A GALIZA COMO TAREFA – tempo tardade – Ernesto V. Souza

Justo rematara de reler Os Caminhos da Vida (na edição de capa dura das Completas incompletas de Galáxia do 78) que resgatara cás meus pais e da humidade destrutora que decora em pintas marelas, castanhas e mouras, qual aviso do tempo que foge, os livros meus deixados (com não poucos sonhos) na Crunha. E dando um salto, e escusas ao monte de livros que amoreio e vou adiando, apanhei Tempo tardade, de Raquel Miragaia que vinha de chegar pelos correios pouco antes.

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TEMPO TARDADE Raquel Miragaia .- Através das letras, 2020 978-84-16545-44-5

O título intrigara-me, e depois de lermos explicado numa entrevista no PGL, fascinava-me. Por outra banda, o verão é-lhes tempo para ler, mas ensaios, memórias, aborrecidos e clássicos duros… enfim… à sombra das árvores, no relvado, é melhor romance.

Adorei a nota prólogo de 2010. E a seguir topei um momento intenso e uma casa. Uma ideia de Casa. Um flash geracional comum, o rural dos 70-80, muitas vezes contemplado e mais escutado nas narrativas evocadoras e basais de boa parte das nossas amizades.

Às primeiras frases, o ritmo, pensei um pouco no Diário Combóio do que também tanto gostamos (tanta gente) no seu dia. Imediatamente fiquei mergulhado na trama. Que se desenvolve arredor da Branca – com um pontinho de romance de detetive após tópico da descoberta de umas cartas numa gaveta dissimulada- durante uma sequencia cronológica de apenas meses.

Aí, in medias res, uma pausa vital, uma necessidade de aquelar alguma cousa, de recuperar os fôlegos, a vida, a memória, um projeto, talvez um de mãos e terra, perfeitamente a calhar nos tempos em que vivemos. Meses, nos que se assiste, em paralelo e como ocupação do tempo, a uma reconstrução de um passado que abrange décadas familiares (e próprias) mal conhecidas. Semanas, nas que se vão sucedendo cenas e diálogos repletos de aprendizagem, de cumplicidades geracionais, de género e de classe, de solidariedades questionadoras e reivindicativas.

Raquel Miragaia, (Tardade, 1974)

Raquel Miragaia

Estudou Filologia Galego-Portuguesa e Filologia Hispânica na Universidade de Santiago de Compostela. É professora de Língua e Literatura Castelhana desde 2000 e ministrou aulas em diversos liceus da Galiza. Atualmente trabalha no I.E. Giner de los Ríos em Lisboa.
Tem participado em revistas e jornais como Mealibra (Portugal), Agália, Novas da Galiza ou Cuadernos de Pedagogía.
Obra: Diário Comboio (AGAL-Laiovento, 2002), Em tránsito (Difusora, 2007), O decimoterceiro mês (Ediçons do Trece-Sacaúntos, 2010), Abadessa, oí dizer (coletânea, Através Editora, 2017).

 

Li seguido. Envolve. A casa, a cozinha, a horta, a aldeia, as distâncias, os espaços de memória, os diálogos, as conversas sentidas, as rituais e as fingidas, as saudades e as lembranças. As lembranças, que se aprendem a relativizar ou até se questionam para reinterpretar, da infância e mocidade. O frio, a chuva, os cheiros diversos da casa, a escola e o transporte, as tarefas, os ciclos, a comida, o lume e as ferramentas nas mãos, a cozinha e o estudo em espaços inverosímeis, ruidosos e ocupados, as tarefas sem fim, a reciclagem total, os dias de feira e praia, os quartos da casa que se vão herdando e conquistando, a aldeia e a vila, as advertências, admonições, as fugidas, as responsabilidades, a fugida, enfim, a educação sentimental galega. E interrelacionadas com elas a lembrança de uma imagem (que se vai questionando) da mãe contempladas (e auto-dialogadas) agora por uma mulher adulta que se procura.

Os acontecimentos mais marcantes, sejam os históricos, sejam os familiares, não se explicitam. Sugeridos sempre, apontados apenas, em detalhes, jeitos, diálogos interrompidos, perguntas, cheiros, cenas, objetos, lembranças. Que como na reaprendizagem da Branca, percebe quem quer perceber e quem pode ou sabe perceber.

