A GALIZA COMO TAREFA – a casa – Ernesto V. Souza

Aconteceu muita cousa na política galega nestas últimas décadas. Tanto na Esquerda quanto na Direita. Ababeladas e agitadas pelos ventos fortes, quase ciclónicos, de um centralismo revivido e agressivo que pretendia o assalto definitivo e controlo das periferias (definidas démodé como regiões e províncias) desde Madrid. Precipitaram-se, advertidos estavam, e seguirão tentando, mas algo mais vão demorar.
Poderia-se, pois, dizer muita e tanta cousa do resultado eleitoral. Mas continuo sem ver o campo propício para debate a sério do que eu gostaria. A contrário, 23 anos de guerras pelo poder, ajustes de fidelidades, palavras largadas que agora não têm tornada, apostas mal medidas e de purgas internas, têm deixado arredor muita gente traumada, mancada, ferida, queimada, endoidecida, pontes rotas, campos e projetos possíveis (mais nas esquerdas) arrasados e devastados.
Apres sept années de guerre, sept années de batiment” deixemos tempo ao tempo e que vaiam sarando as feridas que têm cura. As que não têm, ou não queiram ter, terminarão por levar gente a exílios diversos ou a peregrinarem pelos cantinhos das redes, dos espaços sociais, culturais e pela imprensa como Santa Companha. Nada novo ou que não se vira antes, Sempre em Caanlam, permitam-me a piada, em mais ou menos medida.
A cousa é que a Galiza política de representação parlamentar fica reduzida hoje a três blocos interrelacionados por um eixo nacional e de classes, em conflito entre eles e com o centralismo espanholista jacobino. Os partidos movimentam-se em clave espanhola, dous dependentes de Madrid,  mas fortemente condicionados pela mensagem inequívoca de que a Galiza existe e tem um corpo eleitoral e cultura política diferente.
Um corpo alheio às estridências e que se movimenta em dinâmicas e estratégias mais à portuguesa (política de modelo atlântico ou parlamentarismo de escola britânica), apostando forte, brutalmente até quando é preciso, mas sempre discretamente, procurando, por fora dos radares e debates, maiorias, acordos e estabilidades que permitam gerir o poder, obter resultados concretos e dar satisfação a interesses diversos.
Deixemos o PSOE. O partido mais jacobino, cujo resultado se define pelo equilíbrio entre as consignas de Madrid e o poder local, em função de estratégias de Estado. A Galiza apresenta umas complexidades que é melhor deixar e centrar-se em domínios locais.
Depois temos o BNG, o nacionalismo nacionalista de corte marxista e anti-colonial com uma estratégia clássica, um discurso e mitologia de irmandade fusquenlha, uma crescente implantação territorial e uma magnífica militância e quadros locais na que reside a sua força e limites.
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Gloria Swanson como Norma Desmond em Sunset Boulevard

Centremo-nos no PPG: um modelo muito interessante, que um dia terá de explicar científica, sociológica e antropologicamente o lúcido Carlos Calvo; e que eu explico como manifestação histórica e adaptativa de  uma forma de poder Tory-céltico de controlo territorial. Nele há uma estrutura piramidal de senhores, condes e príncipes omnipotentes no seu território, gentes de clãs, famílias e relacionamentos imbricados, donos de muitos vassalos, capatazes, gentes de ação e até lanças, nada ao descuido. Entre eles escolhem o grande rei.

O poder do rei coroado sobre as pedras túmulo de Compostela é enorme. Mas a base governa. Madrid, de quem depende, pinta pouco, por mais que na simbiose com o Império resida aí parte da força, da justificação do poder e dos processos de circulação de elites. Mas quem viu Roma viu tudo e quem conhece a história da Igreja católica de Ocidente desde a fundação ou antes pouco pode se surpreender.
Observo na distância e sorrio. Não posso reprimir a gargalhada lendo as análises e rostos de surpresa dos jornalistas, analistos e tertufachas espanhóis. Acho que a realidade política galega é muito, muito mais complexa e interessante do que gostariam. E desde logo é uma realidade de longos, mui longos prazos e de apostas a sério.

Vai sendo hora de ver que o G do PPG é uma mensagem da que não apenas gostam os “velhos”. Define uma estrutura de poder e território. E com o BNG igual, não é o voto novo, apenas. A gente foi envelhecendo nele, e o de “vi Ana Ponton pela TV e parece-me uma mulher muito séria” já ouvi várias vezes em bocas de velhos que nunca pensaram votar BNG. E desta quem sabe, chega a haver dous debates mais na TVG e quem aventura que acontecia.

A guerra é pois pelo controlo territorial e pelo controlo mediático. Quem precisa de redes sociais (bom não há que deixar também) tendo a TVG e os grandes e pequenos jornais de mão? Que jogada sair os primeiros das fases, que jogadas e que fotos sempre. O mais maravilhoso da precisão e maquinária mediática foi a genial encenação do ending, reforçando essa estética de self-made man, sempre em movimento aparente, tipo Kennedy que tanto namora na Espanha. O PP, crepuscular, com Feijóo, a la Swanson, em prime time; aí um galego triunfante, festina lente, na escada, até parece piada. Mas tremendo controle da iconografia, das audiências e dos tempos, e que homenagem a mítica cena do Sunset boulevard.
Eu reconheço que fiquei fora de jogo desta sociedade tão interessante e complexa por cousas da vida. A política profissional, e os políticos profissionais, do que tantas famílias e economias dependem, importou-me e importam-me uma figa, mas gosto de conhecer a minha sociedade, saber por onde circula a gente que anda em política, e adoro vê-la assim tão céltica e sua.
Uma das últimas vezes que fui de carro à Crunha e voltei sozinho, ia escutando música clássica, celta e country, atravessando paisagens na diagonal até o Pisuerga, e pensando que boh! o projeto era encher a Galiza de casas grandes, paços e edifícios singulares eco-sustentáveis com hortas-jardins e deixarmos ir aparecendo boas bibliotecas, escolas, palcos de música, casas de cultura, tabernas, feiras, festivais, e obradoiros por todo o rural.

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