O extremismo da política sueca de imunidade do rebanho. Por Sinéad Baker

Espuma dos dias Suécia

Segundo os dados de múltiplas fontes, a doença Covid 19 é tanto mais perigosa quanto mais se sobe na faixa etária e também tanto mais quanto mais elevada forem as morbilidades dos atingidos faixa etária a faixa etária. Nos sistemas de Previdência Social a Ocidente fragilizados já pelas várias crises que se lhe sucederam e pela precariedade em que vivia grande parte da população, a maioria que hoje diríamos de trabalhadores essenciais, a Covid veio expor as fragilidades das nossas sociedades.

Olhemos para um exemplo de letalidade por faixas etárias no Reino Unido publicado pela BBC:

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Sejamos agora cínicos: no caso britânico cerca de 87% dos falecidos por Covid-19 estariam em princípio reformados. Isto significaria que o Covid-19 limparia parte dos problemas ligados às pensões de reforma uma vez que eliminaria grande parte dos reformados de hoje que pesam no sistema de pensões. Adicionalmente ajudaria financeiramente o sistema de saúde nacional porque também aqui limparia muita gente que é vítima de comorbilidades, e situada em todas as faixas, mas naturalmente com predominância situada nas faixas etárias acima dos 64 anos. Dois dos pilares mais fragilizados pelas políticas neoliberais dos últimos anos, seriam assim saneados pelo Covid-19.

Mas convenhamos, estranha forma de equilibrar o sistema e tudo isto me faz lembrar a peça que escrevi em torno 18 anos da minha neta e da sua leitura dos livros de Charles Dickens. Relembremos aqui, em torno de uma das posições de Scrooge face aos pobres:

“… “Não há prisões?” disse o Espírito, voltando-se contra ele pela última vez com as suas próprias palavras. “Não há casas de trabalho forçado para os pobres?” Na história de Charles Dickens de 1843 Um Cântico de Natal, o Fantasma do Natal Presente relembra a resposta sarcástica de Scrooge a um pedido de caridade para os “milhares [que] estão em falta de bens de necessidades básicas; centenas de milhares [que] estão em falta de conforto comum”. Quando se diz a Scrooge que ‘muitos preferem morrer’ a entrar para uma casa de trabalho forçado, ele responde que nesse caso ‘é melhor que o façam, e diminui-se assim o excesso de população’.”

Não será a imunização de grupo praticada por alguns dos regimes atuais uma forma de retomar os tempos de Dickens em que agora, em vez de se falar da eliminação dos pobres, se fala da eliminação de velhos e de doentes, se fala dos que pesam no sistema em termos de rentabilidade, de uma eliminação a ser feita em nome do bem-estar do grupo?  Estarei enganado?

Deixo-vos com o texto que acompanha esta nota

JM

Coimbra, 21 de Junho de 2020

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Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

O extremismo da política sueca de imunidade do rebanho [1]

Sem confinamento, a Suécia está a obrigar os pais a mandar os seus filhos para a escola. Alguns temem que seus filhos possam ser-lhes retirados se recusarem.

Sinéad Baker Por Sinéad Baker

Publicado por Business Insider em 21/06/2020 (ver aqui)

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Um rapaz atravessa a correr uma praça em Estocolmo, na Suécia, a 8 de maio de 2020. ONATHAN NACKSTRAND/AFP via Getty Images

 

– A Suécia tem mantido escolas abertas para crianças com menos de 15 anos, o que faz parte da sua política de evitar um confinamento generalizado durante a pandemia do coronavírus.

– A sua política é a de que os alunos devem frequentar fisicamente a escola em quase todas as circunstâncias, incluindo os alunos com condições que alguns indícios sugerem que podem torná-los mais expostos ao risco de apanharem o COVID-19.

– A Business Insider falou com alguns pais de muitas regiões da Suécia que estão a desobedecer às regras para manter os seus filhos em casa.

– Muitos afirmam que os funcionários locais ameaçaram envolver os serviços sociais se os pais não cedessem e não mandassem os filhos para a escola.

– Alguns pais dizem que o seu maior receio é que os seus filhos lhes sejam tirados.

