Uma mesa e quatro cadeiras que se esfumaram e ninguém sabe onde páram. Por Júlio Marques Mota

Espuma dos dias Reclamação

Uma história sobre as peripécias de uma encomenda que não chegou ao seu destino e sobre duas grandes empresas de Portugal

julio-marques-mota Por Júlio Marques Mota

Em 3 de julho de 2020

 

O  exemplo que abaixo relato é, do ponto de vista financeiro, totalmente irrelevante, pois trata-se de algo a custar menos de 200 euros. Porém, deixa de ser irrelevante quando pensamos no que aconteceu em termos das empresas envolvidas no problema, das suas não respostas ao problema criado, quando pensamos no que aconteceu em termos do isolamento do cidadão consumidor, o tal cidadão que o neoliberalismo considera como soberano.

Paga-se uma mesa e quatro cadeiras ao Continente e estas não chegam ao seu destino, a  casa da minha filha, mesa e cadeiras esfumam-se. Esfumam-se não nas mãos de alguém desonesto, não acredito nisso, esfumam-se, isso sim, na incompetência dos gestores modernos, os tais jovens turcos que pensam mais na sua carteira, nos seus prémios de resultados imediatos, o presentismo dos gestores modernos, e nos resultados da respetiva empresa do que na qualidade dos serviços prestados. Uma mesa e quatro cadeiras que se esfumam, que ninguém sabe onde páram e em que todos os planos dos agentes são confundidos. Um Continente que vende e a quem é pago um conjunto de uma mesa e quatro cadeiras, pagamento este que estabelece uma obrigação, obrigação que o Continente é obrigado a cumprir, no quadro da relação criada entre vendedor e comprador, um Continente que externaliza a entrega a uma empresa, a Go Express, estabelecendo-se aqui uma obrigação da empresa de transportes para com o Continente e não comigo. O Continente falha comigo, a empresa dos Correios Go Express falha com o Continente, mas a empresa Go Express também falha comigo quando agenda a entrega comigo e falha sem dizer nem água vai nem água vem. Ficou-se em casa à espera do que não vinha.

Por tudo isto, tenho o sentimento que  bem podíamos estar à espera de Godot, é o que se conclui. A minha leitura é que não são apenas as quatro cadeiras e uma mesa que se esfumam, é um país que lentamente se vai esfumando na lógica da austeridade tão saudada por Mário Centeno, um neoliberal de fachada socialista, e pelos seus acólitos defensores de uma política da Troika sem a presença ideologicamente incómoda desta última. No cumprimento desta lógica austeritária penso ser o país que se vai esfumando, esfumando-se no que diz respeito tanto a competências específicas como também à formação geral.  

Perguntará o leitor desavisado que tem o governo a ver com a entrega de quatro cadeiras e de uma mesa. Tem e muito, não pelos objetos referidos mas pelo consentimento das estruturas que levaram a esta situação e sem que se tenha verificado nenhuma resposta à altura.

Olhemos para a GO Express. Se formos à Internet vemos as múltiplas queixas que são apresentadas e muitas mais haverá, pois, muitas pessoas não se dão ao trabalho de manifestar a sua revolta porque acham que já não vale a pena. Mas a expressão já não vale a pena é o caminho dos ismos . A história mostra-o à evidência, mesmo agora. Olhe-se para a vitória de Boris Johnson, de Bolsonaro, de Trump e a lista poderia continuar, porque nas respetivas eleições a alternativa já não valia a pena!

As queixas contra a Go Express repetem-se, acumulam-se, e que fizeram as autoridades de tutela? Que se saiba nada, a não ser resistir na Assembleia da República contra a renacionalização dos CTT proposta pelos Partidos situados à esquerda da esquerda oficial. Reverter as políticas da Troika é um verbo desconhecido na esquerda oficial portuguesa. Esta esquerda oficial  prefere o verbo acomodar ao  verbo renacionalizar, é o que se pode inferir. Fecharam-se balcões sobre balcões nos CTT e veja-se, por exemplo, na cidade de Coimbra quantos balcões oficiais existiam e quantos balcões existem agora, isto é, balcões dos CTT e não tabacarias a fazer o seu serviço. Deram-se dividendos aos seus acionistas à custa logicamente de uma desacumulação, à custa de um serviço fornecido de baixa de qualidade. E qual é a resposta por parte do governo? Pelo que se vê com as queixas, a resposta é um simples ignorar. Deu-se-lhes, aos novos donos dos CTT, o direito de criar um banco, e isso com os outros bancos a falirem ou a serem resgatados pelo Estado. Curioso, para dizer o mínimo, o nosso sistema financeiro.

