvidas há veja-se o despacho do Magnífico Reitor da Universidade de Coimbra no tocante às remunerações dos docentes convidados, que aplicou um corte de 40 por cento, de tal forma que um professor convidado, com o grau de doutor, pouco mais ganhará, à hora, que uma mulher-a-dias, e com o risco de no final do ano entrar em situação de burn-out! Para que isso não aconteça, resta-lhe considerar os alunos pelas costas e maquilhar, maquilhar, obter bons resultados escolares, para assim poder ver o seu contrato renovado para o ano seguinte. Mas para que isso possa acontecer não pode haver muita exigência, tem de haver sucesso escolar e esse mede-se não pelo que o aluno fica a saber, que raio de ideia, mede-se pela percentagem de passagens, uma metodologia muito em voga naquele que foi o reino da Dama de Ferro, agora a enferrujar em paz. De resto, tem que ser tudo muito simples, porque de tanta aula a dar garantidamente não há tempo para as aulas preparar. E se alguns escapam a este modelo, preparando-as a sério, deparam-se a seguir com um mundo de incompreensão e de animosidade pelo lado dos colegas por não serem imagem daqueles, mas não só, porque pelo lado dos alunos espreita a incapacidade de compreender o esforço do docente pela sua (dos alunos) falta de bases e que se alarga de ano para ano civil e de ano para ano escolar. No fim, ao professor docente espera-o a complacência na avaliação final dos alunos (exames ou provas equivalentes) ou alternativamente espera-o, no mínimo, uma má avaliação feita pelos alunos nos seus inquéritos de avaliação aos professores, inquéritos estes que entram na avaliação do rating do professor. Não há volta a dar. Adicionalmente ainda, perde muito do tempo necessário para maquilhar o seu curriculum. O cuidar do seu curriculum, a sua maquilhagem, é hoje uma necessidade vital, de sobrevivência, mesmo para um professor.

A demonstração de tudo isto é fácil de fazer. Por licenciatura e por faculdade, escolha-se de forma aleatória de entre os alunos licenciados com média entre os 11 valores e os 13, a maioria, um número x de alunos e coloquemo-los perante uma prova escrita à mão onde se avaliem os conhecimentos adquiridos na respetiva licenciatura. Obviamente tomando como referência matérias ou temas ligados a uma ou mais disciplinas obrigatórias. Uma outra forma, para cursos que não sejam de Engenharia ou afins da Faculdade de Ciências ou de Medicina, seria apresentar-lhes um texto escrito para o grande público tipo dos que são publicados no jornal Público, pelos colaboradores independentes e residentes do jornal. Tirem-se depois as devidas conclusões.

Aliás quanto às Faculdades ditas de Ciências, veja-se o relato que nos dá o Expresso sobre Medicina de Lisboa e do Porto e veja-se o que está escrito nas entrelinhas:

Faculdade de Medicina de Lisboa:

“Identificar o que estava numa TAC ou ecografia e fazer ‘diagnósticos’ sobre problemas práticos — por exemplo, descrever as estruturas atingidas numa vítima de esfaqueamento na axila ou na virilha — foram as principais dificuldades dos alunos no exame, teórico e prático, feito no início do ano. As notas negativas ficaram acima dos 50% e a surpresa foi geral. “Na prova teórica chumbou mais de metade e estávamos à espera que o resultado melhorasse na avaliação prática mas foi outra desgraça”, diz o responsável pela anatomia na FML.

Conforme a disciplina, a taxa de reprovação varia entre 5% e 15%, logo valores acima de 50% eram até agora inéditos. “Nunca tinha acontecido, pelo que foi objeto de reflexão”, afirma Ivo Furtado, regente da disciplina de anatomia clínica, que correlaciona o conhecimento do corpo humano com a prática médica. O caso foi de tal forma polémico, “por ser tão anómalo, que foi constituída uma comissão de análise, dirigida pelo presidente do Conselho Pedagógico da FML”, explica António Gonçalves Ferreira.

