CARTA DE BRAGA – “de pandemias, colibris e xadrez” por António Oliveira

Atrás desta pandemia, como talvez já tenha havido atrás de outras, está o modo como temos visto acumularem-se riquezas, dinheiros e bens materiais, usando mesmo as virtuais e actuais formas para as juntarem e esconderem dos ‘olheiros’ das democracias.

Usava-se este termo para designar os descobridores de novos talentos para os espectáculos de multidões, mas não repugna usar o termo para apontar os descobridores das novas artes para esconder o que devia ser do conhecimento das mesmas multidões.

Tudo porque, a origem de tais acumulações, já resultante do aproveitamento indecoroso e grosseiro da natureza e dos seus componentes, vivos ou inanimados, para gerar cada vez mais dinheiro, é o poder da monetarização que, se impõe obscura e globalizante, sem ter a mais pequena preocupação em proteger tanto as pessoas como a própria natureza.

E, todos os dias ouvimos (a maioria está longe de perceber!) as variações das bolsas, nos entristecemos pelas migrações forçadas, devido à fome e à miséria dos salários e das oportunidades, mas dominados e mansos pela globalização de bolso das redes sociais, até aceitamos a prisão domiciliária em que nos meteram, a discutir cada dia os já partidos e os já chegados, mas só nos números áridos das estatísticas.

Uma situação que tem vindo a ser agravada desde as primeiras pandemias de que quase ninguém quer saber, mas também a suscitar reparos de figuras que, só por si, são uma fonte de conhecimento e inspiração, importantes para a nossa motivação como seres humanos.

Há já muitos anos, D. Hélder Câmara que foi arcebispo de Olinda e Recife, também um opositor da ditadura militar, salientou bem um dia, ‘Quando dou comida aos pobres, chamam-me santo. Quando pergunto porque eles são pobres, chamam-me comunista

E era tão pequeno!

E Andrea Camilleri, que foi escritor e director de teatro e televisão, partido há um ano, diz de um conto senegalês num dos seus livros, que bem pode servir para estes tempos: ‘A selva está a arder com um enorme incêndio e todos os animais fogem em desespero. O leão, o rei da selva, é o último a abandonar, mas vê então um passarito diminuto, um colibri, que voa em direcção ao fogo, com uma também diminuta gota de água no peito. Surpreso pergunta «porque vais em direcção ao fogo?». O colibri mostrando a gota de água responde «Vou cumprir a minha parte!»

E é tão pequeno!

Recordo também Michel Foucault em 1976, no Colégio de França e no curso ‘É preciso defender a sociedade’, por ter afirmado, parece mesmo que a propósito, ‘O fraco nunca renuncia. Quanto ao forte, nunca é suficientemente forte para não ficar inquieto e para não se resguardar nas suas defesas’.

E era só um filósofo, bem ‘pequeno’ nestes tempos!

Mas também me lembro de um antigo provérbio italiano sobre as tais ‘acumulações’ e dos tais aproveitamentos mais da sua valia, porque ‘Uma vez terminado o jogo, o rei e o peão voltam para a mesma caixa’.

Escrevo e refiro apenas o xadrez!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

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