A GALIZA COMO TAREFA – fanservice – Ernesto V. Souza

Um destes dias, ao chegar do trabalho à casa, topei nos correios uma publicação informativa mensária galega da que sou subscritor, por alguma amizade ou costume, há bastantes anos.

Abro e dou uma vista de olhos em cada página, na procura de algum texto ou de uma voz amiga. Rara vez passo dos cabeçalhos e fotos, em diagonal opinião, alguma entrevista. Tenho todos os números, coloridos e bem desenhados desta segunda volta, arquivados, mas quase impecáveis. Os das primeiras épocas não conservei, mas sim lia e recortava algum artigo que achava interessante.

Eu não sei que aconteceu com a imprensa. Não é apenas este caso, que afinal é uma pequena publicação pensada para um público muito reduzido e militante, obcecada num destinatário a cada vez mais homogéneo e portanto pouco e pouco mais limitado.

Mas é que, variando a quantidade de público a que chegarem, está na mesma de todos os jornais e revistas espanhóis (catalães inclusos). Parecem a cada dia mais jornais de partido, vinculados à ideologia que defendem; incapazes de publicarem informação ou opinião diversificada, limitando-se apenas, no bombardeamento da polémica do momento, a cabeçalhos de escândalo e confete que suspeitam gratos os seus leitores.

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Hati e Sköll, Willy Pogany, ilustração em Padraic Colum : Children of Odin, 1920 (fonte Wiki).

Os grandes jornais espanhóis, nos que se pode seguir esta fase de crise em crise, estão divididos entre pro-governo e anti-governo. Há muito que não suporto por isso. E rejeito visceralmente até a sua presença acarão, nos saudosos balcões dos bares, desde que fizeram bandeira da questão anti-catalã.

Entre os galegos, as cabeceiras tradicionais, poderiam – como já diziam os do semanário Ser em 1935 – estar escritos em pergaminho ou papiro, por igual que a maior parte da imprensa de caráter local ou regional espanhola, tal é a vetustidade das ideologias e interesses que representam. Mas é que já é detetável, esta transformação, até nos progressistas impressos e digitais. Insuportáveis também, tanto ou mais que os políticos e a política de partidos espanhola.

Os digitais galegos e papel, as revistas e publicações, que querem representar a modernidade, seguem hoje esta moda importada de Madrid, e estão longe de velhos projetos comunicativos, dos jornais e semanários e distanciando-se, cara pior em qualidade dos da década anterior. Eu diria que os conflitos entre as esquerdas também devastaram aí e dividiram o campo entre barras e torcidas.

Não sei se foram os jornais da Espanha que mudaram e com eles os galegos, dentro de uma involução global e tecnológica mais ampla, ou fui eu em algum momento, que com a idade virei saudoso. Contrasto com o semanário The Economist a que está subscrito a minha mulher, passo páginas de números amoreados na mesa, perfeitamente interessantes meses depois, fico com inveja, e ao ler aí o obituário de Eavan Boland, incrementa, no contraste, a sensação de amargura.

Make of a nation what you will
Make of the past
What you can
There is now
A woman in a doorway.
It has taken me
All my strength to do this.

Bem que eu posso ir lendo pela rede alguns jornais portugueses, franceses, britânicos, uruguaios, norte-americanos, brasileiros e catalães, e entre uns e outros posso ir atingindo fragmentariamente algumas sombras da realidade. Mas u-la informação e conteúdos nos média espanhóis? Parecem-me todos cada vez menos interessantes, excludentes, reacionários como revistas de moda e sociedade, como cada vez mais fechados, posicionados obrigatoriamente em todas e cada uma das causas e polémicas na moda e feitas de nada, uma arte da vaidade e do efémero, limitados a uns escritores de serviço, cada vez mais metidos no show indiscreto das redes sociais e destinados um público convencido que aguarda por tics e gags de repertório.

A cada dia me resultam mais distantes os seus conteúdos, a forma e a linguagem. Vou deixando de ler, fui apagando subscrições. Não sei bem quando os média, influídos pelas redes sociais e os seus contadores de tendências, se converteram apenas em fanservice. Que saudades dos jornais a sério.

1 Comment

  1. Exato, Ernesto, a imprensa espanhola é uma merda inçada de fakes news.
    A Galega…é infelizmente bem espanhola e o nacionalismo galego está inserido mo universo hispano de epicentro madrileno; infelizmente não o sabem. Leio pgl, galiza-livre, praza, nós-diário e alguma pinga mais
    Eu leio digitais catalãs, um par de jornais portugueses e bocados por todos os lados sem esquecer nunca o.meu Le Monde internacional. Sigo Brasil247.com. e em youtube adoro Gregório Duvivier e Meteoro brasil, os dous pagam bem a pena.

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