CRISE DO COVID 19 E A INCAPACIDADE DAS SOCIEDADES NEOLIBERAIS EM LHE DAREM RESPOSTA – XLVII – OS CONFINAMENTOS ESTÃO A FUNCIONAR – MAS NUNCA VOLTAREMOS AO “NORMAL”. por VICTOR HILL


 

The lockdowns are working – but we shall never get back to “normal”. por Victor Hill

Masterinvestor, 24 de Abril de 2020

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

 

Em cada semana de pandemia que passa, aprendemos novas lições – mas algumas nações estão a aprender mais depressa do que outras. A questão-chave para todos é quando é que os confinamentos  poderão ser em segurança com total descontracção – se é que alguma vez o poderão ser? Victor Hill está a analisar esta situação .

Boas notícias, más notícias

A boa notícia é que, à medida que os EUA e a Europa entram no segundo mês de confinamento, estão já a considerar  que o número de casos novos confirmados de Covid-19 pode já ter atingido o pico – o que significa que é provável que o número de vítimas mortais atinja o pico durante os últimos 10 dias de Abril.

A má notícia é que a saída dos confinamentos  não se fará de um dia para o outro. Na verdade, vai levar meses e não semanas a voltar à situação de pós-normalidade. Como resultado, na maioria das grandes economias, a atividade permanecerá em níveis significativamente abaixo do normal até ao terceiro trimestre, se não mesmo ao quarto trimestre de 2020. E isso significa que não haverá uma recuperação em forma de V.

Perto do pico?

Na semana passada perguntei como saberíamos que tínhamos atingido o pico no número de novos casos de Covid-19, a menos que puséssemos toda a gente à prova – o que, evidentemente, não vai acontecer. No entanto, admito agora que o número de novos casos que surgem com pacientes com sintomas graves que se apresentam nos hospitais pode representar uma amostra da população no seu conjunto, muitos dos quais terão sido infetados, mas continuam assintomáticos. Da mesma forma que podemos prever os resultados eleitorais com razoável precisão, através de sondagens a uma pequena amostra do total do eleitorado, podemos estimar a ampla propagação da infeção a partir do número de pessoas que ficaram doentes.

No fim-de-semana passado, foi-me enviada uma análise dos dados por um brilhante jovem economista. O que ele fez foi “suavizar” os dados, calculando o rácio entre os números dos casos diários contínuos de 5 dias e os novos casos comunicados diariamente. À medida que este rácio se aproxima de 1,0, podemos supor que atingimos, ou até passámos, os casos de pico – pelo menos da primeira vaga da pandemia. Isto porque este número se aproxima do valor R0 do vírus (ou seja, o quão contagioso é). Porquê um período móvel  de 5 dias? Porque, no início, o meu economista notou um surto em casos diários a cada 4-6 dias aproximadamente e isto correspondeu aos dados do período de incubação da China: este é o período em que as pessoas infetadas são mais contagiosas e têm maior probabilidade de propagar a doença.

O médico-chefe para a Inglaterra, Chris Whitty, declarou que existe aproximadamente um desfasamento de 11 dias entre a infeção e os testes. Se isso estiver correto, então, aqui no Reino Unido, passámos o pico de casos há cerca de duas semanas. Isto baseia-se em dois pressupostos principais. O primeiro é que o vírus se transmite de um caso infetado para outro em  explosões de 5 dias. Este é o período que vai desde a infeção até  à apresentação de sintomas – quando as vítimas se isolam, terminando assim a sua própria linha de transmissão. O segundo pressuposto é que podemos observar como o vírus é infecioso, ou fazer uma aproximação grosseira do valor R0, calculando o rácio de novos casos de há 5 dias atrás para os registados hoje. Quando o rácio de casos de 5 dias – ou R0 aproximado – é inferior a 1,0, cada caso propaga-se a menos de uma outra pessoa e o vírus começa a reduzir-se  à medida que é transmitido em quantidades cada vez menores.

NB: This has not been peer-reviewed.

A linha de tendência neste caso sugere que o número de novos casos registados diminuirá para zero dentro de cerca de oito dias após a sua publicação – por volta de 02 de Maio – o que é claramente irrealista e otimista. Mas é verdade que este é o caso do confinamento ter funcionado – mesmo que tenha sido, sem dúvida, imposto demasiado tarde. Outras nações estão a registar resultados semelhantes.