– Os funcionários suecos disseram à Business Insider que normalmente não recorreriam a uma medida tão extrema, embora não negassem que se tratava de uma possibilidade.

 

A Suécia está a obrigar os pais a continuarem a enviar os seus filhos para a escola – incluindo os estudantes com condições que alguns indícios sugerem que podem torná-los mais em risco de apanhar o COVID-19 – como parte da sua política para evitar um confinamento em grande escala em resposta ao coronavírus.

Embora os sistemas escolares de outros países tenham cessado ou restringido fortemente a aprendizagem presencial, a Suécia diz que qualquer pessoa com menos de 15 anos deve continuar a frequentar a escola. Quase não há exceções.

Alguns pais recusaram-se a cumprir, provocando um impasse em relação aos funcionários do Estado.

Eles preocupam-se com o facto de esta situação poder acabar por se traduzir na retirada dos seus filhos – a represália do Governo em última instância -, embora os funcionários sublinhem que isso só aconteceria em cenários extremos.

A Business Insider falou com sete pais e professores de diversas regiões da Suécia, muitos dos quais decidiram manter os seus filhos em casa apesar das instruções em contrário do Governo.

Para alguns, são os seus filhos que poderão estar em risco elevado de apanhar o COVID-19, enquanto outros pais se consideram vulneráveis e temem que os seus filhos possam trazer a doença para casa.

Em cada caso, o Business Insider contactou os funcionários responsáveis pela educação das crianças, mas nenhum deles ofereceu uma resposta até ao momento da publicação.

 

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O filho de Mikaela Rydberg, que tem precisado frequentemente de tratamento com oxigénio. Mikaela Rydberg

Mikaela Rydberg e Eva Panarese são ambas mães em Estocolmo que mantêm os seus filhos em casa. O filho de Ryberg, Isac, que tem oito anos, tem paralisia cerebral e sofre de doenças respiratórias. Rydberg disse que já tinha sido hospitalizado com constipações e gripe.

No entanto, os seus esforços para persuadir a escola dele de que ele deveria ser mantido em casa para se proteger da COVID-19 não foram bem sucedidos.

Os funcionários de saúde suecos não consideram as crianças como um grupo em risco do coronavírus – mesmo crianças como Isac. Como este é o conselho oficial, os médicos recusaram-se a conceder a Isac uma isenção médica de ida à escola.

Em vez disso, Rydberg manteve-o em casa desde Março contra as instruções da escola, o que, segundo ela, levou os funcionários do governo local a dizerem-lhe que talvez tenham de envolver os serviços sociais.

A escola não respondeu ao pedido de comentários da Business Insider, enquanto a administração local, Upplands Väsby, afirmou: “Seguimos as recomendações das nossas autoridades e não fazemos comentários sobre casos individuais”.

Ela disse que por se tratar de uma questão de bem-estar do seu filho, não está preocupada com o que se poderá seguir. “Eu estou tão certa de que tenho razão que não estou preocupada com aquilo com que me ameaçam”, disse.

“A menos que me possam assegurar a 100% que ele não ficará realmente, realmente doente ou pior por causa deste vírus, então não o deixarei ir à escola”.

“A escola é obrigatória”.

Eva Panarese é mãe de dois filhos. Ela mantém o seu filho em casa para minimizar a exposição ao marido, que sofreu recentemente de pneumonia.

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Eva Panarese e a sua família. Eva Panarese

Panarese disse que ela relutantemente mandou a filha de volta à escola porque as épocas de exames estão a aproximar-se e ela sentiu que não havia outra opção.

Os e-mails da escola da criança analisados pela Business Insider insistem que as crianças vão à escola durante a pandemia, citando a política do governo. Uma mensagem, enviada em Abril, dizia: “Temos de voltar a sublinhar que a escola é obrigatória.”

Panarese disse que a sua situação mostra que não é possível proteger alguns membros de um agregado familiar se outros ainda forem obrigados a ir à escola e correrem o risco de infeção.

“Não sei quem estará certo ou errado, mas não quero assumir o risco”, disse. “Não quero fazer parte de uma grande experiência”.

A escola não respondeu ao pedido de comentários da Business Insider.

