CRISE DO COVID 19 E A INCAPACIDADE DAS SOCIEDADES NEOLIBERAIS EM LHE DAREM RESPOSTA – LI – A ECONOMIA E OS NÚMEROS, de JOHN MAULDIN

 

The Figure-it-out Economy, por John Mauldin

Mauldin Economics, Thoughts from the front line, 1 de Maio de 2020

Selecção, adaptação e tradução de Júlio Marques Mota

 

O sentimento de mercado reflete o sentimento humano, que ultimamente tem sido bastante negativo – o que é compreensível, dada a grande incerteza em torno da pandemia de coronavírus. Há um mês, não sabíamos para onde tudo isto ia, mas era potencialmente grave.

Quase posso começar a sentir que os sentimentos estão a mudar. Estão a ser anunciadas novas terapias medicamentosas e estão a ser desenvolvidas dezenas de vacinas. Há uma grande probabilidade de uma ou mais vacinas funcionarem até ao final do ano. A implantação será difícil, mas exequível. Esta mudança de sentimento, combinada com generosos apoios fiscais e injeções de liquidez, dá aos investidores mais confiança, pelo que vemos  a cotação das  ações a aumentar.

Geralmente não sou de “estar  contra todos “, mas pergunto-me realmente quanto tempo isto pode durar.

Olhando para  a situação  não como investidor, mas como empresário e proprietário de pequenas empresas, penso que alguns estão a sobrestimar muito a rapidez com que a economia pode recuperar. Indústrias inteiras, já não viáveis nas suas formas atuais, têm agora de descobrir novas formas de fazer negócios.

Eles também o descobrirão, porque é isso que os empresários fazem. Mas não o fazem de um dia para o outro, ou mesmo dentro de alguns meses, nem tomam caminhos diretos daqui até lá. Estou a falar em alto e bom som com confiança no empresário americano. Apostar contra não só contra o empresário americano, mas também contra os empresários de todo o mundo em sociedades de mercado relativamente livre sempre foi uma proposta perdedora. Isso não significa que vá ser fácil ou rápido.

As regras foram alteradas. Como escrevi há duas semanas, estamos no processo de Reavaliar o Mundo. E quero dizer que tudo vai ser reavaliado. Não está claro como é que isso vai acontecer. Será que os proprietários serão forçados (pelo mercado) a aceitar alugueres mais baixos nos restaurantes? Será que o custo da comida dos nossos restaurantes vai subir? Cabeleireiros? Mil outras coisas que compramos?

Hoje vamos ver como isto pode funcionar, e o que significa para os investidores de ações. Para uma discussão ainda mais profunda, registe-se para a minha próxima Conferência De Investimento Estratégico Virtual, um evento online que decorre ao longo de cinco dias, entre 11 e 21 de maio, durante 4 a 5 horas por dia. Pode vê-lo ao vivo e fazer perguntas, ou assistir às apresentações a seu tempo de lazer e pessoal a partir de sua casa ou escritório. Também vais ter transcrições escritas.

Posso dizer honestamente que nunca tivemos uma formação tão poderosa como esta SIC. Construí-a pessoalmente para responder às perguntas que temos em mente.

    • Quão profundo será o choque da atual recessão, e como será a recuperação a curto prazo?

    • Qual é o impacto a longo prazo na economia, nos mercados e na sociedade?

    • Que oportunidades de lucro sairão dos escombros e como as aproveitá-las?

Qual será o impacto na sociedade pós-vacinação? Falaremos de geopolítica, de muita tecnologia, de ideias específicas de investimento de algumas das maiores mentes de investimento do mundo, do basebol interno da política que se aproxima, olhando para a China, para a Europa e para os mercados emergentes, para as consequências da indústria energética, e muito mais.

Esta crise deu-me a oportunidade de reunir quase o dobro dos oradores que normalmente consigo, e trazê-los até si no conforto da sua própria casa ou escritório, a um preço que é uma fração do normal. Veja apenas alguns dos nomes da faculdade:

Ian Bremmer, Leon Cooperman, Peter Diamandis, Niall Ferguson, George Friedman, Louis e Charles Gave (da França), Neil Howe, Lacy Hunt, Michael Pettis, da China, Matt Ridley, Felix Zulauf, da Suíça, e por último, mas não menos importante, Ross Beaty, um dos mineiros de ouro mais bem sucedidos do mundo.

Haverá muitas apresentações curtas combinadas com muitos painéis e discussão. Esta conferência destina-se a dar-lhe as respostas de que precisa.

Ainda em alta

A economia dos EUA contraiu 4,8% no primeiro trimestre, de acordo com a primeira estimativa divulgada na quarta-feira. Esta mesma economia estava a crescer (lentamente) no início de março. Em duas ou três semanas limpou os ganhos de todo o trimestre o  que é sem precedentes.