O Professor Carl Heneghan, do Centre for Evidence-Based Medicine da Universidade de Oxford, calculou que o pico do Reino Unido ocorreu já no dia 08 de abril. Um problema é que não só as práticas relacionadas com o registo de mortes por Covid-19 variam de país para país, como os números emitidos pela Public Health England não coincidem com os publicados pelo Instituto de Estatísticas, porque os primeiros apenas registam mortes pelo vírus ocorridas nos hospitais.

Relaxamento dos  confinamentos

Esta semana, a Alemanha, a Dinamarca e a Áustria anunciaram uma flexibilização limitada dos seus confinamentos, a ser introduzida gradualmente até ao início de maio. Houve longas filas de compradores fora das lojas de bricolage como na Áustria. Espanha, França e Grécia planeiam limitar as suas medidas de isolamento ao longo das próximas três semanas. A Itália, talvez o país europeu mais afetado, planeia uma reabertura gradual a partir de 4 de maio.

Nos EUA, onde o Covid-19 se encontra atualmente entre as três principais causas de morte diária juntamente com o cancro e as doenças cardíacas, está prevista uma trajetória semelhante. A maioria dos estados permanece sob ordens de permanência em casa até ao final de abril. As orientações de reabertura anunciadas pela Casa Branca na passada quinta-feira (16 de abril) são vagas e oferecem latitude aos Estados individualmente. Os Estados escassamente povoados com um fardo de doença relativamente modesto até agora poderiam muito bem começar a reabrir no início de maio

O que tem surpreendido a maior parte dos governos é a disponibilidade dos cidadãos para a restrição das suas liberdades civis. Isso explica-se em grande medida pelo princípio da autopreservação – embora exista uma minoria significativa de pessoas em todo o mundo que simplesmente não o conseguem. Geralmente, as pessoas receiam mais morrer de forma desagradável do que perder temporariamente os seus rendimentos.

A experiência chinesa – apesar de os números chineses serem questionáveis – continua a ser o nosso único modelo para a eficácia de um bloqueio prolongado. O encerramento de Wuhan começou em 23 de Janeiro e durou mais de 70 dias. Não se compreende bem como ou por que razão o vírus não chegou aos grandes centros populacionais de Pequim ou Xangai; nem como a China conseguiu manter a sua classe dirigente aparentemente não infetada. O virologista e laureado com o Prémio Nobel francês Luc Montagnier pensa que o vírus foi criado pelo homem e que provavelmente escapou acidentalmente de um laboratório em Wuhan. Se se acumularem provas para essa explicação, as consequências – económicas e geopolíticas – serão enormes.

O problema é que ninguém sabe ao certo se o vírus poderá voltar ou não numa segunda ou mesmo numa terceira vaga. Os dados que nos chegam de Milão esta semana são preocupantes – o número de novos casos está a aumentar novamente. As notícias que nos chegam da Coreia do Sul – um país que é um modelo de gestão pandémica – também não são tranquilizadoras. Alguns sobreviventes sucumbiram a uma segunda vaga de infeção.

Se a política é proteger o SNS, então qualquer potencial recrudescimento das infeções tem necessariamente de encerrar de novo a economia. Embora o verdadeiro escândalo no Reino Unido seja que, possivelmente, a maioria das vítimas desta peste morreu não nos hospitais de emergência Nightingale[1], mas em casas de repouso com avisos de DNR (Do Not Resuscitate) amarrados às suas camas.

Lições de aprendizagem

O historiador Niall Ferguson (não confundir com o epidemiologista Neal Ferguson do Imperial College London) escreveu recentemente[2]  que as pragas tendem a ser más notícias para  os grandes impérios com fronteiras porosas; enquanto as cidades-estado que podem fechar os seus portões têm-se saído muito melhor ao longo da história. E nesta atual pandemia de coronavírus, as nações pequenas e ágeis parecem ter-se saído melhor do que as grandes e populosas.

Israel, Taiwan e Nova Zelândia serão considerados, depois de tudo isso ter terminado, como estudos de caso de contenção pandémica. Países escassamente povoados têm vantagem sobre os densamente povoados e as áreas rurais são menos propensas a infeções do que as urbanas. Por exemplo, a República da Irlanda, que realmente tem apenas uma grande metrópole – Dublin, com cerca de 560.000 pessoas – tem uma taxa de mortalidade  por mil pessoas de cerca da metade da do Reino Unido. E a Nova Zelândia, um país de língua inglesa com cerca de cinco milhões de pessoas com uma cultura social e política muito semelhante à do Reino Unido, é digna de análise.

