CARTA DE BRAGA – “de Buda a Ingrid” por António Oliveira

A mente está a arder, os objectos mentais (ideias, etc.) estão a arder, a consciência mental está a arder, a percepção mental está a arder e até, qualquer que seja a sensação – agradável, dolorosa ou nem agradável nem dolorosa – a qual surge por conta da percepção mental, também ela está a arder.

Ardendo com o quê? Ardendo com o fogo do desejo obstinado, com o fogo da aversão, com o fogo da ilusão

Buda

 Estas são algumas das reflexões tiradas de ‘O Sermão do Fogo’, onde referindo os sentidos, Buda afirma tudo estar em fogo e, de algum modo, aproveitei para referir os problemas destes dias.

A realidade que estamos a viver, a de uma pandemia aparentemente desconhecida, mas já vivida há cem anos, está a deitar abaixo todas as estruturas onde ela se apoiou, a de um capitalismo selvagem, baseado no desejo obstinado de uma minoria, um desejo que ela vive como sendo uma religião.

Facto já referido quando citei Savater ‘Agora não é propriamente Deus que nos castiga, mas as contradições do capitalismo e os pecados a que chamam consumismo, individualismo, patriarcado, rejeição do diferente, ecocídio, lucro e avidez’.

E assim, a religião seguida por tal minoria, ‘instalou’ diáconos por todo esse mundo, principalmente nos states, no senhorio da Amazónia, nos ‘frugais’ da EU, nos que querem ser donos do Árctico, do Pacífico e do Médio Oriente, por ser absolutamente necessário potenciar a fé dos crentes, porque o ‘corona’ até foi a ferramenta perfeita para poder aumentar o controlo social.

Nem é necessário deixar-lhes aqui os nomes, porque os manhas de todas as manhãs se encarregam de o fazer por mim.

Acontece também que, ao mesmo tempo, estamos a penar temperaturas de estarrecer, os gelos e o permafrost do Árctico estão a desaparecer e, quando a mudança climática, acelerada pelas queimas às ordens do boçalnaro, nos pregar um sobressalto já bem pior do que este, não haverá investigação para vacinas, testes de nariz, nem máscaras falsificadas ou não, que nos possam valer.

Até já começa a haver uma maior habituação à morte, por agora ser difundida como uma mera estatística, só mais um número para juntar à rotineira lista com que abrimos o jornal, a estação de rádio ou o canal tv para ‘ouver’ as notícias. 

Já vai muito longe o tempo em que toda a gente parava e tirava o chapéu ao passar um cortejo fúnebre, mas hoje essa é a única ‘actividade’ onde não está prevista nenhum ‘parceria público-privada’, por não haver candidatos e fazerem o possível para a esconder, por não ter retorno algum para investimento ou para colar cartazes.

E aqui, não muito longe, nuns países que se dizem Baixos, ‘baixos’ também parecem ser os níveis de honradez, da ética e da decência, por ganharem fortunas com os dinheiros das empresas privadas dos outros países da EU, que ali pagam impostos muito mais ‘baixos’ que nos países onde deveriam estar sediadas.

Aqui não há quarentena que consiga parar esta ‘baixaria’ porque a tal minoria ainda tem o controlo da religião e dos crentes, apesar de o seu ‘desejo obstinado’ já ter começado a pôr as mentes a arder, como a arder está a consciência e a percepção das coisas, isto a usar aqui as palavras de Buda.

E, embora pareça descolocada, parecem-me apropriadas para o caos extraordinário em que o ‘corona’ acabou por deixar no mundo, estas palavras poucas da actriz Ingrid Bergman, ‘Para ser feliz basta ter boa saúde e má memória’. 

E as redes ajudam muito, acrescento eu.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

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