CRISE DO COVID 19 E A INCAPACIDADE DAS SOCIEDADES NEOLIBERAIS EM LHE DAREM RESPOSTA – LII – CORONAVÍRUS: COMO A TECNOCRACIA NOS ENCOSTOU METODICAMENTE À PAREDE, por YVES ROUCAUTE

 

Coronavirus: comment la technocratie nous a méthodiquement mené dans le mur, por Yves Roucaute

Atlantico, 23 de Março de 2020

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

A epidemia do Coronavírus expôs as deficiências da tecnocracia francesa. O Dr. Yves Roucaute convida as autoridades políticas a aprenderem com isso.

Façam entrar o acusado © Thomas SAMSON / AFP

 

Nunca se deve virar as costas a um perigo para  tentar fugir dele. Se o fizerem, estão a multiplicá-lo por dois”, pensava Winston Churchill. Face ao coronavírus, poderíamos rir-nos deste governo que tem estado a representar o papel do Pai Ubu, rápido a distanciar-se para o longe face ao perigo e já pronto a assumir os louros da vitória quando esta for provada. Infelizmente, este não é o momento para rir. A França está escondida, a França está a sofrer, a França está de luto pelos seus mortos e feridos. O tempo também não é para andar a passear  vaidades governamentais. Comovida, unida, grata, a França vai  em auxílio dos mais frágeis, dos mais isolados, dos mais velhos, e aplaude em lágrimas aqueles que arriscam a vida para os salvar e aqueles padeiros, como os do 15º bairro  de Paris, que abastecem  o Hospital Pompidou.

No entanto, ouçam com atenção e ouvirão um crescendo de raiva justa e surda perante a incompetência, a morgue e a irresponsabilidade deste governo abalado pela mais leve brisa, desmoronando-se quando a crise chega. Um quarteirão de tecnocratas, apoiados por  pretensos  peritos, alguns aficionados dos meios de comunicação e eleitos conservadores, que passaram da prevaricação para a fanfarronice e o delírio, à espera da sucessão de “fases” de evolução, como outros observavam a passagem dos tanques durante o descalabro de 1940. E ainda hoje, incapaz de tomar as medidas necessárias para testes, máscaras, luvas, confinamento total, mesmo desinformando repetidamente sobre os verdadeiros fatores de transmissão.

Ainda não chegou o momento de um julgamento geral, mas este momento chegará.  Já está a começar a chegar. 600 médicos e enfermeiros estão a apresentar uma queixa contra o Governo e a antiga ministra Agnes Buzyn, que teve a cobardia de se manter em silêncio em vez de fazer soar o alarme e que, ao meio assumir  a sua culpa, só pode ser meio perdoada. Os franceses são generosos, mas têm a cabeça quente, como dizia o filósofo Hegel, e, mais do que em Itália, nunca se está longe entre o Capitólio e a Rocha Tarpeia.

Perante este drama humano e a sua deplorável gestão, por ter escrito Le Bel Avenir de l’Humanité, perguntam-me muitas vezes: é assim que estamos a caminhar para este mundo maravilhoso que foi anunciado? Sim, é assim mesmo. Esta crise sanitária carrega essa  marca e diz o seu sentido. Estamos a viver um momento de transição. Este é um momento em que se intensifica a luta do campo do progresso, o dos adeptos da ciência e da tecnologia que fizeram soar o alarme e exigiram contenção sem terem sido ouvidos, o dos prestadores de cuidados que permitirão superar esta doença apesar da incompetência do governo, o das redes sociais que os apoiam. O que temos pela frente? O velho mundo. O mundo dos tecnocratas ignorantes, embriagados consigo mesmos, presos à sua visão religiosa autoritária e mágica do “poder”, associada às estatísticas conservadoras, dos ayatollahs da ecologia como Greta Thunberg ou Nicolas Hulot e dos apocalípticos como Yuval Noah Harari, que desarmaram o país com a sua idolatria da natureza e dos travões postos à criatividade humana.

Esta luta do campo do progresso começou, de facto, no final de Janeiro e tem sido ampliada até hoje.

Que ninguém diga que o Presidente Emmanuel Macron e o Governo não podiam sabê-lo, uma vez que, além disso, em nome do princípio da precaução, tomam a liberdade de interromper a investigação biotecnológica logo que um grupo de pressão se apercebe e começa a piar. Muitos de nós transmitimos o alerta emitido pelo médico chinês Li Wen Liang sobre a letalidade e o perigo de uma pandemia deste vírus, que o matou em 7 de Fevereiro. Ele próprio foi condenado ao silêncio pelas autoridades que, para manter a sua ordem, receavam mais permitir a circulação desta informação do que o próprio vírus. De nada serviu, portanto, o aviso da Organização Mundial de Saúde que o confirmou? Para nada, as indicações dos laboratórios chineses que aconselham o confinamento não serviram para nada? A China e a Coreia do Sul não revelaram um claro declínio nesta estratégia a partir de 27 de fevereiro?