O governo neozelandês sob a liderança de Jacinda Ardern decidiu impor um confinamento apertado desde muito cedo contra a progressão do vírus no país. Todos os neozelandeses receberam uma avaliação de risco abrangente que delineia o que se espera deles em quatro níveis de alerta. Estes são: Nível 1 – Preparar; Nível 2 – Reduzir; Nível 3 – Restringir; Nível 4 – Eliminar. O país foi colocado imediatamente num confinamento de Nível 4, no entendimento de que seria relaxado gradualmente ao longo do tempo, de acordo com o sucesso em conter a doença.

Tive uma sessão de Zoom com um primo em Auckland durante o fim-de-semana e ele compreende exatamente qual é a estratégia de saída. A literatura que o governo da Nova Zelândia divulgou ao seu povo é clara e precisa – muito mais impressionante do que a carta que recebemos do nosso Primeiro-Ministro. A Nova Zelândia teve até agora (quinta-feira à tarde) 1.451 casos confirmados e apenas 16 mortes.

A Nova Zelândia proibiu visitantes da China  desde o início de fevereiro, mesmo antes de ter tido um único caso do vírus. A Austrália encerrou completamente as suas fronteiras. Em contrapartida, o Reino Unido recusou-se a fechar as suas fronteiras – têm chegado voos de Heathrow e de outros pontos quentes da China, Irão, Itália e de outros pontos quentes da Covid-19 todos os dias deste ano. As suas cargas de passageiros viajam então para o centro de Londres nas linhas de tubos de incubação do Senhor  Khan,  que está paralizado.

Desde março, a Nova Zelândia tem sido única a procurar não só aplanar a curva dos casos de coronavírus, como a maioria dos outros países tem procurado fazer, mas também a eliminar o vírus por completo. Os testes Covid-19 estão generalizados. Os compradores de supermercados estão mesmo a ser testados aleatoriamente e, caso sejam positivos, os seus contactos são rastreados. O sistema de saúde não tem sido sobrecarregado. Os novos casos atingiram o seu auge no início de abril.

Isto não é ciência de foguetes – é, em grande parte, senso comum.

A tirania dos “especialistas

Num artigo detestável para o New Statesman na semana passada, Caelainn Hogan citou um investigador irlandês, sem dizer o seu nome, que primeiro que tudo,  eles [os britânicos] disseram-nos  durante o  Brexit para não ouvirmos os peritos… Agora vão tentar transferir as culpas para a comunidade científica…

Haverá muito tempo para recriminar e culpar depois do vírus ter sido vencido. Por agora, noto que, na realidade, a classe política britânica tratou a comunidade científica com uma reverência bajuladora que não merece. O que me parece é que não vejo ninguém ser suficientemente corajoso para dizer que os “especialistas” têm  enviesamentos cognitivos inerentes [à sua ideia de especialistas], mesmo que não estejam conscientes deles. Este foi o tema de Daniel Kahneman  em Thinking Fast and Slow, um dos livros mais influentes sobre economia comportamental dos últimos anos.

O psicólogo Paul Slovic, que influenciou muito Kahneman, considera que um efeito heurístico leva as pessoas a “deixar que os seus gostos e aversões determinem as suas crenças sobre o mundo”. Se estiver inclinado para uma ação governamental forte para combater o coronavírus, acreditará que os benefícios do confinamento  são substanciais e que os seus custos podem ser geridos.

O economista americano Barry Brownstein escreveu na semana passada que a cobertura mediática do impacto do coronavírus é tendenciosa para a novidade e a pungência. A reação emocional resultante molda as nossas estimativas dos riscos, que incluem os riscos para a saúde determinados pelos confinamentos  – como o tratamento cancelado para as pessoas que sofrem de cancro, que conduzirá certamente a um aumento da mortalidade.

A quantificação dos riscos não é objetiva; e os peritos têm exatamente os mesmos preconceitos cognitivos que os não peritos. Além disso, os peritos são sempre demasiado confiantes nas suas próprias hipóteses, porque lhes é constantemente dito que eles são peritos – na realidade, que são magos. Além disso, se se reúnem dois peritos, estes  são suscetíveis de pensar em grupo. A sabedoria popular diz-nos que os grupos são mais inteligentes do que os indivíduos; mas há muitas provas psicológicas de que os grupos podem ser estúpidos porque são culpados de enviesamentos  de confirmação. Ou seja, eles procuram inconscientemente informações que confirmam as suas intuições subjacentes. O resultado é fazer com que qualquer opinião dissidente pareça  excêntrica.

