A GALIZA COMO TAREFA – galerias – Ernesto V. Souza

Desenvolvi nos últimos tempos, quem sabe se como sequela do confinamento ou por declínios saudosos da idade, a vocação de passeante de sonhos. Acontece-me, com mais intensidade do que nunca, sonhar que passeio as ruas das cidades nas que morei. Por vezes o passeio é nítido e posso comprovar num percorrido com o Google Maps ou acudindo a livros de arquitetura e urbanismo que sempre me apaixonaram.

Antes sonhava mais com urbes imaginárias, onde umas ruas desembocavam em largos doutras cidades ou com edifícios já desaparecidos ou em ubicações inapropriadas, tudo com cores, formas com pontinhos de superrealismo. Chicago nevado, misturava-se com Madrid à rajeira, A Crunha com Pelotas no inverno, La Havana com Lisboa, Montevideu com Barcelona, Buenos Aires tinha detalhes de Pontevedra. E todas juntas eram sonhos nas que esse urbanismo de fantasia meu não fazia mal nenhum. Afinal a minha República dos sonhos tem um ponto conservador, neo, equilibrador e meticuloso de artesão doutrora.

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Alfonso Abelenda – A dársena Crunha

A cousa é que ultimamente sonhei forte com a Crunha. Com o passeio de Maria Pita até os Cantões, ia cedo, numa manhã de verão por uma cidade desabitada. Mirava para o chão, para aquelas pedras lavradas quase douradas e cortadas perfeitas que resistiram bem um século sem reformas e depois um uso continuado desde 1948, até que os camiões e os veículos pesados de maquinaria de construção começaram às esmigalhar. E depois as reparações modernas que mais deterioram e alteram as formas.

Do chão passava aos altos. Às galerias de madeira e vidros artesanais. Vão-se perdendo estes vidros, coloridos, de formas redondeadas, irregulares, que refletem diversos, como com jogos de águas ao Sol, e vão sendo substituídos por cristais industriais modernos, sem formas nem almas. Também desaparece a madeira lavrada em imposturas planas de alumínio ou PVC. Edifícios inteiros suplantados por edificações modernas e contemporâneas que em poucos anos avelhentam mais que os antigos e em décadas ficam alheios, sem brilho e passados de moda.

A Crunha de fins do XVIII até meados do século XIX e depois até 1936 era uma cidade portuária industriosa, aberta às novidades e ao comercio. A sua melhor arquitetura é destas épocas,  e do ressurrexit de antes da Guerra Civil. Tinha fábricas de cristal, canteiros e inúmeras carpintarias, oficinas e arquitetos. Tinha mestres célebres nos ofícios para fixar as portas à pedra, para desenhar montras, escadarias e corrimãos, para montar balaústres, portas, prateleiras e andeis de comércio e armazém, galerias, pisos, soalhos e sacadas, decoradas e melhoradas por latoeiros e ferreiros, gesseiros, decoradores.

As guerras civis da Espanha do XIX e XX, devastaram a cidade e o espírito das suas classes industriais e comerciais. Esqueceram o contacto com as emergentes cidades da América e com as cidades portuárias de Portugal, da Inglaterra, da França, da Holanda e da Alemanha, donde vinham máquinas, materiais, novidades, desenhos, postais, fotos, catálogos, revistas, ideias novas e experimentos.

As decadências foram notáveis e a obsessão de liquidarmos com o velho e modernizarmos tudo é o pior que herdamos do franquismo e da Transição espanhola. Fomos rematando com o espírito da cidade. Com esta devastação substitutiva foram sumindo também os artesãos, vaziando as possibilidades dos materiais próprios e perdendo a tradição. Mesmo agora, apenas com o que resta da Cidade Velha, Pescadaria e Ensanche, se se obrigasse a respeitar o que é por direito arte, dava para ter ocupadas em reparações, reconstruções, reformas e obra nova, gerações inteiras de artesãos.

Esse tipo de trabalho de qualidade e tradição é a matéria prima das cidades e também das sociedades. De uma economia diversa, sustentável; e de indivíduos a sério, variados, conscientes e em não pouca medida livres, orgulhosos da sua história. Mas, faltam sonhos, suponho. Talvez também foram assassinados ou perderam-se nas brumas da desmemória com o demais património.

* Ethiopia’s Shadow in America, Florence Price (1932).

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