A sensação de romance histórico por sobre todas as cousas emana da presença do tempo. O título, a própria nota prévia e a data nela evidenciam um ritmo, um tempo lento de escrita e publicação, festina lente, apressa-te devagarinho. O que é interessante, porque junto com o Silêncio, ou os silêncios, o Tempo (ou os tempos) é outro dos grandes protagonistas do romance.

O tempo passado, o tempo perdido, o tempo silenciado, o tempo apagado, o tempo das fugidas, o tempo das voltas, o tempo que se recupera, o tempo que se re-aprende, o tempo que marchou e até o tempo que volta, o tempo das cartas e o tempo do telemóvel e internet, o tempo cronológico da vida, o tempo histórico que se vai narrando em paralelo, o tempo associado em forma de lembranças e saudades que permitem reconstruções. O tempo de Branca (uma mulher que parou o seu tempo); o tempo de Isaac (um homem a um relógio colado que mede em quartos); o tempo da mãe (que é relativo e elástico como a sua imagem); o tempo da senhora Modesta (uma mulher sem tempo, marcada por um tempo); o tempo de Miguel (que é diferente e existe como presente contínuo); o do senhor Joaquim (que se mede pelos tempos urgentes das cronologias agrícolas); o tempo das amizades (que enfrontam e agem com o presente em curso e com o as causas do nosso tempo); o tempo frustrado do tio José, o saudoso dos avôs e tios; os trágicos e secundários da Antónia, das suas filhas e da sua mãe Josefa; o tempo patriótico e silencioso (república, guerra civil, maquis, repressão, exílio) do Elói de Campos e o tempo empreendedor e individualista do Manolo (personagem arquetípica do tendeiro/padeiro a meio caminho entre a ajuda promissória e o negociante que aproveita a emigração); o tempo coral das personagens da emigração e as da terra. O tempo do Serafim: o tempo doloroso e partido da diáspora, impossível pela saudade e depois violentamente quebrado.

Tardade, pois, tem um tempo galego, um tempo próprio, relativo e fragmentário, como o silêncio, e que cumpre ordenar para dar sentido e corpo à memória.

E dada a coincidência na sucessão da leitura, permite-me para além, perceber esse salto no tempo literário e histórico, e interpretá-lo no vieiro de Arredor de Si e os Caminhos da vida. Com a perspetiva de género e classe mudada e a cronologia dos séculos andados.

Mais que mudada, sequenciada no tempo, o que não se percebe sem destacarmos que é agora a história da ginea de Balbino, melhor dito, das Balbinas, a que se narra desde dentro. A gente que emigrou, e a que ficou e deu estudos e oportunidade de sair à descendência e que agora são (e lutam por ser dignamente) universitárias, profissionais urbanas e CEOs.

Porém e com isto mantém-se um protesto; na realidade muitos protestos muitas vezes também apontados (as lutas sociais, o feminismo, a eco-sustentabilidade). Um protesto contra o ritmo, a favor de um tempo nosso, que como a Terra, ainda não é nosso. Enfim e também, parem que baixo, preciso respirar e pensar, contra um mundo, o ritmo imposto e os tempos ajustados do capitalismo.

Uma continuação (também por aquilo do cânone e a história da padronização na nossa prosa) com um interessante salto de língua no tempo. Só reparem na evolução: o galego barroco e hiperengebrista oteriano de fins dos anos 20 do século passado e o galego do trinque e moderno miragaião de quase 100 anos depois.

Gostei. Mas, Tempo Tardade soube-me a pouco. Segundo ia lendo e chegando ao fim, achei que o mundo de Tardade, a história, hesitações e diálogos internos da Branca, a crónica epistolar, os medos, os silêncios, as misérias e brutalidades era apenas um rascunho. Esse universo, espaço, saga, personagens familiares e simbólicos; presentes e à vez parados num tempo outro, em conflito com eles mesmos e com qualquer futuro desintegrador; merecia um romance longo, no jeito isso, d’Os Caminhos da Vida ( ou Os Maias, Os Buddenbrooks, Los Gozos y las Sombras, Los pazos de Ulloa, Las comedias bárbaras, Il Gattopardo… ou qualquer outro que disponham, ponham à vontade).

Num comentário cruzado no PGL, a autora disse-me, com humildade inecessária, que talvez me dececionara a leitura… não, a contrário, podem ver, mesmo à sombra das árvores, achei uma peça canônica.

https://www.atraves-editora.com/produto/tempo-tardade/

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