Sem dúvida que o Professor Whitty sabe muito mais sobre epidemiologia do que eu (ou você); mas, como explica James Surowiecki em A Sabedoria das Multidões: nada  prova verdadeiramente  que alguém se possa tornar especialista num domínio  tão amplo como a tomada de decisões ou a política.

Lições da Segunda Guerra Mundial

No seu livro A Máquina de Guerra Britânica, o Professor David Edgerton explica como a função pública britânica convenceu os políticos, no início da Segunda Guerra Mundial, de que haveria milhões de mortes de civis britânicos a curto prazo em consequência do bombardeamento de civis pela Luftwaffe. Já em setembro de 1939 os hospitais foram esvaziados e começou a evacuação em massa de crianças das grandes cidades.

A estimativa inicial do Gabinete de Guerra era de 50 mortos e feridos por tonelada de bombas lançadas. O Ministério do Interior elevou então esta estimativa para 72 mortos por tonelada de bombas lançadas, com base na análise dos ataques aéreos nazis a Barcelona, em março de 1938. O Professor Edgerton escreve: “Algumas provas também de Barcelona sugerem dezassete baixas por tonelada, mas isso foi ignorado. O Ministério da Aviação advertiu Neville Chamberlain de que haveria 2,5 milhões de baixas nas primeiras dez semanas da guerra.

Já em fevereiro de 1939 estavam a ser emitidos abrigos Anderson – produzidos em massa com ferro canelado – e máscaras de gás para as classes trabalhadoras. Previsivelmente, os trabalhistas  argumentavam que estas proteções eram inadequadas e exigiam que se fizesse mais. Mas quando chegou, o bombardeamento foi muito menos mortal do que se esperava. O Professor Edgerton estima que o número final de mortos durante o Blitz foi de 2-3 mortos por tonelada de bombas lançadas. No entanto, isso ainda representa 150.000 a 200.000 vidas perdidas.

A minha avó viu  a minha mãe e as suas duas irmãs mais novas saírem de  Paddington no desolador mês de janeiro de 1940. Ninguém sabia para onde elas iam. Acabaram por ir parar a Northampton. Mais tarde, nunca falaram dos três anos e meio que lá passaram, embora eu soubesse que tinham estado  separadas. Quem me dera ter pensado em perguntar-lhes – mas agora é demasiado tarde, pois já se foram todos embora.

Regressaram a Londres no final de 1943, quando o Ministério do Interior flexibilizou a sua política de evacuação – mesmo a tempo dos ataques massivos já quase no fim de guerra que quase matavam toda a gente numa  noite. Isso são peritos para si.

No outro dia estava a cortar a relva e, de repente, veio-me à cabeça uma imagem de três jovens mulheres num comboio em direção a um destino desconhecido e a um futuro incerto. Senti uma punhalada de angústia no peito.

Quanto ao meu pai, ele foi enviado para Exeter. Ele não se importou nada com a família anfitriã e – literalmente – pegou numa bicicleta (que eu suspeito que ele terá roubado ) e voltou para Londres. Uma vez aí,  foi a uma estação de recrutamento da RAF, onde mentiu sobre a sua idade (tinha apenas 17 anos). Algumas semanas mais tarde, estava no Old Queen Mary, a funcionar então como um navio de transporte de tropas, em direção ao Canadá. Ele passou a maior parte da Guerra a voar  sobre os Grandes Lagos.

Há alguns anos a minha parceira  e eu estávamos em digressão pela Califórnia e ficámos no Queen Mary I, que agora serve como um hotel boutique em Long Beach, nos subúrbios espalhados de Los Angeles. Depois de um jantar reconhecidamente bíblico, voltei para a minha “cabana”; e, enquanto olhava atentamente para  os longos corredores, concebi a extraordinária  ideia  de que o meu pai estava presente ao meu lado.

Não tenho a certeza se acredito em fantasmas ou espíritos. Mas, como disse Hamlet: Há mais coisas no Céu e na Terra/ Do que se sonha na tua filosofia, Horatio.

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[1] Nota do tradutor.  Os  NHS Nightingale Hospital, são hospitais públicos criados em 2020 especificamente para tratar  a pandemia coronavirus.

[2] [i] Corona Wars. The Spectator, 18 April 2020.

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Para ler este artigo de Victor Hill no original clique em:

The lockdowns are working – but we shall never get back to “normal”

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