Quanto ao Continente, empresa charneira do setor da distribuição, a lógica dos call centers  mostra que esta empresa assenta muitos dos seus lucros nas condições precárias dos seus trabalhadores, seja no seu próprio espaço interno seja no espaço que lhe é externo como é o caso dos call centers. Uma temática do setor serviços hoje bem documentada em livros e artigos. Aqui a resposta ao problema deveria ser simples e não uma impossibilidade, o que atesta também a falta de responsabilização dos funcionários do call center. A existência de uma resposta ao nível do call center implicaria uma hierarquia, uma cadeia de responsabilidades e esta pode não se compadecer com os salários de miséria que são pagos aos funcionários.

Ora, o problema a resolver é da mais elementar simplicidade. O produto existe nas suas lojas de Coimbra, bastava-lhe respeitar as suas obrigações contratuais, refazendo a encomenda a partir da própria loja, fazendo depois o seu envio por empresa própria ou por terceira, mas por uma empresa credível. Caber-lhe-ia também exigir, em paralelo, compensações à GO Express por não ter esta última empresa cumprido com as suas obrigações estabelecidas por contrato. Até agora, o que é mais simples de fazer, não foi feito.

Quando coisas tão simples não são resolvidas por grandes empresas como as citadas só podemos dizer que aos seus quadros falta formação geral e competências específicas, mas se assim é, não é desabusado dizer que é o país que está lentamente a esfumar-se, a definhar. E aqui, mais uma vez, entra a responsabilidade do governo.

A propósito desta falta de formação geral e de competências específicas. vem a talho de foice o seguinte exemplo claro: um recente concurso para a bolsa de emprego na função pública. Concorrem cerca de 15.000 licenciados. Na primeira fase são excluídos, grosso modo 12.000. Os 3.000 sobreviventes são submetidos a uma segunda seleção para se apurarem 1.000 candidatos. Não foram apurados 1.000 candidatos mas apenas 800. Os restantes não satisfizeram os mínimos. Seria obrigação dos Ministérios do Trabalho, da Educação e do Ensino Superior debruçarem-se sobre os resultados, ventilando inclusive as faixas etárias dos concorrentes, sobre o que estes resultados podem representar em termos do ensino que se faz em Portugal, em termos de cursos de formação, em termos de empregos. A importância de uma análise a ser feita também por faixas etárias poderá, eventualmente, mostrar-nos, uma vez mais, que estamos a criar a geração mais diplomada de sempre mas também a menos formada de sempre em termos de conhecimentos científicos. Será que a taxa de gente que não atingiu os mínimos será decrescente à medida que sobe a faixa etária? Penso que sim.

Neste campo apresento aqui dois exemplos de detalhe que valem o que valem mas que para mim significam muito. Num deles, dirijo-me a uma grande empresa do setor de retalho para comprar um dado modelo de impressora e cuja compra estaria dependente das medidas: comprimento, largura. Peço ao empregado que me indique a largura e também a profundidade e o que faz o funcionário? Passa a fita métrica em redor da impressora para me dar o perímetro! Uma pessoa que estava comigo pede-lhe delicadamente a fita métrica e tira as medidas pretendidas, dizendo-lhe com algum carinho que estas eram as medidas pretendidas. Sem comentários. Um segundo exemplo: vou a uma farmácia e compro duas escovas de dentes elétricas, uma para adultos e outra para criança. Estavam em promoção com um desconto de 30% em cada e ambas tinham o mesmo preço. Vejamos como é que foi calculado o valor a pagar. Ao valor de uma das escovas fez-se a conta (X menos 0,3 de X) e colocou-se de lado o valor. Fez-se a mesma coisa com a segunda escova e, depois, somaram-se os dois valores encontrados! Muito mais simples seria, somar os dois valores e multiplicar por 0,7. Isto fez-me lembrar uma outra cena semelhante: numa loja comprei dois pares de meias de valor igual e que estavam com desconto de 50%. Para meu espanto, para saber quanto lhe devia pagar a funcionaria utiliza a máquina de calcular para determinar o valor a pagar pelo primeiro par, a seguir faz o mesmo para o segundo par e depois soma os dois valores. Exatamente como fez o nosso farmacêutico. Aqui nem era necessária nenhuma conta, 2 pares de meias com desconto de 50% custam o mesmo que um par sem desconto.

