CARTA DE BRAGA – “de idiotas e liberdade” por António Oliveira

Li, há uns tempos e num jornal de fim de semana daqui ao lado, uma afirmação de uma chefe cozinheira conceituada na Europa, que me deixou a pensar um pouco, mais pelo seu alcance que pela autora ‘Nem toda a gente pode ser cozinheiro, mas um qualquer pode ser presidente de um país!

Mais ou menos na mesma altura o filósofo francês Maxime Rovere, já editado em Portugal pela Quetzal, responde a outro jornal

‘-Um idiota com poder é perigoso?

-Nem e necessário olharmos para trump ou bolsonaro. Na realidade, o facto de os idiotas chegarem à cúspide de qualquer hierarquia, não é resultado de alguma anomalia ou injustiça cósmicas; é só porque as probabilidades são elevadas. Todos somos tontos, a diferença é que alguns sabemos disso, como dizia Einstein’.

Também é verdade que nunca se leu deles um pensamento coerente com duas ou três frases seguidas, porque ambos se deliciam com frases para criar confusão ou barulho, por só assim conseguirem esconder as mentiras e as falsidades.

Na verdade, estamos perante o maior paradoxo da liberdade em democracia, no dizer de Cioran ‘Os medíocres, os únicos que tornam possível o seu exercício, são incapazes de a fazer durar. Devemos tudo à sua insignificância e tudo perdemos através dela’.

É mais um dos problemas das sociedades dominadas pelo dinheiro, em que a cultura está às ordens de um qualquer e incongruente contabilista, sempre mais ‘tocado’ pelos remates das contas (principalmente das suas!), que pelo pensamento ou pelos sentimentos, como aqueles dois aventesmas bem mostram.

Joan Antoni Melé, um bom conhecedor desse mundo, banqueiro, e presidente de la ‘Fundación Dinero y Conciencia’, afirmou há uns dias ao diário ‘La Vanguardia’, ‘O dinheiro é poder. Os políticos são paus-mandados do sistema financeiro, mas os bancos não são donos do nosso dinheiro. Porque lhes entregamos esse poder sem lhes perguntar o que fazem com ele? Por isso tem de haver um despertar de consciência, mas junto ao compromisso. Só a meditar cada dia que passa, não se muda o mundo’.

Tudo isto porque ‘A destruição do valor augura pobreza e, frente ao perigo que nos atinge, a gente refugia-se no estado. Falam em nacionalizar, reindustrializar, na soberania sanitária e farmacêutica. Virão os nacionalismos chauvinistas e baixos salários. Os autoritarismos terão a sua primavera, como a especulação e a apropriação de valores a preços de ruína’.

São palavras do já aqui muitas vezes citado, o ex-presidente uruguaio Pepe Mujica que, com elas, nos põem frente aos problemas decorrentes da nossa responsabilidade, a de todos, perante os tempos que aí vêm.

O drama consequente do princípio da responsabilidade, o que devemos assumir frente ao futuro, reside no facto de a insegurança criar um ambiente de angústia pessoal e colectiva. Não passa de um paradoxo, mas sem indivíduos angustiados, nem conseguiríamos pensar na necessidade da existência de um estado, tal como defendia Zygmunt Bauman.

Entretanto, entre os medíocres e as redes, o seu lugar real de sobrevivência, os cientistas avisam que há mais vírus à espera, os ecologistas mostram e anunciam os problemas da alteração do clima, a inteligência virtual está a executar uma viragem antropológica na nossa condição humana, tudo isto perante a evidência das incompetências da globalização.

Alguém me dizia há dias, ‘Estamos a afastar-nos da nossa essência humana e, se só vivemos com a ideia de sobrevivência, mas com insegurança e medo, acabaremos como marionetas facilmente manipuláveis’.

Talvez seja bom recordar Jean Paul Sartre, para nos afastarmos do aparente pessimismo desta Carta, ‘O homem nasce livre, responsável e sem desculpas’, mas para acrescentar depois, ‘O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós’.

E de outro francês, Albert Camus, agora tantas vezes citado ‘Sem a cultura e a liberdade relativa que ela pressupõe, a sociedade por mais perfeita que seja, não passa de uma selva. É por isso que toda a criação autêntica é um dom para o futuro’.

Só que o escritor e filósofo Manuel Vicent numa crónica no ‘El País’, afirmou que trump provocou um sentimento de vergonha alheia entre as elites intelectuais e científicas, por não conseguirem explicar como um país que tem as universidades e centros de investigação mais avançados do mundo, tenha votado num parolo para presidente.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

2 Comments

  1. Catedrais e palácios nunca faltaram.O barro deitada à parede só consegue enfeitar. Neste nosso Ocidente e seus domínios sempre se fez qualquer coisa para que tudo fique na mesma. CLV

  2. Estou preocupado com este momento, pois tudo irá mudar e não dou conta de alguém (dos palácios e catedrais) se inquietar com isso!
    Vejo é crescer avantesmas por toda a parte, com os media à procura de lhes darem espaços.
    Quo Vadis Humanidade, às ‘mãos’ de gente desta e de ‘bicho’ horroroso?
    Um abraço
    A.O.

Leave a Reply