A GALIZA COMO TAREFA – urbs – Ernesto V. Souza

Ab urbe condita é expressão latina, também título de livro canónico e alicerce historiográfico. Enunciado de marcante poder, respeito, dignidade e até fixação de um início que se pretende determinante na história, melhor dito de um Tempo na História, assim com capitais e pretensões. A fundação da urbe por antonomásia, data e símbolo, do modelo que até hoje seguiram todos e quantos impérios no Ocidente foram e das suas narrações nos dous últimos milénios.

Ganhe uma planificada ou bem geolocalizada cidade e expanda-a, assente nela o poder e faça dela garante, lei, modelo e medida para o Estado e Império. Deste jeito, como num jogo de estratégia, mas com elementos tirados da realidade, exércitos, exploração, bastante de escravidão, rotas comerciais, províncias especializadas, vias, pontes, aquedutos, circos, fronteiras e enormes quantidades de sangue é que se construiram grandes estados nação e impérios.

E daquelas metrópoles, onde normalmente assentou o rei, a corte, os parlamentos e senados, a administração e tudo quanto as movimenta, organização da justiça, da banca, das finanças, do comercio, da ciência, das academias, os museus, as arquiteturas grandiosas e as melhores artesanias, as importações de toda a parte e novidades do estrangeiro, as planificações e infraestruturas de transporte, industria e navegações; é nesse caldo que se define a nação com os seus atributos: o ócio, a arte, a estética, a moda, as publicações, a cultura, a língua.

Pois assim é, funde, conquiste, consolide, faça medrar uma grande urbe e receberá uma língua padrão, uma literatura, uma história, uma identidade, uma ideia de nação a imagem. Que seria de Portugal sem Lisboa, da França moderna sem Paris, da Inglaterra industrial sem Londres, da Itália antiga e contemporânea sem Roma. Da Espanha do século XX e XXI sem um Madrid devorando tudo.

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fotografia Marie-Lan Nguyen (2006) wikipedia

Quando enxergamos para atrás e para diante, podemos dizer que a Galiza perdeu duas vezes a sua língua. Perdeu com o nome a favor de Portugal, que tomou nome da jurisdição do rei e dos seus súbditos, lá, na branca Lisboa sobre lo mar, onde uma língua nova com as barcas, mandou lavrar. E perdeu espaço e dianteira a favor de Castela, onde os seus reis, temerosos também como os de Portugal dos poderosos feudais galegos, foram conquistando Leão e bem logo aquelas enormes metrópoles de Toledo, Córdova e Sevilha que apareceram, já antes que Madrid no horizonte.

Que seria do Português sem Lisboa e do Castelhano sem Toledo, Sevilha e Madrid. Cidades enormes, multiculturais na base, portos comerciais, mercados, capitais provinciais, califais, com os seus ricos hinterlands e vilas agrícolas arredor, cheias de arte, repletas de palácios, fidalgos, tabeliões, jurisconsultos, mercaderes, bispos, cardeais, banqueiros, armadores, funcionários, doutores, ministros, conselheiros, conspiradores, cortesãos, impressores, largos, bibliotecas, gabinetes de maravilhas, museus, salões e jardins para os poderosos circularem inventando nas suas conversas os estados.

Mas a Galiza nunca teve uma grande cidade. Tinha população mas núcleos espalhados, habitantes esparsos e não concentrados, pelas veigas e as bocarribeiras, pelos portos e pelas serras, pelos antigos caminhos, feiras e as passagens, tinha velhas e nobres vilas, portos bons, sés fortificadas, pequenas cidades santuário, tinha pontes, faros, fortes, castros, castelos, torres. Tinha países antigos, dialetos e mini cortes, governados despoticamente e desde que o mundo era mundo, por orgulhosos condes e fidalgos, e boas vilas enfrontadas a eles, em mãos de grémios e bons burgueses que davam pelo Rei.

Mas não tinha grandes cidades e portanto também não tinha os necessários caminhos, nem as necessárias infraestruturas, nem teve a industria produtiva, nem o consumo de massas. Não houve verdadeiramente qualquer uma até fins do século XX ou mesmo até o século XX. Na década de 10 e 20 do século passado Antón Vilar Ponte, insistia na necessidade da grande cidade galega, como garantia política, industrial, comercial e cultural para Galiza e para o galeguismo. Mas passou o momento.

Daquela, nas décadas depois e no desarrollismo franquista já as cidades galegas possíveis eram plenamente espanholas, traçadas e imitativas a ecos de um Madrid que medrava e dominava. Não espanta por isso que por riba de tantas ruínas, fantasias, senhores e antiguidades não houvesse nação moderna, e também não pode surpreender que a Galiza urbana esteja também uma terceira vez a perder, no próprio território, a língua.

O modelo da Espanha valeira com Madrid como centro de concentração de recursos, poder e população é imparável. Acromegalia induzida com funções políticas, administrativas e económicas arrasta o modelo nacionalizador vigente. Até as três últimas décadas Madrid não tivera força avondo para impor plenamente o modelo centralista e homogeneizador que desenhou a imitação da França a começos do século XIX. Agora, já pode.

2 Comments

  1. Muito bom
    Enxergas as realidades e as apontas com precisão maravilhosa.
    Estamos num processo centralizador do estado e de uniformização terrível.

    Seria bom debater o da concepção de Castelão da Galiza como uma grande cidade… e agora
    Com as -tics- penetrando em todos os seus paragens a uniformidade madrilena urbana e urbanizadora.

    Nós na Galiza temos uma grande cidade bem galega e que o tem tudo, forma uma conurbação de dous milhões de pessoas. Essa cidade nossa que eu conheço bem é Porto, mas infelizmente como isso não é espanha e nós somos súbditos espanhóis….ha muitos muros que assaltar e os mentais são os de mais dificuldade

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