Qualquer destes intervenientes não passaria à fase seguinte no concurso acima citado quando, ainda por cima, o concurso envolvia um razoável grau de dificuldade quer em termos de conteúdo quer em termos de tempo de resposta.

De uma maneira ou de outra, os exemplos acima relatados dão-nos uma pálida ideia do problema da falta de formação geral e de competências específicas, e podia continuar neste tipo de exemplos. E se assim é, mais uma vez nos apercebemos de que o corpo docente e, sobretudo, o corpo discente, o nosso futuro afinal, são vítimas da vaga neoliberal que varre as nossas Universidades, a gerar muitas frustrações nos docentes e muita ignorância nos alunos, os tais que, de acordo com a reforma levada a cabo por Mariano Gago, a reforma de Bolonha, deveriam ser o centro do ensino. Criou-se com esta reforma do Ensino Superior um novo paradigma de ensino: pretendia-se passar da transmissão de conhecimentos à aquisição de competências com menos anos de estudo e menos aulas por ano de estudo, como se haja competências sem conhecimento! Os resultados do concurso são a prova disso: 14.200 excluídos em 15.000 não se conseguindo sequer alcançar o modesto valor de 1.000 candidatos. Alguém ou muita gente mesmo deve pôr a mão na consciência sobre a política de ensino que tem sido seguida nestas últimas décadas.

Vejam-se ainda dois exemplos de questões que poderiam ter saído na segunda prova do concurso e que fazem parte de textos preparatórios para a mesma:

Exemplo 1: Calcule o valor de X de acordo com o esquema abaixo [1]:

161 Uma mesa e seis cadeiras que se esfumaram e ninguém sabe onde páram JM 1

 

Exemplo 2. Ache o valor de X na sequência seguinte [1]:

256;16;25;5;16;4; X.

 

Não estamos claramente a ver pessoas como as  acima referidas  a responder a questões deste tipo e ainda por cima de forma muito rápida. Assim se explica que tenha havido milhares de licenciados que não tenham conseguido cumprir os mínimos exigidos

As duas fases do concurso se fossem bem estudadas por uma equipa de analistas competentes, por cada área em que o mesmo concurso incidia, poderiam dar ao Governo uma ideia fiável de como está o ensino superior, se dúvidas há. Eu não as tenho e já escrevi muito sobre isso.

O texto que aqui vos envio abaixo em anexo, foi igualmente enviado ao Continente, à Proteste, ao Portal das Reclamações e à ASAE. A única coisa que posso acrescentar é que tudo isto é inacreditável.

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Nota

[1] Resolução das duas sequências

1ª sequência, problema do círculo: evoluindo  no sentido da seta todos os números são múltiplos de 3. Esta é a primeira característica. Agora 27 está para 9, lado oposto, como 6 para x, lado oposto, como 9 para 3, o lado oposto. Neste caso X é o valor que resulta da divisão de  6 por 3 e teremos x a assumir o valor 2. Curiosamente o livro dá como solução3!

2ª sequência: 256,16;25,5;16,4; X…

Em cada par de números o primeiro elemento é o quadrado do segundo. Agora do segundo para o terceiro há acréscimo de 9, do quarto elemento para o quinto há acréscimo de 11, ou seja mais dois, do quinto para o sexto a manter-se a regra dos acréscimos deve haver uma diferença de 13. Esta característica leva a que  X seja  igual a  13+4, 17, e o segundo elemento desse par, elemento não pedido,  seria a raiz quadrada de 17!

Esta era uma questão que constava de um  livro de preparação para o concurso. Uma questão que não saiu, uma questão que se tivesse saído seria somente para atrapalhar, mas isso faz parte das provas, nada a dizer.

