Coronavírus, o dia seguinte – “Uma crise económica violenta, estrutural e profunda”, por Romaric Godin

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Seleção e tradução de Francisco Tavares

“Uma crise económica violenta, estrutural e profunda”

Romaric Godin Por Romaric Godin

Publicado por Mediapart em 20/05/2020 (ver aqui)

 

A crise económica que se abre após a crise sanitária tem um potencial devastador, atingindo sobretudo os serviços e redefinindo novas regras para o funcionamento do capitalismo. O custo social será muito elevado.

A crise económica que surgiu da confinamento quase global face à pandemia do Covid-19 é única em mais do que uma forma. É uma crise resultante de uma decisão política (sem que se saiba, aliás, se a ausência de confinamento teria tido consequências menores), de uma violência sem precedentes e que modificará de forma duradoura a estrutura e o funcionamento do capitalismo contemporâneo. Como sempre acontece quando o capitalismo “se adapta”, esta mudança terá consequências sociais e, sem dúvida, políticas consideráveis.

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O estaleiro de construção do Grand Paris Express. AFP

A primeira etapa será a própria violência da transformação da crise sanitária numa crise económica. O crescimento contínuo do capital é um fenómeno necessário da economia capitalista e pressupõe, portanto, a impossibilidade de interromper o ciclo de valorização da produção através da troca de mercadorias. No entanto, é possível uma suspensão. É isto que vemos, em tempos normais, todos os fins-de-semana: as fábricas fecham como muitas empresas, mas o que não foi produzido e consumido é produzido e consumido durante o resto da semana. O processo de produção costuma contentar-se com isto (embora desde a era neoliberal tenha havido um impulso para manter esta suspensão tão limitada quanto possível).

Como o economista Richard Baldwin salientou no início de Março, foi esta lógica de “fim-de-semana prolongado” que presidiu às decisões de confinamento e às políticas económicas de apoio ao rendimento durante o referido confinamento. Pensou-se que a economia de mercado poderia ser suspensa o tempo necessário para controlar a epidemia, e então, quando a situação sanitária voltasse ao normal, tudo voltaria ao normal. Como os rendimentos tinham sido preservados, os agentes consumiriam o que não tinham podido consumir durante o confinamento, tal como finalmente se fazem compras nos dias da semana que não se fazem aos domingos. As empresas veriam, portanto, os seus lucros recuperar e, para satisfazer a procura, investiriam para melhorar a produtividade. O ciclo do capital recomeçaria como se nada tivesse acontecido.

Esta visão trai uma certa ingenuidade. O tempo de confinamento é demasiado longo e demasiado excepcional para ser assimilado a um simples fim-de-semana. A produção está normalmente organizada para acomodar feriados e fins de semana. É uma paragem que sabe como gerir, repartindo os dias livres pelos dias de trabalho. Estes dias são previsíveis e regulares. Mas o confinamento chegou de repente, em poucos dias. Durou muito mais tempo. Quanto mais longo for o tempo de paragem do circuito económico, maior é o impacto na rentabilidade: facturas, rendas e reembolsos de créditos têm de ser honrados. Em muitos casos, estes encargos fixos foram suspensos ou pagos pelo Estado (tais como salários ou contribuições para a segurança social), mas não todos, e algumas destas facturas voltarão mais tarde e reduzirão o volume de negócios futuro.

Além disso, a perda de receitas incorrida pelo sector privado durante o confinamento não será totalmente recuperada, uma vez que algumas das despesas não são transferíveis para o futuro. Não é certo que aqueles que não puderam ir a restaurantes durante três meses os visitem suficientes vezes depois para compensar a perda do volume de negócios. Veremos que, do lado da procura, a dinâmica não está necessariamente do lado da recuperação.

Finalmente, ao contrário do final do fim-de-semana, quando a actividade “normal” é retomada imediatamente, o desconfinamento é um processo e não uma data. Trata-se de uma série de datas de abertura diferentes em função dos setores e países (por vezes regiões), com condicionalismos novos. Por exemplo, em França, parte do sistema escolar não foi reaberto, obrigando os trabalhadores a permanecerem em casa. Sabemos que certos setores, como a restauração ou a cultura, ainda estão condicionados por encerramentos administrativos de instalações. Para muitos, a reorganização da produção é delicada, na ausência de uma data clara para o seu reinício.

