A GALIZA COMO TAREFA – expressionismos – Ernesto V. Souza

O momento parece propício (quem ia pensar há apenas meio ano quando nos andávamos inconscientes no meio do liberalismo neo-con e estilos grandmanieristas triunfantes) para a estética quebrada e tremendista do expressionismo. Nomeadamente aquele alemão, pictórico e musical (que vai da Grande Guerra até a chegada do Nazismo com condena de “Arte degenerada”) e que foi tão influente entre nós.

O pessoal saiu em shock do confinamento, com carências, desubiucação, com remendos e soluções improvisadas. Toda aquela gente que já arrastava qualquer um problema agravou com o terror, a alarma e a pandemia. Aos deterioros físicos, comportamentais e sociais há que juntar a precariedade económica e a sensação da pobreza zurrichando imparável arredor, num ambiente em que as obsessões aumentadas, a agressividade e a violência verbal e social, os comportamentos zúmbicos e para-zúmbicos andam descontrolados. As sociedades, que afinal são a gente, também.

Retirantes Portinari oleo 1944
“Retirantes” Candido Portinari, óleo sobre tela. 1944.

Porém, a mensagem da propaganda incide em retomar, voltar, recuperar a normalidade, desfrutar do verão, da gente próxima e da vida. Os mass média, envolvidos numas dinâmicas ridículas de novas sensacionalistas e debates 24 x 7, multiplicados os ecos pelas redes sociais, apenas têm contribuído ao desnorteamento e à fomentar uma histeria social, que potencia essa mesma agressividade, medo e desinformação. Nomeadamente nos velhos e na gente sem capacidade crítica de filtrado. Mensagens absurdas que apagam a consciência alerta e atrapalham a urgente necessidade de redefinir comportamentos, processos, tarefas, circuitos, trabalhos, de novo.

Mas, a gente saiu à rua, mascarada e rechamantemente declarativa. Com vontades de se expressar e de dizer, de soltar o acumulado e adiado, mesmo sem saberem exatamente o que ou como.

Umas e outras, em conjunto, abalam, agitam a alma. Tem tudo um ponto contrastivo de descontrolo, de obsolescências, de patetismo, de cenas urbanas sórdidas que espelham realidades rotas, relacionamentos conflitos, violência familiar, racial e de classe, desesperação, regressão, soidade.

Uma declarativa simbólica que espelha roturas definitivas, fugidas, renuncias, retiradas, de negócios, máquinas, empresas e fábricas paradas, raiva, anos perdidos, frustrações pessoais, sociais, de classe, nacionais, de género e identidade, de baterias gastadas e discursos fechados que não permitem retomar mais os trabalhos e as rotinas.

Sempre é precisa uma rotura (melhor, claro, quando é prevista e nos movimentamos antes da realidade ganhar o seu pior) para considerarmos necessária uma mudança radical das perspetivas. E sempre é preciso, em momentos como este, uma chamada de atenção, uns ecos, um grito desesperado, umas manifestações do repertório dos danos, ou filas que nos presentem o inventário das misérias.

Talvez é o signo do tempo ou é a minha própria vida, leituras, experiência e analítica que já me fora antes levando a esta ideia que agora se me apresenta em formato expressionista. Mas acho que vou dizer – de novo com Joan Fuster * – mais rotundamente do que antes disse: que na Galiza o Rexurdimento na realidade e, salvando algum poema, livro ou intuito histórico e momento político glorioso que não podia ser, foi também e precisamente um fracasso. Uma adaptação. Um querer ser um algo impossível, sem romper com a realidade cultural, social e política que se estava a construir na Espanha do século XIX.

Um fracasso montado nas mesmas bases frágeis que explicavam o modelo valenciano: sucursalismo e dependência, medo à propor roturas, incapacidade da sociedade para se ver como centro social e político desde o século XVIII, regionalismo bem entendido, incapacidade para contrastar os processos de planificação linguística para naturalizar o castelhano como língua “comum” do Estado, e em paralelo, dependência das elites culturais de umas oligarquias já havia muito integradas nos projetos do centralismo. Ou melhor dito: nas sucessivas fases do centralismo: monárquicas, austríacas, bourbónicas, jacobinas, liberais, parlamentário-restauracionistas e modernas.