Como é que alunos brilhantes que querem ser médicos não conseguem correlacionar o corpo humano com a doença, precisamente o que vão ter que fazer para tratar doentes? A resposta demorou algumas semanas até ser encontrada, já este mês. Resumidamente: prova difícil e menos estudo. “A matéria foi dada com pormenor talvez excessivo, os alunos não acompanharam a disciplina nas aulas teóricas, a dificuldade das perguntas foi definida para cima, muitas perguntas e questões complexas para responder em quatro a cinco minutos na avaliação prática e imagens de imagiologia dadas com pormenor apenas nas aulas teóricas”, elenca António Gonçalves Ferreira.”

Faculdade de Medicina no Porto:

“Desde há dois anos foram notícia por terem entrado no Ensino Superior com as classificações mais altas do país. O aluno mais ‘fraco’ entre os 245 caloiros da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) ingressou com 18,67 valores de média. Este ano, a notícia é outra. Muitos acabaram por ser surpreendidos com as primeiras negativas do percurso escolar e com notas a que não estavam habituados. Em várias cadeiras, a média ficou nos 10 valores ou menos. A Morfofisiologia Integrativa e a Morfofisiologia dos Sistemas Respiratório e Urinário vários exames foram corridos a 6, 7 e 8 valores. E nestas duas unidades curriculares (são seis disciplinas ao todo no 2º semestre), as taxas de não conclusão foram de 53% e 48%, respetivamente. Nos dois anos letivos anteriores tinham ficado em torno dos 20% ou menos.”

As notícias não nos deixam nada satisfeitos e mostram-nos inegavelmente que o silêncio é sepulcral, desde as autoridades de tutela até aos responsáveis das respetivas faculdades de Medicina. Em Lisboa o problema foi “resolvido” com revisão de provas e os resultados ajustaram-se à média histórica. Em suma, nada se degradou!” (…) ( Fim de citação)

Numa carta recente manifestei-me contra as avaliações à distância que do meu ponto de vista, podem ser vistas como uma fraude, em que o sistema procura a solução mais simples face à pandemia que pode encontrar e se calhar também a versão mais barata. Quem sabe? Nesse texto afirmei (texto integral disponível aqui):

“E nessa trajetória chegamos à situação de pandemia. Ouvimos o atual reitor a declarar o encerramento da Universidade de Coimbra e para meu espanto, a afirmar que tinha tudo preparado para o ensino à distância. Nenhum estudante iria por esta decisão perder o ano. Na cabeça do reitor e no silêncio dos seus gabinetes seria imaginável estar tudo preparado para o ensino à distância, na verdade, e no plano prático, tudo parece indicar que esta afirmação não seja verdade. Basta ouvir o que alguns estudantes depois disseram na televisão ou ler o que têm dito nos jornais. Basta lembrar-me de conversas havidas no café com múltiplos docentes e de várias faculdades antes da conhecida data de encerramento, nunca nenhum deles me falou em tal coisa e frequentemente era de ensino que se falava. Depois desta declaração de encerramento foi conhecida a azáfama e angústia de docentes à procura de material eletrónico porque tinham rapidamente de se transformar em especialistas de audiovisual, o que é contraditório com a afirmação do reitor de que desde há um mês que estava tudo preparado.” (…)

“A partir daqui vamos assistir às avaliações à distância, sem que ninguém saiba exatamente como será isso e o que é que isso representa. Da mesma forma que muita gente defende sair da quarentema não agora, mas um pouco mais tarde, em nome da defesa de vidas que com isso são poupadas , não seria nada de anormal dar mês e meio de aulas a partir de finais de maio até meados de julho para completar o segundo semestre, fazer uma chamada de exames em julho e a segunda em setembro. Igualmente, poderia haver aulas presenciais em junho-julho e exames em setembro. Na minha opinião, qualquer cenário como este ou equivalente, seria mais honesto, e sobretudo, mais digno para toda a gente, alunos, professores, instituição. Ninguém ficava a perder na sua dignidade profissional nem os estudantes ficavam a perder no seu tempo! Adicionalmente, se nos lembrarmos que por aí campeiam os profissionais de elaboração de trabalhos para estudantes pagos à peça ou mesmo de elaboração de relatórios, é fácil de imaginar o que pode ser uma avaliação à distância, sobretudo para quem nunca a fez! Estarei eu a delirar?” ( Fim de citação)