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Os efeitos do confinamento em vários sectores. Insee

Para não falar do facto de haver sempre o risco de um novo surto da epidemia, a mais ou menos curto prazo, com o risco de um novo confinamento. Nestas condições, qualquer reorganização da empresa, que implique custos adicionais, está sujeita ao risco de um novo encerramento. Por conseguinte, serão envidados esforços para limitar as despesas efectuadas a mais ou menos longo prazo e, por conseguinte, os investimentos. De acordo com um inquérito do INSEE, os líderes empresariais prevêem um abrandamento dos seus investimentos em todos os setores da indústria transformadora com um pessimismo próximo do de 2008-2009. É precisamente através deste canal que uma crise de oferta se transforma numa crise de procura. Ao consumir menos bens de capital e serviços, as empresas reduzem o emprego global e, consequentemente, a procura.

Mas a crise atual é também uma crise de procura. Se a hipótese do “grande fim-de-semana” falhou, é também porque as famílias não tencionam gastar a sua poupança forçada, estimada pelo OFCE em 55 mil milhões de euros (e por outros em mais de 80 mil milhões de euros), para compensar os dois meses de confinamento. Embora uma grande parte dos seus rendimentos possa, em alguns casos, ter sido assegurada por acções governamentais, as famílias, tal como as empresas, estão sujeitas a uma incerteza radical. Nada lhes garante que, se houver um novo confinamento, tudo acontecerá da mesma maneira. Aqueles que estão parcialmente desempregados perderam frequentemente rendimentos e têm um sentimento legítimo de empobrecimento. Todos vêem as empresas a ajustar os seus custos e planos sociais a multiplicarem-se. Por conseguinte, temem pelos seus empregos. Tudo isto encoraja as pessoas a poupar como medida de precaução.

Só em Março, as cobranças da caderneta de poupança Livret A tinham aumentado 20 mil milhões de euros e Bruno Le Maire [ministro das Finanças] ficou incomodado com isso. Mas a gestão calamitosa da crise e a persistente ameaça de doença não encorajam as pessoas a correr riscos, ou mesmo a esvaziar as suas poupanças em várias formas de consumo. Contudo, podemos compreender o incómodo do Ministro da Economia e das Finanças: é a sua estratégia baseada na ideia de “recomeçar como antes” que está aqui a ser frustrada. No entanto, se a procura continuar fraca, as empresas terão de ajustar os seus efectivos ao nível dessa procura e, por conseguinte, despedir pessoal, o que irá deprimir ainda mais a procura…

Por conseguinte, a situação é grave. Estes dois meses em que a economia de mercado esteve num impasse transformaram-se naturalmente numa grande crise económica, uma vez que os governos – a começar pelo francês – se contentaram em deixar desenvolver os mecanismos capitalistas. A crise sanitária conduziu a uma dupla crise da oferta e da procura, a primeira transformando-se rapidamente numa crise da procura. É uma situação que, pela sua dimensão, é preocupante e pode muito bem durar muito tempo. Com efeito, apesar da recuperação natural de uma parte da actividade após o confinamento, a economia poderia ver-se travada pelo impacto das medidas de redução da mão-de-obra, a fim de restabelecer as margens e adaptar a produção ao novo nível de procura.

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Queda histórica do PIB no primeiro trimestre de 2020. Insee

 

Globalmente, o PIB é uma boa medida da dimensão da crise. Numa entrevista à Mediapart no ano passado, Éloi Laurent, um dos mais ferozes críticos do PIB como indicador de bem-estar, reconhece que a sua invenção em 1931 por Simon Kuznets tinha por função “medir uma crise global através de um indicador global” e considera o PIB principalmente como “um indicador de crise“. Com efeito, permite tomar consciência da perda dos fluxos de valor acrescentado criados pela economia. E, por conseguinte, da amplitude dos ajustamentos que serão necessários para a sua compensação.

Em França, estima-se que a compressão do PIB francês em 2020 será de cerca de 8-10%, o que é quase único em tempo de paz. É certo que a missa ainda não terminou, e será necessário observar se as perspectivas se esclarecerão mais rapidamente do que o previsto. Isso dependerá muito do curso da doença, mas, por enquanto, não podemos esperar surpresas agradáveis. A perda do valor acrescentado produzido influenciará directamente a sua partilha futura.

O primeiro problema será a sobrevivência de certas empresas. Em alguns setores, a dimensão do choque pode conduzir as empresas à falência se a rentabilidade não recuperar suficientemente para fazer face aos custos fixos e aos prazos de vencimento das dívidas contraídas nos anos anteriores à crise.

Não devemos esquecer que a França tem sido um dos países europeus onde a dívida privada das empresas tem continuado a aumentar nos últimos anos. No terceiro trimestre de 2019, atingiu 135% do PIB, contra 119% em média para a zona euro. Esta situação enfraquece as empresas quando o volume de negócios entra em colapso e há falta de meios para fazer reembolsos.