Digamos, e melhor que dizê-lo fora pintá-lo, por ir mudando a perspetiva e pensar a sério na substituição completa de software: Martim Sarmiento desencarrilou a Língua e a história da Língua galega, ao querer explicá-la e ajustá-la nos códigos nascentes da era do nacionalismo, arrastando-a a um autonomismo infértil e distante do português que éramos, não somos e talvez seremos.

E, digamos também, por não perder a oportunidade, que o Rexurdimento e tudo o que arrastou depois na mesma até o hoje, foi mais que nada folclorismo e regionalismo autonomista, dependentista, sucursalista, sem projeto político e social que converteu a língua galega, num paralelo de impossíveis e frustrações, no que hoje continua a tratar de ser. A nadar tratando de guardar uma roupa e tesourinhos sem valor enquanto vai afogando.

A ideia do que é a língua e do que se pode fazer com ela, na sociedade e na Literatura, não é algo que dependa da linguística, da habilidade dos poetas ou da vontade dos falantes, não é algo que solucionem as propostas e análises sócio-linguísticas; é algo que dependia, depende e dependerá da economia e da política. O fracasso político de um nacionalismo galego dominante ou o inconclusivo de um independentismo sólido na sociedade galega, espelha o modelo de língua à perfeição. E a história desta incapacidade, deste fracasso para prevalecer e apresentar um projeto evidencia, sem necessidade de explicações linguísticas ou escolhas, a evolução e esmorecimento da Língua Galega na Galiza, do século XVIII até o presente.

Talvez era boa ideia, aproveitarmos a paragem global para ré-pensar antes começar de novo, para revisar e dar uma volta a tanta cousa, tantas cousas, mas nomeadamente com ambição e realismo, assumindo as propostas de Ferguson** e do reintegracionismo vivo que entendia a língua como projeto de identidade a debater dos anos 90***, a ideia, a noção, a história, a perspetiva, a identidade e o modelo de língua galega. Nada se perdia por provar.

 

Nota:

Escolhera inicialmente para ilustrar uma imagem de Otto Dix, e para finis uma música de Schönberg. A imagem ajustava, mas não era boa, dado que a pintura dizque foi destruído pelos nazistas e apenas fica em fotos branco e preto.

Otto Dix War Cripples Kriegskrüppel 1920
Otto Dix : Kriegskrüppel (War Cripples), 1920

Depois pensei num Colmeiro, Maside, ou um Seoane, por aquilo da quota e presença galega, mas não fiquei convencido e andei a procura de algum Laxeiro ou um Arturo Souto, mas não encontrei na rede nenhum com a força de Retirantes, aí pensei em colocar uma música de Guerra-Peixe – Tributo a Portinari. Coloquei Nana, por contrastar.

Referências:

* Joan Fuster : Nosaltres, els valencians, Barcelona : Edicions 62, 1964 (2a); [nomeadamente p. 222 e ss.]

** Charles A. Ferguson :  “Diglossia”, in WORD, (1959) 15;2, p. 325-340 ; A. Gil & H. Rabunhal : “O conceito de diglossia segundo Ch. A. Ferguson, e a sua pertinência para a Comunidade Lusófona da Galiza. Um caso de diglossia por deslocação”(a), in: NÓS, (1989) 13-18 (Janeiro-Dezembro). [N.B. Compreender que é preciso estabelecer uma diglossia interna a respeito e dentro do sistema do Português e não com o Castelhano, continua a ser a tarefa pendente do ativismo linguístico galego].

*** Yvo JD Peeters : “Língua e identidade” in Poder, ideologia e língua, A Corunha : AGAL, 1991, p. 47-55. [N.B.: trinta anos depois continuamos no mesmo colóquio e posições das p. 53-55].

1 Comment

  1. Muito bom caro, muito bom e dando no centro do alvo. Na Gz fai-se homenagem sempre a quem.não sabia pir onde andava e nem sequer pensava estar a marcar nada.

Leave a Reply