Os adeptos de curvas em forma de sino, simétricas,  dirão que uma economia que cai tão rapidamente pode recuperar com a mesma rapidez, especialmente quando as autoridades monetárias e  orçamentais  estão a injetar muito combustível para que o “carro” da economia possa andar sem entraves. Vemos isto na última sondagem Barron’s Big Money Poll de 107 gestores de topo nos mercados. Questionados  para previsões no mercado bolsista este ano, 39% falam em alta, 20% em baixa e 41% neutros.

Assim, somando os que acham que vai haver recuperação e os  que falam de neutralidade, 8 em cada 10 gestores  nos mercados monetários  veem pelo menos alguma hipótese de retorno positivo dos capitais próprios até ao final do ano. Eles estão ainda mais confiantes para 2021, com 82% a prever alta e apenas 4% baixa.

O painel do Barron tem muitos gestores a falar de mercados em alta, argumentando que as coisas vão voltar ao normal e que agora é a altura de comprar. O que é a mesma coisa que as pessoas disseram em 2007-2008.

O meu amigo Ed Yardeni fala igualmente em alta, em grande parte devido às ações da Reserva Federal. Ele também pensa que os analistas irão provavelmente exagerar as suas estimativas de receitas e ganhos para o lado negativo, para depois as reverem em alta mais tarde, numa alta de grande surpresa.

Como otimista natural, eu próprio admiro as pessoas que demonstram confiança em situações difíceis. Mas também penso que a recuperação levará mais de um ano ou dois. Estou sempre a falar com proprietários de pequenas empresas e dirigentes de empresas  e todos eles dizem que vai ser uma subida longa e dura para fora deste buraco em que nos encontramos hoje.

Novos Modelos

Na semana passada, registei a observação de Woody Brock de que o sector dos serviços é o motor do crescimento e do emprego. O confinamento  do coronavírus, embora necessário, foi uma espécie de míssil guiado a laser para o núcleo da economia dos serviços. Os números subestimam a quantidade de destruição ocorrida.

Em 1920, 26% da população dos EUA trabalhava no sector dos serviços da economia. Atualmente, são 86%. Esta é a principal razão para a extraordinária redução da volatilidade económica. A cauda do fabricação/existências  já não abanava o cão, ou seja, em termos de estabilidade era um estabilizador económico e social. Era aparentemente muito seguro, até que esta pandemia ocorreu. Agora, nas últimas semanas, 30 milhões de pessoas inscreveram-se no desempregado e, potencialmente, mais 10 milhões na economia gig dos trabalhos precários perderam os seus rendimentos.

Ao contrário da indústria transformadora, do comércio a retalho ou da agricultura, as empresas de serviços não conseguem manter um inventário. Não podem simplesmente fechar durante algumas semanas e depois recuperar o tempo perdido. Não há uma segunda oportunidade para vender aquele quarto de hotel à noite, aquele lugar naquele voo de avião, aquela refeição naquele dia no restaurante, aquele corte de cabelo, transporte Uber, ou cocktail. As receitas foram vaporizadas, não adiadas. Assim, tendo perdido permanentemente semanas ou meses de receitas enquanto muitas despesas fixas continuaram, as empresas de serviços estão profundamente no vermelho.

Não haverá retorno à normalidade enquanto o vírus continuar a constituir uma ameaça para a saúde. O negócio dos serviços não pode simplesmente voltar a abrir as suas portas. Têm de repensar tudo o que fazem. Processos que levaram anos ou mesmo décadas para serem concebidos e otimizados são agora impraticáveis. Substituí-los não vai acontecer dentro de algumas semanas. E tornar os processos suficientemente eficientes para igualar as margens de lucro anteriores vai demorar ainda mais tempo.

Restaurantes e outras empresas de serviços ganham dinheiro ao ocupar  um número definido de cadeiras com um número definido de pessoas que gastam uma quantidade definida de dinheiro num período de tempo definido. Interrompa qualquer parte dessa fórmula e tudo se desmorona. É a isso que estas empresas voltarão quando lhes for permitida a reabertura.

A Coreia do Sul está algumas semanas à frente dos EUA e a situação lá está sombria, segundo este relato do Wall Street Journal (WSJ):

Quando se reúnem num escritório, as pessoas usam máscaras. Nas refeições, os comensais sentar-se-ão uns ao lado dos outros ou em ziguezague, não diretamente em face um do outro. Os quartos de hotel serão ventilados durante 15 minutos após o check out dos viajantes. Os visitantes dos jardins zoológicos e aquários devem ficar a 2 metros de distância. Os gritos e os abraços serão desencorajados nos eventos desportivos. O mesmo acontecerá com os grandes desportos de massa.