Embora o governo tenha oferecido empréstimos garantidos, nem todos foram concedidos pelos bancos (uma vez que os bancos assumiram uma pequena parte – entre 10% e 30% – do risco). Acima de tudo, trata-se apenas de empréstimos que terão de ser reembolsados com menos recursos. A 6 de Abril, a seguradora de crédito Coface estimava que as falências poderiam aumentar 15% em França em 2020, mas, nessa altura, a queda esperada do PIB era apenas de 1%… Estas falências deveriam obviamente conduzir a um forte aumento dos despedimentos, especialmente nas pequenas empresas, as mais frágeis, que são também os principais empregadores do país. Também aqui, o impacto na procura será muito significativo.

De um modo mais geral, porém, as empresas, mesmo as que permanecem viáveis, tentarão influenciar, tanto quanto possível, a partilha do valor acrescentado, a fim de reduzir a transferência para os salários, ou seja, para poderem compensar a perda registada por uma diminuição equivalente do custo do trabalho. As empresas procurarão, de facto, evitar alternativas a esta opção. Para obterem financiamento, manterem as suas avaliações bolsistas e, no caso das PME, manterem o nível de vida dos seus gestores, as empresas procurarão reduzir o mais possível o impacto nos lucros e na sua distribuição.

Como vimos, os investimentos serão provavelmente também reduzidos, mas se isso não for suficiente, o objectivo das empresas será fazer com que os seus empregados, os seus clientes ou ambos contribuam tanto quanto possível para a redução do valor acrescentado. Uma vez que é provável que a procura seja reduzida numa base duradoura, a capacidade de influenciar os preços será muito limitada, excepto talvez em alguns setores específicos. Por conseguinte, é provável que o ajustamento se centre nos trabalhadores, quer através de reduções de pessoal, quer através de cortes nos salários horários. Daí as exigências dos empregadores, nos últimos dias, de um regresso à semana de trabalho de 35 horas, de uma redução das férias pagas e de leis laborais mais flexíveis.

 

Uma crise estrutural de grande envergadura

A resposta das autoridades parece dever ser de tipo neo-keynesiano. Por um lado, os governos reanimarão a atividade através do investimento direto e do apoio ao crédito já em vigor, na esperança de aumentar o nível da procura e, assim, manter algum emprego. Mas esta recuperação será conseguida à custa de “reformas estruturais” que terão por objectivo desarmar fundamentalmente o mundo do trabalho e reduzir a sua capacidade de desempenhar um papel na partilha da mais-valia. É este o sentido da iniciativa franco-alemã anunciada na segunda-feira, 18 de Maio, que anunciou 500 mil milhões de euros de estímulo orçamental colocados à disposição dos Estados empenhados em “reformas”. A ideia é simples: o Estado ajuda as empresas a encontrar pontos de escoamento, criando actividade ao mesmo tempo que apoia a “adaptabilidade” dos trabalhadores através de reformas. Em ambos os casos, o objectivo é, de facto, salvaguardar as margens e, sendo esse o objectivo, o mundo do trabalho terá de assumir a precariedade e os baixos salários durante o período de transição, pelo menos.

No entanto, a crise atual pode muito bem ser mais dura do que o esperado. É mais violenta do que a crise de 2008 e, ao contrário do que aconteceu em 2008, a economia chinesa, que tinha suportado a maior parte da recuperação com planos de recuperação muito agressivos e ecologicamente desastrosos (através da produção excessiva de cimento ou aço, por exemplo), parece já não ser capaz de desempenhar o mesmo papel. A financeirização continua também a reduzir o impacto das políticas na economia real, captando uma grande parte dos benefícios da economia real.

Acima de tudo, porém, é provável que a crise atual provoque uma transformação muito mais profunda do que a que acaba de ser descrita. Com efeito, a pandemia irá alterar o comportamento dos consumidores e produtores a longo prazo. Isto será tanto mais verdade quanto a ameaça para a saúde persistir. Ora, ela persistirá, tanto diretamente, até ser encontrada uma vacina – e isto pode demorar muito tempo, o prazo frequentemente citado de dois anos é indicativo e de modo algum certo – como indirectamente. A partir de agora, a questão sanitária estará no centro das preocupações de todos. As empresas terão de alterar o seu comportamento para se adaptarem a este risco e tranquilizarem a população. O Covid-19 não será a última doença infecciosa. E, a cada novo risco, o espectro desta pandemia é susceptível de reaparecer, provocando comportamentos de proteção.

