Guerras esquecidas, massacres ignorados – Texto 1. De novo, os 18 anos da minha neta. Por Júlio Marques Mota

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Texto 1. De novo, os 18 anos da minha neta.

 Por Júlio Marques Mota

Em 22 de junho de 2020

A minha neta fez anos. Nada de especial, não fora ser o dia de aniversário dos seus 18 anos passado num dia de regime de confinamento. Na tarde do dia anterior, o último em que pelas convenções poderia ser apelidada de criança,  veio ter comigo  sugerindo que eu assinasse uma petição da Amnistia Internacional sobre o Iémen, petição  esta que ela tinha acabado de assinar. Espantei-me, e pensei: é curioso, despede-se da sua infância com um ato político. Tudo bem, e assinei.

A seguir pediu-me que lhe explicasse as razões da guerra do Iémen. Dei-lhe uma explicação curta, dizendo-lhe por fim que se tratava de um país que estava a ser completamente destruído, um dos mais pobres do mundo, e que se tratava de uma guerra que todos queriam que fosse esquecida enquanto a iam fazendo e era por isso que dela ninguém falava. Mas avô, porque é que em nenhum telejornal se fala no tema. Eu estive a ver fotos, e aquilo é um horror. Como se explica isto, a guerra e o silêncio à volta dela, questionou. Aqui, fui mais direto: sabes, as televisões e os grandes jornais, vivem não das receitas da venda dos jornais ou das assinaturas de televisão, vivem da publicidade e das empresas que controlam os aparelhos ideológicos, muitas delas e deles em ligação com os partidos políticos no poder ou que o desejam alcançar. Por isso só se fala do que a todos estes pode interessar. Ora, nesta guerra, como em quase todas elas, movimenta-se muito dinheiro e tanto mais quanto o principal interveniente bélico neste caso, a Arábia Saudita, é um país que pode pagar e paga bem. Portanto, os principais países europeus produtores de armas – e nestes países, para além dos Estados Unidos, estão a França, Alemanha, Inglaterra, Alemanha, Itália – não estão interessados em nenhuma campanha que venha pôr a nu o cinismo destes mesmos países que acabam por fazer uma guerra que lhes é bem paga e que é feita por outras pessoas, neste caso por outro país. É o que se pode chamar de uma guerra limpa. Recentemente verificou-se uma situação curiosa em Itália: impôs-se o confinamento, muitas fábricas fecharam, mas não fecharam as fábricas de material de guerra. É por tudo isto que tens o silêncio absoluto dos media.

Depois perguntou-me se assinar a petição levaria a algum resultado de positivo. Disse-lhe que sim, mesmo que este seja limitado. Que queria eu dizer com isto, perguntou. E a minha resposta foi simples e direta: o tempo dos grandes políticos, capazes de mover o mundo pelas suas e pelas nossas  causas, Deus o levou, o que temos hoje genericamente são políticos de pacotilha que ou pensam na sua manutenção no poder ou na sua carteira, seja no presentismo de agora ou no presentismo de um futuro próximo ou nas duas coisas, na carteira e no poder.

Em toda esta lógica, a contestação à política iníqua do armamento passa primeiro que tudo por uma consciencialização da opinião pública. Esse é um dos papeis das ONG sérias e a Amnistia Internacional é uma delas. Que as suas tomadas de posição circulem, que muitos de nós, jovens e não jovens, as assinem, significa que estamos a tomar consciência política do mundo que sob os nossos olhos se está a fazer e a esconder. E esta tomada de consciência é o primeiro passo para saber o que queremos, e todos queremos um mundo bem melhor do que aquele que nos estão a dar e que é, curiosamente, o contrário do que há décadas nos prometiam para agora.

A terminar a conversa que foi longa e que continuou dois dias depois, prometi-lhe publicar alguns textos sobre algumas das guerras que nos querem esconder. São esses textos que agora aqui vos deixo.

  • Esta guerra no Iémen de que ninguém fala. Por Olivier d’Auzon
  • Iémen, esta guerra perturbadora de que não se fala… Por Rosemar
  • Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, clientes irresistíveis: Impotência ou cinismo face à venda de armas pela Europa. Por Romain Mielcarek
  • À medida que o mundo olha para o lado, a morte espreita na República Democrática do Congo. Por Nick Turse

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