 

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Reclamação

Uma estranha sensação

Uma sensação  estranha nestes tempos de pandemia que colocam muita coisa em relevo, no que se refere às grandes empresas e sobretudo de uma delas, os CTT, que foi uma joia da coroa em Portugal lançada para a selvajaria do mercado sem que o governo tivesse a coragem de reverter a situação com uma renacionalização depois de detetados múltiplos disfuncionamentos, discutidos aliás, na Assembleia da República. No exemplo em que reclamo junto do governo, refiro-me ao Continente e à tal joia da coroa, os CTT.

Foi feita uma encomenda no Continente em maio, de uma mesa e quatro cadeiras, encomenda esta com o número 191611928. Com a pandemia em cima de todos nós, a entrega foi agendada para 12 de junho. Seria entregue na parte da tarde por volta das 17 horas. Esperou-se. Não houve entrega, nem informação antecipada e nem depois de que não haveria entrega. O cliente comprador, que já pagou, este não conta para nada, é a conclusão que se pode tirar. Agendou-se mais tarde a sua entrega, depois de reclamações junto do Continente. Também aqui aconteceu. A situação repetiu-se, esperou-se em casa pela entrega. Mas tal como no caso anterior nem entrega nem informação do que se passou. A mesma leitura deve ser feita: o cliente pagador, esse é figura irrelevante, tendo já pago.

Reclama-se junto do Continente, o que foi feito várias vezes, e somos informados de que não se sabe onde pára a encomenda. O último contacto fi-lo eu e espanto meu: do Continente nada mais me souberam dizer a não ser o número de registo que foi dado à encomenda  pela empresa GO Express dos CTT, uma  tal joia da coroa do nosso país.  E esse número é 451942332. Digo à operadora do Continente que não percebo sequer porque é que o Continente, detetada a falha de não entrega, não procede a uma segunda entrega, por ele próprio Continente, uma vez que o produto está disponível nas suas lojas e respondem-me que são coisas diferentes. O Continente físico e o Continente on-line, o Continente virtual. Peço que me informem onde posso subir na hierarquia do Continente para apresentar a minha reclamação pois não tenho nada que me dirigir à GO Express para saber da mesa e das cadeiras. A minha relação de cliente-vendedor é com o vendedor e este é o Continente. Nada mais me souberam dizer. Dirijo-me então à GO Express e dou o número da encomenda fornecido pela GO Express ao Continente. Dizem.me que na encomenda falta um volume, e que houve já uma queixa e que nessa base foi aberto um processo interno. Reclamo contra a informação porque a entregafoi agendada duas vezes, dizem-me que afinal faltava um volume e por isso nada foi entregue! Espantosa explicação. Peço esclarecimento quanto à falta de informação e à informação errada quanto aos dois agendamentos; em nenhum destes dois agendamentos  foi respeitado o que reputamos de regras mínimas: informação ao cliente, respeito pelo cliente. Nada foi a este explicado. Pedi explicação à Go Express do ponto de vista profissional quanto a essa falta de respeito. É-me dito que a minha reclamação deve ser feita ao Continente e que nada mais tem a responder.

Eu não queria acreditar, estou em Portugal no século XXI, vivo num país da União Europeia e duas das grandes empresas deste país tratam assim o cliente que reclama sobre a não entrega de uma encomenda que foi paga à cabeça. Quem responde perante isto?

Júlio Marques Mota

Coimbra, 2 de julho de 2020

Cartão de cidadão: 628046

1 Comment

  1. LI com interesse este seu texto. Com a reforma de Bolonha, na minha opinião, a qualidade do ensino decresceu. Por facilitismo? As licenciaturas de 4 e 5 anos, com cadeiras anuais, transformaram-se em três anos divididos em semestres. Os ensinos dos 1º. e 2º. e 3º. ciclos tornaram-se obrigatoriamente lúdicos. Os cursos profissionais, com o fecho das escolas técnicas, são quase tudo menos profissionais, com algumas excepções e onde pouco ou nada se aprende, a nível teórico. O aluno em geral está desmotivado e é indisciplinado. Parece que nada o interessa a não ser as novas tecnologias, educação física, concertos, discotecas e sexo. Diferentemente dos alunos que vieram dos países de Leste. Estes são quase o oposto.

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