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Uma loja parisiense estabelece as regras de entrada. AFP

 

Portanto, a mudança pode muito bem ser duradoura. E vai mudar tudo, especialmente no setor dos serviços que, desde os anos 70, se tornou o principal motor das economias avançadas. O economista Alexandre Delaigue fala de um “choque de produtividade negativo” em grande escala em toda a economia. Com efeito, a produção terá de ser realizada em novas condições, garantindo ao mesmo tempo a segurança sanitária a longo prazo. Isto significará necessariamente ter menos pessoas por unidade de produção e novos custos para empresas como máscaras, gel hidroalcoólico ou alterações às instalações. A indústria será chamada a contribuir, mas é sobretudo no setor dos serviços que a questão será delicada.

Todos terão experimentado isto nestes primeiros dias de desconfinamento: ter acesso a serviços tão simples como entrar numa loja torna-se uma operação complexa. O número de clientes é limitado, há filas de espera, há por vezes condições de acesso (levar máscara, por exemplo) e haverá menos funcionários disponíveis para reduzir o contacto. Tudo isto reduz tanto a capacidade de volume de negócios por cliente como pode também desencorajar alguns compradores. No comércio a retalho, já não é claramente o momento para compras surpresa no contexto de um passeio. É melhor saber o que se quer, o que, mais uma vez, pode reduzir o volume de vendas. Menos vendas com os mesmos custos fixos ou mesmo mais: estes são os elementos de um choque de produtividade negativo.

De resto, outro economista, Olivier Passet, director de investigação da Xerfi, fala num vídeo recente sobre o questionamento dos modelos de negócio em que anteriormente se baseava o crescimento do setor dos serviços. Evoca uma “crise de utilizações”, sublinhando que põe em causa “a economia de alta frequência, a rotação acelerada da oferta, a massificação e a saturação dos espaços“. Para compensar a dificuldade de aumentar a produtividade dos serviços, tinha sido criado um sistema de reabastecimento e comercialização máximos baseado na utilização intensiva das áreas de venda. Esta “aglutinação que sustenta o modelo de consumo ameaça setores inteiros da economia“, sublinha Olivier Passet.

Entre os sectores mais afetados, cita, com razão, o de baixo custo [low cost], que foi a sua versão mais extrema, associando uma massificação da procura a uma redução dos custos através de uma redução dos serviços oferecidos. Os setores aéreo, do turismo e dos caminhos-de-ferro serão particularmente afetados. Mas é de facto toda a gama de serviços pessoais que será afetada por este choque de produtividade.

E este choque não vai ser isolado. Terá repercussões na economia no seu conjunto. Já podemos ver isso. A crise no sector dos transportes aéreos está a conduzir a uma crise em toda a cadeia de produção e, consequentemente, a milhares de postos de trabalho. A crise do turismo de massas ameaça as economias locais, desde a construção até à restauração. Globalmente, para responder a este choque de produtividade, as empresas terão pouca escolha a não ser reduzir as suas despesas atuais com “serviços às empresas”, um setor que constitui uma importante fonte de emprego. Alguns organizar-se-ão no teletrabalho, mas o sonho de aumentar a produtividade através da tecnologia digital continua a ser, de momento, pouco credível. O desafio, em todo o lado, será fazer poupanças, e essas poupanças só podem ser feitas no fator trabalho.

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Primeira página do “Sun”, 11 de Janeiro de 1979 © DR

 

A este respeito, encontramo-nos numa crise estrutural dos serviços que está próxima do que a indústria dos países ocidentais viveu na década de 1970. Setores inteiros de actividade poderiam então desaparecer pura e simplesmente, tal como as indústrias do carvão e do aço desapareceram nessa altura, conduzindo a uma reconfiguração completa da economia.

Mas, desta vez, a transformação será muito mais delicada. Com efeito, após os anos 70, os empregos perdidos na indústria foram compensados por empregos nos serviços, muitas vezes precários e menos bem pagos. Esta transferência baseou-se precisamente nos modelos empresariais descritos anteriormente por Olivier Passet, tendo as reformas estruturais, nomeadamente do mercado de trabalho, sido concebidas para facilitar esta mutação no emprego. Esta transformação assumiu os contornos ideológicos cintilantes da “destruição criativa” de Schumpeter, mas ela não foi senão uma fuga em frente que chocou precisamente contra o Covid-19.

