BRASIL DE FATO – ENTREVISTA – “BRASIL TEM NO PRESIDENTE UM INIMIGO MAIS PERIGOSO QUE A COVID-19”, diz ARTHUR CHIORO – por CATARINA BARBOSA

OBRIGADO A ARTHUR CHIORO, CATARINA BARBOSA, BRASIL DE FATO E CAMILO JOSEPH

 

Brasil de Fato, 4 de Junho de 2020

Selecção de Camilo Joseph

 

Ex-ministro da saúde defendeu o SUS e acredita que o relaxamento das medidas de isolamento é precipitado. – Erasmo Salomão/MS

Ex-ministro da Saúde defende fila única do SUS para o combate à pandemia: “Isso diferencia um país civilizado”

 

O Brasil ultrapassou nesta quarta-feira (3), 31 mil óbitos em decorrência do novo coronavírus. Apesar disso, diversos estados do Brasil anunciaram medidas de relaxamento do isolamento social.

Com o retorno das atividades comerciais, o número de pessoas nas ruas leva ao aumento dos casos de contágio pela doença.

Em entrevista ao Brasil de Fato, o médico sanitarista e ex-ministro da saúde do governo Dilma entre 2014 e 2015, Arthur Chioro conversou sobre os desafios da pandemia. Ele afirma que as dificuldades seriam imensas para qualquer ministro, mas que o negacionismo do governo Bolsonaro agrava ainda mais a situação da doença para os brasileiros.

“Não tem país no mundo grande ou pelo menos grande como o Brasil que tenha no Presidente da República um inimigo mais perigoso que o próprio coronavírus”, afirmou.

 

Chioro também ressaltou a importância do Sistema Único de Saúde (SUS) que, nos últimos 34 anos, possibilitou diversas ações de saúde no país, entre elas, o desenvolvimento de vacinas, o combate à doenças epidemiológicas como a AIDS e o banco de sangue.

Apesar desses resultados, Chioro aponta que há um subfinanciamento do SUS, agravado desde o golpe parlamentar sofrido pela presidenta Dilma Roussef em 2016.

Até o momento, o SUS perdeu R$ 22,5 bilhões em investimentos. Mesmo com a pressão do Congresso Nacional e da sociedade brasileira, dos R$ 29,5 milhões que o governo Bolsonaro disponibilizou para combate à covid-19, apenas, R$ 8,5 milhões foram revertidos para comprar máscaras, testes, respiradores e para aumentar o número de leitos.

“Eu espero que com a pandemia da covid-19, a sociedade brasileira consiga compreender cada vez mais a importância de ter um sistema público. Isso diferencia um país civilizado de um país que joga a saúde na lógica de mercado”, afirma.

 

Confira abaixo a entrevista completa

 

Brasil de Fato: Qual é a sua avaliação sobre a fila única no Sistema Único de Saúde? Ela permite que o SUS realize a gestão dos cuidados a partir da necessidade de todos os brasileiros?

Arthur Chioro: Os países que adotaram essas medidas tiveram resultados muito mais objetivos. Não podemos deixar que a vida seja marcada por lógicas de mercado, por quem tem e quem não tem plano de saúde.

Digo isso com base, inclusive, na experiência brasileira do SUS, que é o Sistema Nacional de Transplante: a adoção de fila única para transplante com critérios transparentes permitiu que milhares de pessoas pudessem ser salvas. Se tivesse operado as regras de mercado só os ricos teriam sobrevivido.

É bem verdade que a Lei Orgânica da Saúde já permite, em situações de calamidade, que os gestores façam a requisição dos leitos. Mas fazer a requisição por si só não garante a ideia da fila única, que me parece ser a mais democrática e justa com a população brasileira.

:: Entenda o uso compulsório de leitos particulares pelo SUS, aprovado pelo Senado ::

De que forma o senhor analisa a importância dada hoje ao SUS? Sendo que cogitou-se, inclusive, a privatização do sistema?

Há 32 anos o SUS vem fazendo a diferença na vida de milhões e milhões de brasileiros ainda que muitas vezes seja, inclusive, imperceptível nos setores da classe média, para as pessoas mais abastadas, que acham que não utilizam o SUS, mas isso não é verdade.

O SUS está por trás do controle das doenças transmissíveis, como por exemplo do programa de AIDS, o controle da tuberculose, também é o responsável por termos instituído um dos maiores programas de vacinação do mundo, o SAMU [Serviço de Atendimento Móvel de Urgência] que atende todo mundo, a política de sangue e a segurança do sangue e derivados.

Ninguém, na hora em que precisa de sangue fala: ‘eu quero comprar um sangue’. Isso porque o sangue é público.

Então, o SUS já está presente, mas tem sido muito mais importante para 170 milhões de brasileiros que dependem exclusivamente dele e é essa a hora em que ele faz a diferença, porque não é por critério de mercado, é por quem precisa.

:: SUS: documentário registra importância do sistema que faz o Brasil agir em pandemia ::

Aliás, essa é a base de um sistema universal. E eu espero que com a pandemia da covid-19, a sociedade brasileira consiga compreender cada vez mais a importância de ter um sistema público. Isso diferencia um país civilizado de um país que joga a saúde na lógica de mercado.

Portanto, talvez a pandemia, se a gente pode dizer que ela traz alguma coisa de positivo, que no fundo acho que ninguém gostaria de estar vivendo isso, é permitir que a gente possa refletir um pouco mais sobre a importância do SUS.

A grande preocupação é que passada a pandemia, a sociedade brasileira esqueça e continue submetendo o nosso sistema de saúde, assim como o sistema de educação, sistema de ciência e tecnologia e outras políticas públicas tão importantes à lógica que vem imperando nos últimos anos.

Se historicamente o sistema de saúde nunca teve um financiamento adequado, desde a deposição do golpe que depôs a presidenta Dilma, vivemos com a aprovação da Emenda Constitucional 95 um verdadeiro desfinanciamento do SUS.

Nos últimos três anos, o SUS perdeu R$ 22,5 bilhões. Ou seja, o que já era pouco financiado passou a viver uma situação crítica e mesmo que o governo federal teve, por pressão do congresso e da própria sociedade colocar recursos novos para a pandemia de covid-19, foram R$ 29,5 milhões que o governo Bolsonaro disponibilizou, mas até agora só R$ 8,5 milhões chegaram efetivamente na ponta para comprar máscaras, testes, respiradores, aumentar o número de leitos, enfim, dar as condições de os profissionais da saúde cuidarem da vida das pessoas.

Como a nossa elite continua ainda utilizando os atalhos financiados por dinheiro público, inclusive, para os hospitais privados de luxo e depois abatem do imposto de renda tirando dos mais pobres os recursos, eu tenho dúvidas se essa elite brasileira, vai, de fato, despertar pela importância.

Mas essa é uma tarefa nossa, dos brasileiros e brasileiras que acreditam na democracia e que acreditam que o Brasil pode ser um país de todos e de todas e não, apenas, dos privilegiados socioeconomicamente falando.

“Eu espero que com a pandemia da covid-19, a sociedade brasileira consiga compreender cada vez mais a importância de ter um sistema público. Isso diferencia um país civilizado de um país que joga a saúde na lógica de mercado.”

Para continuar a ler esta entrevista clique em:

https://www.brasildefato.com.br/2020/06/04/brasil-tem-no-presidente-um-inimigo-mais-perigoso-que-a-covid-19-diz-arthur-chioro

Leave a Reply