CARTA DE BRAGA – “da nova normalidade” por António Oliveira

São estranhos estes dias!

Saio de casa eufórico só por sair, mesmo a respirar um ar já ‘usado’, por juntar o que deito fora ao que vem através da máscara, aquele ‘enfeite’ que o bom senso me impede de deitar fora, acagaçado até pelo medo de poder vir a cair na cama de um hospital!

Mas volto para casa logo que posso, por me faltar o ar, aquele ar ‘ainda não usado’ que a máscara me veta, chego até a pensar que o tal ‘corona já me atacou!’ pelo arfar que, mesmo sem estar cansado, teima em me abandonar.

Mas não anseio por aquilo a que alguns já dizem de ‘nova normalidade’! Como é possível pensarem assim, como se nada se passasse, como se ‘a coisa’ que nos atacou tivesse ido embora ‘só lá da rua’ deles, esquecendo as portas fechadas por tudo quanto é lado, com as pessoas a negar consumos há muito planeados, mas com as aberrantes festarolas nos ‘Lagos e Carcavelos’ do sul, do centro e do norte.

Por outro lado, em toda a parte se noticia o ‘renascimento’ do tal ‘corona’, uma situação para nos deixar alerta e para rejeitar os estarolas das festas e das ‘novas normalidades’, por estarem também e até a ‘jogar’ com vidas humanas.

Aliás, para Edward Fishman, que foi responsável de planeamento do Departamento de Estado norte-americano no tempo de Obama, ‘É importante aceitar que não haverá regresso ao normal, pois uma crise desta magnitude não desaparece de um dia para o outro’, haverá uma nova ordem mundial ‘com um nível global em que participam as grandes potências e um nível paralelo que reunirá o que descreve como democracias com afinidades, cujos princípios são semelhantes’.

E Fishman explica ‘O nível global tem de ter um âmbito estrito, alterações climáticas, cibersegurança e pandemias’ e acrescenta ‘O nível das democracias deve focar-se em problemas mais ambiciosos, desinformação, evasão fiscal e desigualdade’.

É por isso que não quero a tal ‘nova normalidade’, por não querer voltar a ver os mesmos estupores que nos arrastaram para isto, mas com fato e sorriso novos a disfarçar palavras e actos ‘velhos’, pois benesses e privilégios custam muito a largar; vejam e ouçam a banda ‘Holanda e Amigos’, cujas letras e músicas teimam em se manter nos top’s, apesar de saberem muito bem como é viver à nossa custa!

Queria a normalidade de poder sair, ir onde quisesse, poder juntar-me e abraçar os meus amigos, acenar para chamar um outro que nem nos viu, mas sei que esta anormalidade se vai manter durante muito tempo e que a tal ‘nova normalidade’ não existe, não passa de um chavão para atrair incautos.

Incautos frustrados por semanas e semanas de limitações e confinamentos, chão fértil para que a tal ‘nova normalidade’ possa vir a beneficiar os ‘chicos’ e os ‘venturas’, mentes velhas em corpos enfarpelados de novo, pois nunca lhes faltam posses para isso e muito mais, mas sempre para pior!

E pelo muito que respeito Pepe Mujica, ex-presidente do Uruguai, destaco algumas das suas ideias, tiradas de uma entrevista dada em Março último, que deviam ser ponderadas tanto por eles, como por todos nós.

«Estaremos a chegar ao limite biológico da nossa capacidade política?

Seremos capazes de nos comportarmos como espécie e não como classe ou país?

Guardaremos a lição do desastre ao ver como revive a natureza?

Conseguirá a política olhar e ver mais longe, para se amaridar com a ciência?

Haverá batalhões de médicos capazes de ir lutar pela vida em qualquer lugar, ou continuaremos a gastar os três milhões de dólares/minuto de todos os orçamentos militares?» 

Mas os ‘chicos’ e os ‘venturas’ não querem pensar nestas coisas, já optaram por estar do lado dos ainda poderosos trumps e boçalnaros, que lhes garantem prémios e acolhida, por também desprezarem o ‘outro’ (o diferente, o estrangeiro, o emigrante) e todos os que, diariamente, vemos carregar filhos e misérias, para fugirem daqueles tão pesados e dolorosos gastos dos iníquos orçamentos militares.

Mas também é gente, nas palavras de Rentes de Carvalho no blog ‘Tempo Contado’, ‘Há quem tente agarrar-se a maçonarias ou ao Opus Dei para subir, ignorando que, no autêntico mundo do poder, ninguém «quer» nada, é-se escolhido’.

Que e qual ‘nova normalidade’?

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

 

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