Porque, desta vez, será difícil encontrar oportunidades de emprego para compensar as perdas futuras, especialmente porque, como vimos, a crise diretamente relacionada com o Covid-19 já será violenta. A situação é preocupante: o setor dos serviços é naturalmente menos produtivo do que a indústria. Vimos a que preço conseguiu continuar a ganhar alguns pontos em termos de produtividade. Mas antes da crise, o capitalismo já sofria desta crise estrutural com o abrandamento desta produtividade, que é a sua força motriz natural. Mas agora todos os setores dos serviços estão a ser atingidos por uma crise de produtividade. Por conseguinte, a saída para a crise parece extremamente complexa.

E é aqui que um simples plano de recuperação encontra os seus limites. A tentativa de salvar o que já existe corre o risco de estar condenada ao fracasso. De que serve injectar milhares de milhões de euros para construir novos hotéis ou parques de diversões que não serão rentáveis ou serão pouco rentáveis? De que serve salvar a Air France e a Airbus tal como são se os seus mercados estão a encolher inexoravelmente? Podemos certamente ganhar tempo, o que, de um ponto de vista social, não é negligenciável, mas, fundamentalmente, não vamos mudar nada com milhares de milhões para salvar uma oferta ultrapassada.

É certo que a França está aqui na linha da frente. O modelo económico que o país forjou para si próprio após a crise dos anos 70 parece prestes a entrar em colapso. Os líderes económicos e políticos apostaram em todos os cavalos errados: turismo de massas com parques gigantescos, serviços empresariais com subcontratação, redução da indústria aos transportes, especialmente transportes aéreos e navios de cruzeiro. O preço a pagar por estas más escolhas será severo.

Se, além disso, acompanharmos esta situação com uma política de reformas estruturais destinada a reduzir as transferências sociais para baixar a tributação das empresas e promover a “inovação”, destruiremos a única parte sólida da nossa economia: o Estado social. Será então uma política semelhante ao que aconteceu no início da década de 1930, em que as pessoas atiram petróleo para a fogueira na esperança ela se apague.

A esperança reside agora, sem dúvida, em dois movimentos: as relocalizações e as políticas ambientais. A primeira pode muito bem permanecer no reino das boas intenções. Num contexto de um choque geral negativo de produtividade, é difícil ver as empresas aceitarem aumentar os seus custos devido ao “patriotismo económico”. Se o fizerem, será apenas com base em condições de redução de salários e custos fiscais elevados. O efeito será, portanto, moderado.

Quanto ao “crescimento verde”, tem certamente potencial a curto prazo, mas não é certo que seja capaz de compensar um tal choque, tanto em termos de emprego como de lucros, especialmente porque, em última análise, implica uma maior sobriedade geral. Além disso, no contexto que acaba de ser descrito, será provavelmente necessário mais do que “parcerias público-privadas” para financiar uma verdadeira transição.

Na realidade, esta crise estrutural dos serviços coloca a questão de uma mudança global de lógica no centro da reflexão. Se a corrida infinita ao lucro através do aumento da produtividade continuar, então o custo social e político será inevitavelmente extremamente elevado. Aqueles que, doutamente, afirmam que o capitalismo tem uma capacidade infinita de adaptação e que, portanto, deve-se deixá-lo agir, esquecem-se frequentemente de dizer que as mudanças de regime no capitalismo se fazem a preço muito elevado. O choque do Covid-19 numa economia mundial que não tinha realmente recuperado da crise de 2008 tem assim uma força destrutiva considerável, uma vez que a “capacidade de adaptação” só pode ser conseguida à custa da redução do emprego e do nível de vida.

Parece, pois, tempo de refletir sobre uma lógica diferente em que as prioridades seriam diferentes: deixar de depender do consumismo e do produtivismo, defender o comum, proteger os mais frágeis, planear a satisfação das necessidades e assegurar uma verdadeira transição ecológica. Talvez tenha chegado o momento de utilizar o desenvolvimento das forças produtivas de outra forma que não através da lógica do crescimento, a fim de colocar o homem e a natureza de novo no centro. Tudo isto só pode ser conseguido através da defesa dos interesses do trabalho que vão ser severamente postos á prova. O preço a pagar por querer salvar o sistema atual será, de outro modo, imenso.

 

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O autor: Romaric Godin [1973 -] jornalista desde 2000, está na Mediapart desde maio de 2017, segue a macroeconomia, em particular a francesa. Anteriormente esteve em La Tribune em 2002, depois no departamento de mercado. Correspondente em Frankfurt, na Alemanha, entre 2008 e 2011, tornou-se chefe de redacção adjunto no departamento de macroeconomia responsável pela Europa até 2017.

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