 

Curiosamente, dias depois deste texto ser publicado, leio pela agência Lusa as declarações do secretário de Estado e escrevi uma outra carta aberta onde afirmava (texto integral disponível aqui):

“Curiosamente, hoje, chega-me ao conhecimento via jornais diários na versão eletrónica as declarações do secretário de Estado João Sobrinho Teixeira de que reproduzo excertos da notícia:

“Hoje, o governante lembrou que “Portugal tem uma das maiores cargas horárias por semana” e que a imposição de isolamento social veio trazer um “abanão às aulas presenciais”.

Para João Sobrinho Teixeira deve passar a haver “menor carga letiva” e as escolas devem começar a “trabalhar com os estudantes recorrendo a outras ferramentas”, num ensino também baseado em projetos.

O desafio é conseguir ensinar “de uma forma mais eficaz para que os nossos estudantes possam aprender.

“Já foi aberto um concurso com fundos comunitários para que esta nova noção de aprendizagem possa ser implementada”, afirmou o secretário de Estado, considerando que este desafio é independente daquilo que venha a ser o impacto futuro do covid-19.

Com menor carga letiva, também os professores do ensino superior podem ficar com mais tempo para a investigação”.

Bem, daqui saliento apenas duas coisas:

    1. O ensino irá de mal a pior. Chegamos à conclusão que na opinião do governo ensina-se de mais. Sabemos a argumentação contrária: pretende-se que se ensine mais e melhor em menos tempo e com menos aulas: trata-se de um novo paradigma. De resto, este foi o argumento a justificar Bolonha. Sou levado a pensar que se pretende que o ensino universitário na sua espiral descendente se aproxima do pior que possa vir a ser feito ao nível dos Politécnicos, onde se utilizará, também aí, a mesma argumentação para provocar uma igual descida para o mundo da ignorância.
    2. A carreira docente, enquanto carreira profissional, terá a mesma evolução. Sobrecarregada com trabalho burocrático, muito dele, tipicamente trabalho puro e simples de escritório, iremos assistir à redução do número de aulas, já que anos não se pode reduzir mais, iremos ver contratos de professores por renovar, carreiras a ficarem ainda mais bloqueadas do que já estão agora por efeito das políticas de austeridade, e de novo, iremos ver professores sobrecarregados com 4 disciplinas por ano, como já vimos em Coimbra nos tempos de João Gabriel. Adicionalmente, iremos assistir, para gáudio dos tecnocratas seguidores da lógica austeritária de Bruxelas, ao tele-trabalho docente, às aulas à distância, às aulas invertidas, enfim, iremos assistir a toda a panóplia de instrumentos que permitam reduzir os custos com docentes e obviamente com a qualidade do ensino realizado. No limite, e por este caminho, a Universidade pode transformar-se numa espécie de mercado cambial, mercado sem território específico, definido pelos computadores e pelas plataformas em que está tudo interligado, recebendo ordens e determinando ordens, talvez até à velocidade expressa pela negociação de alta frequência, em que se utilizam potentes computadores e algoritmos automatizados. Com o seguidismo a que temos estado a assistir não faltarão defensores desta estratégia a apoiar João Sobrinho Teixeira como também houve com o processo de Bolonha agora posto em Itália em forte questão.

Com estas posições, será que por aqui se está já a vislumbrar que o atual governo de António Costa, tão elogiado internacionalmente, e com justa razão, face à incompetência e maldade que grassa por esta Europa amaldiçoada, está já a preparar o terreno para a austeridade que aí virá, ou será esta posição o resultado da incompetência de alguém habituado a estudos superiores curtos e que ainda os quererá mais curtos? Anseio para que seja esta segunda hipótese a explicação para este conjunto de afirmações.” ( Fim de citação)

Pois bem, perguntava eu se estaria a delirar e tanto mais quanto pela voz do Secretário de Estado, João Sobrinho Teixeira, ficamos a saber que temos aulas a mais. Mas quem tem aulas a mais tem então aprendizagem a mais, sendo isto o que logicamente se pode concluir das suas declarações. Ora, do que eu me queixo é que temos aprendizagens a menos e, neste caso, a avaliação à distância será mais um prego a pregar num caixão que já nem mais pregos suporta.