Como epistemólogo, não fui o único a fazer soar o alarme e a exigir a contenção assim que os modos de transmissão deste coronavírus fossem confirmados. Confrontado com o descaramento destes tecnocratas, cheguei mesmo a transmitir o trabalho liderado pelo Professor Vincent Munster do Centro de Virologia em Hamilton, Alabama, co-assinado por académicos da UCLA (Califórnia) e Princeton, conhecido já no dia 9 de Março, que foi massivamente  distribuído no dia 13 de Março pela famosa revista online MedRxiv.

Quanto tempo irá o vírus sobreviver? Até 4 horas em cartão, 3 dias em plástico (média 16 horas) e aço (média 12 horas). Pode ser transmitido por via aérea? Sim, pode ser transmitido por via aérea. Até 3 horas. A confirmação do que já era suspeito em 12 de fevereiro numa publicação da Anesthesia Patient Safety Foundation baseada em estudos do SRA-CoV, outro coronavírus. O trabalho de 18 laboratórios americanos, e de alguns laboratórios chineses acessíveis, confirma que há pouca diferença.

Mas, em vez de reconhecer o erro,  e errar é  humano, a escandalosa tecnoestrutura, que temia menos os mortos do que temia reconhecer que tinha cometido um erro, começou a denunciar os denunciantes. Sofrendo de psicorrigidez como qualquer burocracia, tinha decretado em janeiro que bastava lavar as mãos e ficar a um metro de distância, e dos mortos, pelos meios não regulamentares previstos, ela iria continuar  a lavar as mãos.

Persistindo no seu vaguear, apesar da condenação científica internacional e dos protestos da grande maioria da profissão médica francesa, e da oposição de certos políticos esclarecidas  pela ciência, foi-lhe exigido que votasse no domingo, 15 de Março, no meio do desastre sanitário. Adiar as eleições por algumas semanas? Não é possível, senão a democracia estaria perdida! As caixas de papelão, envelopes e boletins de voto foram vacinadas por algum Júpiter improvisado? Isoladores, ar e salas imunizadas pelas orações dos seus santos? Os assessores e os cidadãos chamados a votar, protegidos pelo espírito de Santo  Eliseu  ao ponto de purificar as gotículas respiratórias  impelidas para o ar a vários metros de distância, mesmo que pronunciadas em voz baixa, o que é conhecido desde 1880 graças a Karl Flügge? Sim, todo este disparate “ao mesmo tempo”.

E, o milagre de segunda-feira, 16 de março, teve lugar: foi decretada a urgência de ficar em casa. O vírus tinha variado subitamente numa terceira forma durante a noite, desconhecida dos iniciados do poder. E com uma onda da varinha mágica, a democracia que tinha sido engolida no dia anterior, se a primeira volta não tivesse tido lugar à hora prevista, foi salva adiando a segunda volta para uma data desconhecida. E para não ter de confessar ter cometido mais uma vez um erro, um pôr profundamente em causa o seu “poder”, o falador Presidente, olhando a França nos olhos, não proferiu uma só vez  que fosse  a palavra maligna de “confinamento”.

Ainda hoje, a luta do campo do progresso continua.

A guerra, dizem-nos ?  Acima de tudo, vejo uma nova linha Maginot. As luvas seriam inúteis. Tomem estes plásticos, desembalem estas caixas, não tenham medo: os matamores que governam estão encarregados de verbalizar os vírus que se permitiriam passar  pela membrana celular através da ligação perigosa da sua proteína S, desconhecida dos arquivos da polícia, de vaguear no citoplasma da célula com o seu filamento estranho de ARN , como uma pessoa sem documentos, de trabalhar clandestinamente com os seus 15 genes para finalmente se imporem e multiplicarem no corpo para a Grande Substituição, o que é estritamente proibido. Suficientemente seguro para se sentir seguro?

As máscaras? A OMS tem vindo a repetir desde 3 de março que a escassez de máscaras está a pôr em perigo o pessoal de saúde e também aqueles que estão a tratar: sem máscaras, o vírus passa livremente do médico para o quidam comum e do quidam comum para o médico ou outros quidams comuns. Mas existe a exceção francesa. O perfeito conhecimento do decímetro duplo na sua secretária esclarece os nossos tecnocratas: este coronavírus medindo cerca de 0,125 mícron, as máscaras não poderiam impedir a passagem de partículas tão pequenas. Exceto, quando se trata dos prestadores de cuidados que têm direito à máscara, como se afirma num regulamento encontrado numa prateleira, porque então serviria para qualquer coisa. Contudo, um estudo de 2008 do Instituto de Saúde dos Países Baixos mostrou que as máscaras de algodão protegiam 60% contra partículas de 0,02 a 1,1 mícron, 78% para as máscaras cirúrgicas e 98,9% para as máscaras FFP2. A Universidade de Edimburgo, por outro lado, testou as máscaras cirúrgicas: elas impedem 80% das partículas de 0,007 microns, um pouco abaixo da média dos filtros industriais… e mesmo as de   tecidos protegeriam em cerca de 28%.