…Kwon Sae-min, 29 anos, que trabalha numa padaria em Seul, está agora a tirar as temperaturas dos clientes à entrada e a pedir-lhes que higienizem as mãos e  que sejam eles a passar os cartões de crédito.

“Agora é muito trabalho adicional para  gerir os clientes”, disse a Sra. Kwon.

A Sra. Kwon põe o dedo na ferida. Tudo vai ser agora feito com muito trabalho adicional. Os EUA podem dar mais flexibilidade às empresas do que o Governo da Coreia do Sul, mas não é o único constrangimento. Os clientes têm de se sentir seguros. Os governadores podem levantar as suas ordens de confinamento  mas não podem fazer as pessoas vir às compras, nem podem fazer as empresas abrir.

Não se trata apenas da Coreia. Eis o que Simon Hunt nos diz das suas fontes na China:

Um amigo nosso deixou Xangai para a sua cidade natal, na província de Hunan. O aeroporto de Xangai estava vazio, tal como o aeroporto da sua cidade natal, em contraste com o habitual hubbub nesta época do ano. Os táxis não existiam na sua cidade natal, porque havia tão poucos visitantes que não era rentável. Além disso, o taxista, que acabou por aparecer após uma hora de espera, disse-lhe que a estação de comboios de alta velocidade também estava vazia.

Este exemplo da vida em toda a China confirma a nossa tese de que o agregado familiar médio vai manter as mãos nos bolsos para reconstruir a poupança e recuperar a confiança. Assim, só no 4º trimestre é que a despesa dos consumidores se tornará a terceira força motriz da recuperação da economia, sendo as outras duas as infraestruturas e a construção.

É o que se reflete na Carta de John Browning, de Xangai #451:

Mas como aqui em Xangai estamos talvez na semana 15 da pandemia e os EUA na semana 7 ou 8, talvez possamos discutir os desafios que se avizinham. Verifico que as compras online descolaram em grande escala e que um dos meus supermercados locais fechou, aparentemente, de vez. Mas as pequenas lojas locais estão a prosperar, e existe um verdadeiro sentido de localismo, pois ao longo da pandemia ganharam a gratidão e a boa vontade da comunidade, uma mudança que suspeito que será permanente. Na verdade, não tenho qualquer desejo de atravessar a cidade, onde quer que eu não chegar a pé é muito longe. O que também significa que, para as minhas maiores compras, estas são feitas on-line e este é o caminho a seguir.

A lição da China é que o medo de uma segunda vaga de infecções e de uma insegurança incómoda no emprego incentiva as pessoas a ficarem em casa e a pouparem. O Sr. Powell já reconhece que é pouco provável que a recuperação da economia dos EUA “volte rapidamente aos níveis anteriores à crise” e “ainda haverá um nível de cautela… que poderá manter-se por algum tempo”. Se eu puder parafrasear por um momento, se estamos a usar máscaras, o consumo não será como era antes.

Ouço o mesmo de outras fontes na China. As empresas estão a voltar, mas os consumidores continuam cautelosos.

Em algumas  regiões dos EUA, os restaurantes estão a ser autorizados a reabrir a uma capacidade inferior, normalmente 25% ou 50%. Não podem voltar a ter lucros  dessa forma, mesmo sem todos os custos adicionais. Por isso, muitas vezes, a coisa mais inteligente do ponto de vista financeiro que podem fazer é manterem-se fechados, e muitos estão. Talvez abram dentro de algumas semanas, se o vírus e as restrições associadas diminuírem. Mas, entretanto, os trabalhadores continuam desempregados e as despesas de todos permanecem silenciosas. E constantes.

O mesmo se aplica ao comércio retalhista. A Macy’s está a começar a reabrir as suas lojas, mas um executivo disse ao WSJ que espera menos de um quinto do volume normal de vendas no início.Parte superior do formulário

Os problemas são múltiplos:

– Os clientes estão relutantes em regressar

– Aqueles que regressarem gastarão menos

– Servi-los como agora requerido e/ou esperado irá custar mais.

Essa matemática não é coerente com uma recuperação em forma de V, mesmo com todo o financiamento do estímulo. Não é preciso procurar muito tempo para perceber que o dinheiro que supostamente flui para a Main Street não está a chegar aos negócios mais pequenos. Mesmo que representem apenas 10 ou 15% da economia, isso é suficiente para desencadear uma recessão grave e prolongada.

Será que voltamos? Absolutamente. A questão é quando e como?