Curiosamente, muito recentemente e já depois destas cartas abertas publicadas, alguém que se viu em consonância com o que nelas era dito faz-me chegar algumas das suas preocupações sobre o que se passa no ensino superior. A demonstrar o apreço pelas minhas tomadas de posição mandou-me uma compilação de emails como exemplos de consultas que lhe foram feitas na qualidade de explicador por estudantes universitários e que ilustrariam à evidência muito do que eu afirmava nas referidas cartas abertas. Os exemplos são tão chocantes e revoltaram-me tanto que não sou capaz de ficar calado, não sou capaz de ficar sem denunciar o que li. Sinceramente, como alguém que ensinou durante 37 anos na Universidade, a sua leitura levou a que me sentisse profundamente envergonhado face ao que se passa hoje no Ensino Superior.

E trata-se apenas de um exemplo que nada impede que seja generalizável à escala nacional. Sinto-me na obrigação de denúncia,  de um J’accuse , em sinal de respeito pela Universidade, pelo meu País, pelo ensino que os nossos filhos ou netos irão ter e é face a estes que reclamo que se pare com da avaliação à distância que, conforme mostraremos mais abaixo, se pode transformar numa verdadeira fantochada à escala nacional. Em nome de todos os agentes do ensino, diretos e indiretos, pais, alunos, professores, todos nós merecemos mais, merecemos ser vistos com dignidade, merecemos que os diplomas alcançados com seriedade não sejam assim desvalorizados , o que o sistema de avaliação á distância pode claramente pôr em cheque . Em nome de todos os agentes do ensino, diretos e indiretos, pais, alunos, professores, aqui deixo o meu apelo para que os sistemas de resposta à infeção da pandemia no ensino superior sejam repensados com seriedade, nem que isso implique que o ano letivo acabe apenas no final de setembro. Isso pode ser feito, sem comprometer o ano seguinte. Respeitemos os alunos que são sérios, punam-se com uma avaliação séria os que pensam que os diplomas se alcançam apenas com dinheiro à frente para contornar as dificuldades, respeitemos os pais que muito se sacrificam para terem os filhos na Universidade e ensinemos os jovens a ser Homens. E os Reitores que pensem mais nisto do que andarem a procurar formas de punir os professores com escalas absurdas de rating e de exigências em sucessivas publicações em revistas científicas de gabarito internacional para lhes dificultar a mudança de escalão, e de melhoria de remuneração.

Neste contexto, não se pense que o problema reside nesses miúdos que não conheço e que são eles os autores levianos das questões enumeradas nos documentos abaixo. Não, não reside, eles fazem o que têm visto fazer, agora a uma escala mais grave. Não façamos uma caça às bruxas, e não se pense também que o problema reside naqueles que oferecem a troco de uma remuneração as “ajudas” solicitadas por quem não estuda ou estuda mal ou é mal ensinado. Ambos são o produto da precariedade instalada e reproduzida e de que são os dois grupos as verdadeiras vítimas. Não, o problema reside algures, reside num sistema de ensino virado ao contrário, onde ser professor é apenas a porta de entrada para se ser investigador e tudo o resto é obrigatoriamente, pela força das circunstâncias, colateral, secundário. Neste tudo está o núcleo central do que se pode entender como sendo a verdadeira missão da Universidade, o trabalho de docência , pelo lado dos professores, o trabalho de aprendizagem dos saberes, pelo lado dos alunos e é a tudo isto que se deve depois ligar a investigação. Inversamente para os quadros de investigadores em termos de investigação e em termos do ensino a que podem e devem estar também  parcialmente ligados. Sobrepor a investigação ao ensino, o que tem sido feito, levando a que o professor deixe de poder seriamente ser professor para procurar ser sobretudo investigador, leva a que o papel de professor será subsumido pela função de investigador e tanto é assim, que por despacho reitoral da Universidade de Coimbra, o rating de cada docente é uma média ponderada calculada da seguinte maneira: 80% do valor do docente alcançado como investigador mais 20% do seu valor alcançado como professor. A conclusão é simples: dedicação ao ensino é, do ponto de vista da sua carreira futura, uma atitude patética, porque o que agora conta é publicar, publicar. Exemplos disto que acabo de escrever são muitos: basta procurar ao acaso nas listas de concursos para a passagem de professor auxiliar a associado ou de associado a catedrático e ler os seus curricula: são páginas e páginas de formato A4 com lista de artigos publicados. Perguntar-se-á, pressupondo intrinsecamente qualidade, como é que em termos de tempo isso é possível? Podíamos depois questionarmo-nos sobre a validade de muitos desses artigos, se todos originais e publicados como querem os senhores reitores em revista de topo internacional, dado o milagre dos pães que em muitos dos casos isso pode significar. Naturalmente assim. Naturalmente, o programa de computador que ordena os candidatos em face dos curricula transformará possivelmente a quantidade em qualidade, o que reforça a noção de que é necessário publicar, publicar. Quanto ao resto ninguém se questiona.