Sem excepções

A Agência de Saúde Pública da Suécia afirma que “não existem provas científicas” de que o encerramento de escolas ajudaria a mitigar a propagação do vírus.

A agência afirmou que fazê-lo “teria um impacto negativo na sociedade”, deixando os trabalhadores essenciais a lutar para encontrar estruturas de acolhimento de crianças. Segundo a agência, tal política pode colocar outros grupos de pessoas – como os avós – em maior risco se cuidarem de crianças.

A Suécia acredita firmemente nos direitos da criança, o que inclui o direito à educação, e normalmente não permite que essa aprendizagem tenha lugar fora da escola.

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As pessoas desfrutam de um tempo quente e primaveril durante o surto de coronavírus em Estocolmo, na Suécia, em 22 de Abril de 2020. ANDERS WIKLUND/TT NEWS AGENCY/AFP via Getty Images

 

Apenas o pessoal ou as crianças com sintomas devem ficar em casa, diz a Agência de Saúde Pública.

A Suécia não inclui as crianças como grupo de risco, mesmo as crianças que têm condições que, segundo reconhecem, aumentam a vulnerabilidade dos adultos, como a diabetes, os cancros do sangue, as condições imunossupressoras ou os tratamentos de cancro em curso.

Os estudos sugerem que as crianças correm geralmente menos riscos do que outros grupos, mas a maioria dos países fechou escolas ou mudou radicalmente o seu modo de funcionamento. Estão também a ser descobertos novos efeitos do vírus nas crianças, à medida que a pandemia avança.

O Governo prossegue a sua política habitual, que diz que quando as crianças estão repetidamente ausentes, as escolas devem investigar e, em alguns casos, informar as autoridades locais da situação, o que pode envolver os serviços sociais. O medo do coronavírus não é considerado uma razão válida para manter as crianças em casa.

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As pessoas aproveitaram o clima quente da Primavera em Estocolmo, a 21 de Abril de 2020, durante a pandemia da COVID-19.Jonathan Nackstrand/AFP via Getty Images

 

Medo de perderem os seus filhos

Ia Almström vive em Kungälv, a cerca de meia hora de carro da segunda maior cidade da Suécia, Gotemburgo.

As autoridades de Gotemburgo ameaçaram levá-la a tribunal se os seus filhos continuarem fora da escola.

Almström tem três filhos, que mantém em casa desde abril, porque enfrenta um risco acrescido do vírus devido à sua asma.

Recebeu uma carta do governo local em 5 de maio, vista por Business Insider, que dizia que ela poderia ser encaminhada para os serviços sociais, onde poderia enfrentar uma ordem judicial ou uma multa.

A autoridade em questão, Kungälvs Kommun, recusou-se a comentar o caso de Almström.

Almström disse: “É sem sentimentos a forma como a Suécia nos trata. Eles não levam a sério os nossos receios. Nós não recebemos ajuda, apenas ameaças”.

Almström disse que ela e muitos pais “têm medo de perder os nossos filhos ou algo parecido “.

“É isso que eles fazem quando pensam que os pais [não podem] tomar conta das crianças”. Depois afastam as crianças dos pais”. Por isso é algo de que temos medo”.

 

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Um grande cartaz dos serviços de saúde da Suécia é colocado num pavimento no coração de Estocolmo para instruir as pessoas a seguir a regra dos 2 metros, a fim de reduzir o risco de adoecerem. Em 4 de maio de 2020 durante a nova pandemia do coronavírus Covid-19. JONATHAN NACKSTRAND/AFP via Getty Images

Último recurso

Uma porta-voz do Conselho Nacional de Saúde e Bem-Estar Social da Suécia afirmou que tirar aos pais uma criança é o último recurso do Governo. Ela afirmou: “Normalmente, os serviços sociais falam com a criança, os pais e a escola – tentando descobrir o problema subjacente”.

“É um grave passo estar a afastar uma criança dos pais – não só a ausência escolar será normalmente uma razão para colocar uma criança em lares ou em famílias de acolhimento”, afirmou, deixando entender que outras questões com a forma como as crianças estão a ser tratadas ou criados teriam de ser encontradas para que a ação tivesse lugar.

