PALCO 13 – AS ESTÁTUAS TAMBÉM SE ABATEM* – por ROBERTO MERINO

Nota da edição – O texto foi adaptado de uma notícia, que pode ler clicando em:

https://www.noticiasaominuto.com/mundo/1506569/eua-estatuas-de-cristovao-colombo-estao-a-ser-vandalizadas-e-derrubadas

Rectificou-se o local da estátua de um comerciante de escravos que foi abatida. Aconteceu em Bristol e não em Londres. 

Viva la Muerte!  

Já em Madrid anteriormente foram retiradas as placas de ruas com nomes da era da ditadura de Franco. Quase 50 ruas serão renomeadas mais tarde. “As ruas poderão voltar aos seus nomes pré-franquistas ou, se isso não for possível, em homenagem a mulheres ilustres, instituições de ensino ou políticos, disse o conselho municipal de Madrid”. O processo consistia retirar do espaço público as referências a generais que participaram de golpe militar em 1936 e da Guerra Civil que se seguiu. Tudo isto ao abrigo da Lei de Memória Histórica. Mais tarde e ainda fresco na nossa memória, a exumação do corpo de Franco. O governo espanhol considerava que manter o corpo do ditador Francisco Franco na Basílica do Vale dos Caídos, em Madrid, era uma afronta à Lei da Memória História. Os restos mortais do ditador espanhol foram trasladados da Basílica do Vale dos Caídos, em Madrid, para o cemitério Mingorrubio, em El Pardo, nos subúrbios da capital espanhola. “Desde o início do processo, o Governo defendeu que os restos mortais do ditador não poderiam continuar num mausoléu público que exaltava a sua figura, algo expressamente proibido pela Lei da Memória Histórica”, indicou o executivo. Numa declaração institucional, no palácio da Moncloa, o primeiro-ministro em funções, Pedro Sánchez, afirmou que com a conclusão da trasladação dos restos mortais de Franco acabou a “afronta moral: o enaltecimento da figura de um ditador num espaço público”.

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(1608 – 1697)

“A estátua do Padre António Vieira, no Largo Trindade Coelho, em Lisboa, foi vandalizada com a palavra “descoloniza” pintada a vermelho. A boca, mãos e hábito do clérigo foram tingidas de vermelho e no peito das crianças indígenas que estão representadas à sua volta foi pintado um coração.”… “ A estátua do jesuíta português, cuja vida ficou marcada pela defesa dos direitos dos povos indígenas no Brasil no século XVII, foi instalada naquela praça lisboeta em junho de 2017”. A escritora Alice Vieira foi uma das pessoas que reagiu com indignação ao ato disse “Não sabem quem foi o Padre António Vieira…!”

“Em 1 de outubro de 1665, o Padre António Vieira foi encarcerado pela Inquisição. Data da prisão: 01/10/1665 (cárcere da custódia) – Sentença: auto-da-fé privado de 23/12/1667. Privado para sempre de voz activa e passiva e do poder de pregar, recluso no Colégio ou Casa de sua religião, de onde não sairia sem termo assinado pelo Santo Ofício, e assinar um termo onde se obrigava a não tratar mais das proposições de que foi arguido, nem por palavra nem por escrito, com pagamento das custas. A leitura da sentença, sexta-feira 23/12/1667, na Sala da Inquisição, demorou duas horas e um quarto, no dia seguinte a mesma foi lida no Colégio. O réu, por motivos de saúde, foi autorizado a abandonar a sua reclusão no Colégio de Coimbra e a ir para a Casa do Noviciado de Lisboa. Por súplica do provincial da Companhia de Jesus, dirigida ao Santo Ofício, foi solicitada a anulação e perdão das penas que lhe foram impostas. Este pedido foi aceite por despacho do Conselho Geral do Santo Ofício, de 12/06/1668. A 30/06/1668, o réu foi chamado à Casa do Despacho da Inquisição de Lisboa, onde lhe foi comunicado o respectivo perdão e assinou o seu termo. Em Agosto de 1669, o padre António Vieira partiria para Roma com licença do Rei.” (arquivo Nacional Torre do Tombo-http://antt.dglab.gov.pt/exposicoes-virtuais-2/padre-antonio-vieira-nos-carceres-da-inquisicao/

Também a frase supracitada “Viva la Muerte”, é polémica. Atribuída ao general franquista José Millán-Astray na data de 12 de outubro de 1936. E a resposta de Miguel de Unamuno, então reitor da Universidade de Salamanca seria; “Este é o templo da inteligência e eu sou o seu sumo-sacerdote. Vencer não é convencer. Para convencer há que persuadir e para persuadir necessitaríeis de algo que vos falta: razão e direito na luta.” No entanto, um historiador da mesma universidade veio agora dizer que as frases que gerações de espanhóis aprenderam a dizer de cor “são apenas poesia.”. O incidente, que tornaria o intelectual basco um símbolo da democracia contra a ditadura, é célebre exatamente por causa das palavras que Unamuno terá dito ao general franquista, mutilado de guerra, e em resposta à expressão “Viva a morte!”.

E finalmente, no meio da polêmica sobre estátuas de navegantes, descobridores e esclavagistas, o busto de um ator negro é vandalizado na Inglaterra. Localizado no subúrbio de St. Pauls, na cidade de Bristol, em homenagem a Alfred Fagon (1937-1986), que também foi poeta, ator e dramaturgo, foi erguido em 1987, no primeiro aniversário de sua morte.

Nota relativa ao título desta crónica: *Os Cavalos também se abatem /They Shoot Horses Don”t They?”, é o magnífico título de  um filme de Sydney Pollack (EUA, 1969), grande sucesso do cinema Americano dos anos 60. Um dos melhores filmes de Pollack, adaptado de um romance de Horace McCoy, relato impiedoso e desencantado dos tempos da Depressão e da luta pela vida, através da metáfora de uma maratona de dança. (Texto: Cinemateca Portuguesa)

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