CARTA DE BRAGA – “onde era o Éden?” por António Oliveira

Vivemos tempos em que uma carta, um postal, um bilhete ou outro escrito qualquer a dizer da leitura, da arte de redigir e de quem as pratica, sejam quais forem as opções, tem sempre valor, pois leitura e cultura sempre nos ‘mexerem’ com a vida.

Sirvo-me de um aforismo de Mark Twain, autor das ‘Aventuras de Tom Sawyer’ e das de ‘Huckleberry Finn’, humorista e escritor, tido ainda como o pai da literatura americana, ‘Há dois momentos importantes na vida, o primeiro é o dia em que se nasce e o segundo é o dia em que se descobre por que se nasceu’.

E há livros que, logo pela capa, nos levam a folheá-los à procura de qualquer coisa que nos agarre e nos obrigue a ir ao fim do livro e ao fundo de nós mesmos. Às vezes basta uma curta frase, ou só uma palavra, para abanar todo o castelo da memória, a que se herda e se evoca sem saber como nem porquê, mas que está lá, naquele livro, mesmo sem olhar para ler bem o nome do autor. É só pegar para ver depois!

E ainda sem saber bem como, ‘encontro um escrito, interpreto e transformo, até me pode mudar a vida, depende da forma como o encontro e de como me abre o coração, exactamente como com um quadro, como ouço música ou vejo um filme’, afirma o filósofo Luis Castellanos, pioneiro mundial da investigação em linguagem positiva.

Tudo porque o ser humano tem de estar aberto ao imprevisível e a leitura faz parte desse mundo imponderável, não catalogado, onde se navega impelido pela imaginação do autor, prosador ou poeta, aquele mesmo que, escrevendo, consegue abrir-nos a mente para o seu mundo, fazendo-nos mexer os sentimentos e as emoções.

Só assim, lendo, evitaremos o cáustico comentário do músico Jordi Savall, ‘Surpreende-me sempre a pouca capacidade de diálogo e compreensão; a ignorância é um dos maiores inimigos da humanidade, por estreitar o modo como se vê o mundo’.

A ignorância começa sempre no afastamento forçado ou voluntário dos valores tradicionais, que também leva a esquecer como a linguagem primeira é que se recebe em casa, não só pelas palavras, mas também pelo carinho e pelos gestos, aquela linguagem corporal que dá – quantas vezes! – o real sentido às coisas que se dizem.

Tudo a fazer dessa linguagem a primeira e mais importante das aberturas para as artes, as que estão ligadas à representação, à dicção, ao teatro e até ao canto, todas as que implicam participação, individual ou conjunta.

Dito de outra maneira, com toda a certeza mais dura e crua, Bertolt Brecht afirmou ‘A arte não é nenhum espelho para reflectir a realidade, mas sim um martelo para lhe dar forma’ porque ‘a grande arte exige amor e ódio’ pois ‘as artes contribuem para a maior de todas, a arte de viver’.

Poeta, escritor e dramaturgo que muito ‘mexeu’ no teatro moderno, Brecht tinha a autoridade precisa para poder falar assim, completado ainda por Savall ‘A música também está feita para salvar e, por isso, o canto dos escravos, dos sefardis ou a música arménia são tão belos; essa música cura as feridas

E aqui ainda há lugar para um geógrafo, David Harvey, antropólogo e professor na Universidade de Nova Iorque ‘Nós também dizemos como geram modos de vida específicos e uma estética local, a música, a gastronomia, as hierarquias sociais e as parentais’.

E Harvey explica ‘a geografia começou por ser uma disciplina militar, depois, colonial para explorar as populações, hoje é financeira, por isso estudamos o resto, é importantíssimo para definir a geografia’.

Uma vez mais, apenas a arte de viver, a cultura que nos dá a noção do ‘de onde’, do ‘ser e estar’ e do ‘para onde’, aliás a arte de interpretar e de perspectivar a nossa estadia neste mundo.

Só é preciso um investimento bem pequeno em ler, porque os livros poderão explicar (explicam!) a razão por que cada um nasceu, como diria Mark Twain! Mas mostram sempre e também, como o ofício de viver é só um exercício de liberdade!

A liberdade que devíamos ter aprendido desde o princípio das coisas porque, seguindo as palavras do jornalista e escritor galego Manuel Rivas, a servir até como conclusão para tudo o que deixei escrito atrás

El día en que Eva comió el fruto del árbol prohibido, nació la libertad! Lo mejor de la humanidad fue ese acto de desobediencia en el Edén

Onde era o Éden?

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

 

2 comments

  1. Carlos Leça da Veiga

    Mas há uma imensa maioria para quem “0 ter” – tal como o ser e o saber – é que, de facto e com que peso, molda “a arte de interpretar e de perspectivar a nossa estadia neste mundo”. CLV

  2. António Oliveira

    Acima de tudo o “Ter” porque “ter é ser” como diria Fromm, e o Saber tem cada vez menos importância, vejam-se o ‘trump’ e o ‘boçalnaro’!
    Obrigado e um abraço caro CLV
    AO

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