No entanto, a escalada não é a única saída – alguns pais chegam a um compromisso com as suas escolas.

Jennifer Luetz, originária da Alemanha, vive a cerca de 160 km de Estocolmo, na cidade de Norrköping.

Ela disse que contactou a escola dos seus filhos no dia 12 de março para dizer que eles ficariam em casa, uma vez que tem um sistema imunitário enfraquecido.

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Uma enfermeira veste equipamento de proteção individual (EPP) numa tenda de um hospital de Estocolmo antes de testar um doente com o coronavírus na Suécia, em 22 de abril de 2020. Jonathan Nackstrand/AFP via Getty Images

Disse que a escola foi “compreensiva” e ajudou os seus filhos a trabalharem em casa.

Os funcionários, disse ela, decidiram não agravar o seu caso, uma vez que ela descreveu uma “razão válida” para os manter em casa.

Outros pais têm tido dificuldade em chegar a acordos semelhantes.

E Luetz disse que ainda está preocupada com a abordagem da saúde pública da Suécia e que enfrentou consequências sociais pela sua decisão.

“A minha rede de amigos sueca basicamente secou da noite para o dia”, disse ela. “Os meus amigos suecos deixaram de falar comigo”.

 

Os professores também estão preocupados

Um professor em Estocolmo, que pediu para permanecer anónimo por não estar autorizado a falar, disse que concorda com muitos dos pais que mantêm os seus filhos afastados.

O professor disse a Business Insider: “Não acredito que um bom epidemiologista nos obrigue a mandar os nossos filhos à escola quando muitos lares têm pessoas em risco a viver no mesmo lar”. O professor é originário dos EUA, mas vive em Estocolmo há seis anos, e disse que a sua esposa pertence a um grupo de risco.

O professor disse que eles se preocupam com a saúde dos professores mais velhos e dos pais que são idosos ou vulneráveis.

Andreia Rodrigues, uma professora do pré-escolar que também trabalha em Estocolmo, considerou o plano do governo “inaceitável”.

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As pessoas passeiam na rua principal da cidade velha de Estocolmo, na Suécia, em 25 de Março de 2020, enquanto o mundo luta contra o coronavírus. JONATHAN NACKSTRAND/AFP via Getty Images)

Ela disse que deixa os pais a terem de “decidir se querem enfrentar a escola e depois assumir as consequências”.

“Mesmo que as crianças tenham pais que tenham confirmação de terem o COVID-19 em casa, ainda lhes é permitido estar na escola “, disse.

“Não podemos recusar de receber  as crianças, mesmo que os pais venham ter connosco e nos digam, “eu tenho COVID-19′”.

 

“Temos tido sorte de ainda não termos sido denunciados”.

Lisa Meyler, que vive em Estocolmo, disse que tem mantido a sua filha de 11 anos em casa desde março.

Meyler tem uma doença auto-imune enquanto o seu marido é asmático.

“Recusamo-nos a colocar conscientemente em risco a saúde e a vida da nossa filha”, disse Meyler, dizendo que “não a deixará fazer parte desta experiência de imunidade do rebanho”.

“Tivemos a sorte de ainda não ter sido notificados, mas já foi tornado claro que não é uma opção deixá-la ficar em casa depois das férias de Verão”.

A escola que a sua filha frequenta não respondeu ao pedido da Business Insider para esclarecer a sua política.

Ela disse que ” retirarem-lhe os filhos é o maior receio” para os pais.

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A autora: Sinéad Baker é repórter de notícias baseada no escritório da Business Insider em Londres. Cobre com mais frequência notícias de última hora, política dos EUA e censura global. É uma jornalista de investigação, com vasta experiência em notícias de última hora destinadas a audiências internacionais e com foco na política norte-americana e irlandesa. Publica em Business Insider, the Guardian, the Observer, the Independent, and TheJournal.ie e é antiga editora do multi-premiado The University Times. Licenciada em Literatura Inglesa e Filosofia pelo Trinity College de Dublin, e mestre em Jornalismo de Investigação pela City University de Londres.

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Nota

[1] O título do artigo é da responsabilidade do editor da versão portuguesa.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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