Deixe-me tirar este trecho da Danielle DiMartino Booth of Quill Intelligence (uma das minhas leituras obrigatórias diárias). Repare no gráfico. Os consumidores americanos estão a comportar-se exatamente como os consumidores chineses descritos acima. Os seres humanos reagem à incerteza da mesma forma em todo o mundo. Tornam-se cautelosos.

Os cortes nas despesas excederam os ganhos de rendimento em março, gerando uma lua cheia de poupanças pessoais; a acumulação de pedidos de subsídio de desemprego sinaliza uma melhoria sustentada do consumo, escapará  a qualquer retoma  do mercado de trabalho, uma vez que os requerentes não aprovados são privados de qualquer rendimento.

Mercado a carburante de aviões

Penso que, com o passar do tempo, as empresas vão descobrir isso. O problema é que as perdas continuam a acumular-se e o buraco vai-se aprofundando. . Isso não é bom para os lucros das empresas, e não apenas para as empresas de serviços. Uma espécie de efeito de arrastamento inverso irá afetar quase todos os consumidores e empresas.

Muitos dos que esperam mercados bolsistas  em alta  reconhecem isto, mas pensam que não vai ser importante, uma vez que o Fed continua a injetar mais combustível para aviões a jato. Não tenho a certeza de que seja uma boa hipótese de partida. O Fed tem feito muito e promete ainda mais, mas a Main Street precisa de clientes. O Fed não os pode criar.

No entanto, o combustível para aviões a jato conseguiu empurrar à subida os valores de referência e as avaliações de stocks regressam para muito próximo dos seus antigos máximos. É evidente, e provavelmente com razão, que os investidores estão dispostos a olhar para além dos rendimentos do segundo e possivelmente até do terceiro trimestre, que todos reconhecem que serão sombrios.

Mas o que acontece quando os ganhos são sombrios no quarto trimestre?

Com o Fed  à  mistura, suponho que este ano ou no próximo são possíveis novos máximos de mercado, mas não consigo imaginá-los a durar muito tempo. Os espíritos animais que levaram nomes conhecidos a valores mais altos estão seriamente mais fracos do que em Fevereiro, e não prevejo que voltem.

Dois grandes pontos:

  1. Algumas empresas, tanto pequenas como grandes, vão sair-se extremamente bem neste ambiente. Os seus lucros vão aumentar. Vão ajudar a aumentar os índices. Do mesmo modo, vamos perder mais empresas do que a maioria pensa atualmente. Vão ter o efeito oposto. Este vai ser um mercado de apanhadores de ações. Os investidores do índice, como tenho vindo a dizer há vários anos, terão a sua cabeça e os seus 401(k)s ser-lhes-ão entregues.

  2. Mais uma vez, concordo prontamente que o mercado está a olhar para além dos próximos dois trimestres. Mas será que os investidores vão olhar para além do quarto trimestre? Mesmo que consigamos uma vacina até ao final do ano, será um milagre se todos a recebermos até ao final do primeiro trimestre de 2021. E os balanços foram já destruídos para tantas empresas. Haverá oportunidades para as empresas em fase de arranque em todo o lado, pois uma gestão de gente experiente precisará necessariamente de capital.

É perfeitamente possível que os investidores fiquem simplesmente desiludidos com o olhar para além dos lucros dos próximos trimestres. A dada altura, a atitude vai mudar para: “Mostrem-me o dinheiro! Mais uma vez, quem sabe o que é que o FED fará. Se o mercado começar a recusar, começarão a comprar ETFs como o Japão? Caros deuses, espero que não. Mas, neste momento, não há forma de prever o que eles irão fazer.

Um ponto bónus. Os grandes índices são compostos pelas maiores empresas. Aposto que mais de 100 empresas atualmente no S&P 500 não estarão lá dentro de 12 a 15 meses.

Apenas um lembrete: mercados em alta  como este não se limitam a recuar para avaliações razoáveis. Eles normalmente exageram para o lado negativo, tal como fizeram para o lado positivo. O limite inferior é provavelmente inferior ao que muitos cenários de “pior cenário” sugerem. Isso não será bom para os planos de reforma dos Baby Boomers.

Mas, de qualquer modo, esta experiência vai deixar marcas profundas na economia e no sentimento do consumidor/investidor/empresa. Isto vai deixar cicatrizes tão profundas como a Grande Depressão deixou cicatrizes nos nossos pais e avós. As coisas que em tempos tomámos como adquirido –  uma refeição de restaurante, para ver um filme, para partilhar um concerto ou um jogo de futebol com outros adeptos, já desapareceram e vão voltar de uma forma diferente.

Mas vão voltar. Estamos a passar de um mundo para  outro – uma Era de Transformação – quer queiramos quer não.

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Leia este artigo de John Mauldin no original clicando em:

https://www.mauldineconomics.com/frontlinethoughts/the-figure-it-out-economy

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