CARTA DE BRAGA – “de adeus e escolhas” por António Oliveira

Adeus abraços, adeus beijos, adeus selfies!

Não sei por quanto tempo, se será só para mim, se para os mais velhos, se só para quem sabe o significado dos termos responsabilidade e respeito, mas estou mesmo convencido que os efeitos daquele Adeus, se vão manter durante muito tempo.

Um tempo cuja dimensão não sou capaz de avaliar, mas que nos vai mudar o modo de viver, os paradigmas que nos modelaram o espírito, tanto no modo de ‘ser’ como no de ‘estar’, num salão, nas ruas, nas praças, com ou sem amigos, ou num café, num restaurante ou no mais modesto dos espectáculos, da feira ao teatro.

Um ‘metro e meio a dois metros’ que não mais nos vai sair da memória, por muitos anos que ainda nos restem, por ser um lugar de medo e de exclusão, como um trunfo num qualquer jogo egoísta, em que cada um pensa primeiro em si, escolhe e dá as cartas e, se não correr bem, faz como o dono da bola nos jogos de criança, a agarra e foge para casa.

Onde ficaram as noções de proximidade ou daquelas distâncias definidas pelo antropólogo Edward Hall, a íntima, a pessoal, a social e a pública, variando entre os 40 cm da ‘íntima’ até aos 3 metros e 60 cm da ‘pública’?

Uns números definidos em ‘A dimensão oculta’ a obra em que Hall não esconde ser uma ‘uma nova luz sobre os conhecimentos que podemos ter dos outros e o risco que corremos, nas modernas cidades’ ao ignorar a importância da distância em comunicação.

Esta obra foi cá editada em 1986, mais de vinte anos depois de Hall ter criado o termo ‘proxémica’, onde analisa a importância da distância, nos fenómenos da comunicação.

São conceitos já de certo modo ultrapassados pelas condições técnicas, sociais e humanas destes tempos, mas algumas coisas ainda se devem manter, a ver pela publicação de uma foto do ‘homem dos afectos’, sozinho, em calções e sapatilhas, agarrando um daqueles carritos de duas rodas para as compras, sem ter ninguém pendurado para uma selfie, sempre tão procurado para e por isso.

Como diria Charles Chaplin, ‘todos somos figurantes. A vida é tão curta que não dá para mais’, neste teatro da vida em que é necessário respeitar distâncias, só é preciso saber, mas isso não é para todos. 

Penso também como, com as muitas vozes já a alertar para uma segunda vaga deste ‘corona’, aquele ‘metro e meio a dois metros’ também se vai transformar num ‘lugar de pânico’, um lugar que vai criar os seus próprios guardas, os olheiros de todas as sociedades, os auto-eleitos guardiães da moral pública e, neste caso, até mesmo da privada, mas só as dos vizinhos.

Talvez assim consigamos regressar aos tempos dos que têm vida, tempo e posses para lhes reservar um lugar numa sociedade onde as distâncias sejam as deles, as das classes que nos demarcaram a vida, durante tantos séculos.

Nas palavras de Slavoj Zizek, o já popular filósofo esloveno, ‘agora deveria ser o momento em que se compactassem todas as estruturas transformadoras, numa sociedade mais além da nação, actualizada sob a forma da solidariedade global e da cooperação’.

Uma cooperação alargada a todos os campos da actividade humana pois, como explica José Antonio Marina ‘Muito me preocupa a situação económica que nos vai cair em cima e não vejo a inteligência política e social, necessárias para a enfrentar como deve ser. Dentro em pouco teremos de a considerar outra vez’.

E afirmou Einstein uma vez ‘Há duas maneiras de viver a vida: uma como se nada fosse um milagre e a outra como se tudo fosse um milagre’.

É melhor escolher já a sua!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

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