Nesta mesma lógica diabólica se inserem as recentes declarações de João Sobrinho Teixeira quando afirmou defender menor carga horária para os alunos e também a utilização de técnicas do ensino à distância: “Com menor carga letiva, também os professores do ensino superior podem ficar com mais tempo para a investigação”, o mesmo é dizer fica-se com mais tempo para publicar, publicar… Mas desta forma cair-se-á , creio eu, na crítica mordaz de Mats Alvesson (Universidade de Lund) e Yiannis Gabriel (Universidade de Bath) quando em 2017 escrevem:

“Quando é que nós, enquanto corpo universitário, vamos reconhecer que o problema não é mais publicações a bem de (produzir) mais publicações? No passado, “publicar ou morrer” significava contribuir ou morrer profissionalmente. Hoje, é mais “publicar à medida que vamos morrendo”. Desde há uma geração que produzimos cada vez mais mas de menor qualidade e cada vez menos de mais qualidade, em termos globais. Será que o “conhecimento” avançou? Admita-o, já leu milhares de artigos ao longo da sua carreira e foi influenciado por, na melhor das hipóteses, algumas dezenas. O que tem mérito pode nem sequer ter chegado ao nosso conhecimento; está a ser afogado pelo ruído, pelo volume crescente de publicações teóricas e metodologicamente insípidas, numa crescente teia de pontos de venda de textos não lidos, cujo único objetivo era apenas publicar, e não o saber, não o esclarecer”.

 

O Professor no sentido em que concebemos o ensino e a profissão, como criação nos alunos de apetências pelo saber, de capacidades de conhecer e de criar, é esmagado por essa lógica de rating inerente hoje a todas as Universidades portuguesas, de publicar, publicar e com isso é o professor que vai morrendo lentamente e com ele é a qualidade de docência praticada que se vai desvanecendo, é a ignorância cada vez mais evidente em muitos dos licenciados a alastrar, sendo pois cada vez menos, e por esta razão, os elementos do corpo discente que não são triturados por esta mesma lógica. A banalização é hoje o que se difunde e isso mesmo mostram os emails que anexamos a esta espécie de J’accuse.

Devido a essa banalização proliferam então as salas de estudo, as explicações para tudo e para nada, desde os trabalhos práticos, aos relatórios de estágio, à colaboração com teses de mestrado ou não sei que mais e agora eventualmente com a colaboração subterrânea na avaliação à distância. Para termos uma ideia da complexidade da questão procure-se ver pela internet, sendo essa uma função dos reguladores e da Administração Central também, qual é a dimensão do mundo paralelo que se está a construir à custa da ignorância que é produzida nas Universidades. Entra-se num submundo onde tudo pode ser imaginável, é a conclusão que se pode tirar dos documentos em anexo. Respeitem-se, pois, aqueles que face a isto sabem dizer não, como o explicador que me disponibilizou os documentos que anexo abaixo, ou daqueles alunos que não abdicam de serem alunos de forma séria.