Serão as máscaras em França vítimas de um feitiço maléfico conhecidas dos feiticeiros do Palácio do Eliseu? E de tal forma que não pensam em produzi-las ou comprá-las desde Janeiro? E não ter distribuído as que existem? Porque as máscaras existem, muitos já as conheceram. Um stock de 150 milhões. Finalmente, na sua grande gentileza, decidiu-se a 18 de Março, mais de um mês após a explosão da doença, entregar 25 milhões a “qualquer um”. As outras? Talvez tenha sido para uma coleção.

Para justificar a sua incompetência, os nossos tecnocratas afirmam que o seu comportamento hoje se deve à experiência de 2009. Roselyne Bachelot, ministra da Saúde, para avisar o país contra o H1N1, encomendou 95 milhões de vacinas que teriam sido “inúteis”.  Adiante, mas quem diria então que esta gripe não iria causar estragos quando os investigadores na altura bem avisaram? Se tivesse havido milhares de mortos, teria ele sido considerada culpada? Não é o papel dos funcionários eleitos e dos indivíduos pagos pelos cidadãos prevenir e garantir  a segurança dos seus corpos,  o primeiro dos direitos individuais, em vez de correr atrás de um balanço contabilístico  para poupar dinheiro? E desde o início de fevereiro, temos nós uma possível pandemia ou uma pandemia comprovada? Onde está, então, a produção de máscaras? Onde estão também os testes? 17.000 por semana em França, 160.000 na Alemanha, procurem o erro. Dez minutos de testes na Coreia, dias de ansiedade em França. Dêem-nos Roselyne Bachelot que  eu vos deixo  os médicos Diafoirus de Molière .

Deixo-vos também os ayatollahs da ecologia e os apocalípticos, e estes múltiplos comités de ética parasitária e inútil que eles influenciam, rapidamente a justificar o conservadorismo e as rotinas, as proibições e os travões às experiências de tratamentos e inovações. São eles, estes patéticos Nicolas Hulot, que oferecem à tecno-estrutura e à sua gestão vertical da vida a pretensão de cobertura moral e científica de que ela necessita. E  eles são também o primeiro vetor deste espírito doente que invadiu a França e que suscita mais interesse pelo estado dos ratos de laboratório do que pela saúde dos seres humanos.

Contra os idólatras da terra, chegou o momento de recordar que este coronavírus, COVID-19, faz parte da famosa “natureza” com outros vírus letais, bactérias mórbidas, fungos, doenças generativas, doenças genéticas, Não deve nada à industrialização, ciência, tecnologia ou desflorestação da França ou da Amazónia, nem à gripe espanhola, à lepra, à Candida auris ou à peste.

Hoje, face aos coronavírus, como no passado, a humanidade deve deitar fora o software do arcaico para enfrentar a chamada “natureza”. Como sobreviveram os seres humanos às doenças e alterações climáticas que provocaram a extinção de 90% das espécies animais desde o Paleolítico Inferior? Como é que sobreviveram 12 glaciações e tantos aquecimentos nos últimos 3,3 milhões de anos? Por esta certeza, que lhe foi preciso dominar os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos e toda a terra. A humanidade em primeiro lugar.

O que distingue a humanidade dos animais não é o sonho absurdo da harmonia com um ambiente, porque isso não pode ser. Também não é ser “inteligente” (“sapiens”), Homo sapiens como afirma Yuval Harari, que quer vender aos estúpidos na mais extrema confusão científica a sua história de uma Super Inteligência que nos  viria a comer, porque os animais, em diferentes graus, são obviamente também inteligentes. O que o distingue é que ele é criativo. Os seres humanos são seres que transformam o seu ambiente, criam civilizações, melhoram o seu corpo. Uma tripa criatividade. Ele é “Homo criador”. E respeitar a natureza é, antes de mais, respeitar a natureza humana criativa. E combater tudo o que a proíbe, desde a poluição à idolatria. A verdadeira moralidade diz que a humanidade concorda, que a humanidade está em primeiro lugar.

É isso que está aqui hoje em causa. Contra tecnocratas, conservadores, ayatollahs da ecologia e apocalípticos, este coronavírus revela que não estamos a sofrer de demasiados progressos, mas não sim de progresso insuficiente. Guerra a este vírus natural? Sim, estou de acordo. Implica solidariedade para com os nossos soldados da linha da frente, os zeladores, mas também derrota as tutelas tecnocráticas que tem de se curvar às exigências do conhecimento, em vez de tentar protegerem  os seus lugares.

Uma luta do campo do progresso contra as idolatrias da Terra, do Estado, do Mercado, do Poder… que constroem linhas Maginot, evitam a explosão das novas tecnologias, caçam as redes sociais e, finalmente, organizam o descalabro e ameaçam vidas humanas. A vingança dos filhos dos Jogos Proibidos. Este é também o significado da mensagem de Winston Churchill que, perante o perigo, prosseguiu: “Mas se o enfrentarmos rapidamente e sem evasão, vamos reduzi-lo a metade. ” Depois,  totalmente. Como ele próprio fez.

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https://www.atlantico.fr/decryptage/3588232/coronavirus–comment-la-technocratie-nous-a-methodiquement-mene-dans-le-mur-yves-roucaute

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