Aqui vos deixo, pois, algumas consultas feitas por estudantes a um professor que vive de explicações, documentos que trazem em anexo a resposta às respetivas consultas, devendo-se ter em conta que os nomes são imaginados, para evitarmos uma caça às bruxas e para o local errado. Mas explicadores com esta seriedade, e trata-se de alguém que vive com muitas dificuldades, não serão assim tantos de tal modo que ele possa ser considerado como o “explicador representativo” à boa maneira do pensamento hoje dominante. Antes pelo contrário, isto é o que nos faz adivinhar um mundo de práticas inaceitáveis do que os documentos abaixo nos dão prova e em que se movimenta muita gente.

A concluir este texto, e antes de deixar um apelo no final após os documentos que apresento em anexo, deixem-me citar o meu velho amigo Luis Reis Torgal quando este nos diz: “lembro as palavras de António José de Almeida: “O direito à revolta é uma coisa sagrada”. É este apenas o sentido deste texto de um velho professor de 77 anos que sou eu, o sentido de ter o direito à revolta, à indignação.

 

Anexo.

Documento 1:

113 Ensino Universidade Denuncia JM VD 1

Documento 2:

113 Ensino Universidade Denuncia JM VD 2

Documento 3:

113 Ensino Universidade Denuncia JM VD 3

Documento 4:

113 Ensino Universidade Denuncia JM VD 4

Documento 5:

113 Ensino Universidade Denuncia JM VD 5

Documento 6:

113 Ensino Universidade Denuncia JM VD 6

Documento 7:

113 Ensino Universidade Denuncia JM VD 7

Documento 8:

113 Ensino Universidade Denuncia JM VD 8

Documento 9:

113 Ensino Universidade Denuncia JM VD 9

 

Senhor Ministro, senhores Reitores

Ensina-se pouco e mesmo assim, os resultados são estes. Falo apenas de um explicador e dos contactos por escrito, excluindo, pois, os contatos telefónicos. Imagine-se isto à escala das grandes cidades e das múltiplas ofertas de explicadores de tudo e para tudo. Fico com uma certeza, a precariedade criada no Ensino Superior ao corpo docente, criada ou ampliada fortemente pelos falcões da austeridade, terá como resultado gerar uma oferta sobre a qual ninguém fala e a falta de seriedade na formação dos nossos estudantes e do facilitismo nas nossas Universidades instalado gera por seu lado a procura correspondente. Tudo isto dá-nos a noção clara de como está a Universidade sobre a qual se defende agora a avaliação à distância e de que há aulas a mais e leva-nos a antever com uma enorme preocupação o seu impacto malfazejo sobre a sociedade que supostamente a Universidade deve servir,

Renovo, pois, o meu apelo para que os sistemas de resposta à infeção da pandemia no ensino superior sejam repensados com seriedade, nem que isso implique que o ano letivo acabe apenas no final de setembro,

Apelo ainda a que o manifesto intitulado Desintoxicação: saber para o futuro lançado em fins de fevereiro em Itália por docentes universitários e investigadores, seja tomado como um documento de reflexão que deverá ser divulgado pelos docentes e investigadores do nosso país e, porque não, por todos aqueles que consideram lamentável a situação em que se encontram as nossas Universidades e que aspiram a um ensino de qualidade que só pode existir com carreiras docentes (e de discentes) assim como de investigação, de qualidade. Espero igualmente que a partir deste mesmo documento em circulação se possa aqui, como em Itália, lançar um Movimento de Dignificação do Ensino e da Investigação.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1 Comment

  1. Este “J’accuse” merecia outra divulgação. Não há um jornal diário que o publique? Aqui se desmonta a mentira da “geração mais qualificada”, talvez só em termos estatísticos. O programa de Bolonha veio degradar um sistema que não era bom mas que, pelo menos, dispunha de tempo para consolidar e experienciar conhecimentos. As bolsas Erasmus são simpáticas para se viajar e fazer turismo. O numero de licenciaturas + mestrados corresponde afinal ao n.º de licenciaturas antes de Bolonha. E os testes? E os trabalhos de grupo? E os semestres de três meses? Ao Júlio Mota o agradecimento pela coragem da denúncia.

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