PORTUGAL ESCORIADO OU PORTUGAL VALORIZADO? – por LÍDIA MARTINS

 

 

english version here

Bruxelas, 22 de agosto de 2020

 

Sou portuguesa emigrante; amo demais o meu país à beira-mar plantado, com praia e montanha, valioso património natural, rico em energias renováveis de sol, luz, vento, água.

Vivendo num local a 100 kms do mar, com pouca luz natural e péssima qualidade de ar, sei valorizar o ativo económico que é o património natural de Portugal.

Que orgulho sinto por Lisboa ter sido escolhida como Capital Verde Europeia 2020 e estar a ser “estudada/consultada/seguida” por outras cidades europeias, entre as quais Bruxelas.

Que orgulho sinto por Portugal ter provado que a produção elétrica a partir de fontes renováveis é segura e fiável, tendo conseguido, assim, lançar menos poluentes para a atmosfera e poupar na compra de licenças para poluir. (1)

Para Portugal-depois-da-crise-da-pandemia desejo FUTURO e viabilidade para esse futuro, desejo saúde, desejo qualidade de ar, qualidade de água que corre nos rios e lençóis freáticos; desejo pescado de boa qualidade para o êxito dos projetos de aquicultura sustentável; desejo litorais e hinterlands de qualidade, permacultura e agro-floresta, turismo de qualidade, universidades e centros de inovação virados para as tecnologias limpas; desejo enfim qualidade de vida e prosperidade baseada em atividades duradouras, resilientes, respeitadoras da natureza, dos bosques, montanhas, mar, solos, rios.

 

20200822_222334.jpg

 

Terminou ontem, em princípio, a curtíssima consulta pública aos portugueses (21 julho-21 agosto) sobre em QUE PROJETOS deve Portugal apostar para aproveitar os dinheiros europeus NEXT GENERATION UE, decididos no último conselho europeu de 17-21 julho, com vista a recuperação económica durante a próxima década.

Impõe-se que as consultas sobre temas que a todos pertencem sejam democráticas e representativas. Assim, esta consulta deverá ser prorrogada até 21 de setembro, pelo menos, permitindo a participação dos cidadãos-eleitores que vão regressar da praia, seguindo os moldes propostos pelo Forum dos Cidadãos, seguindo o exemplo do Parlamento do Limburgo, na Bélgica, ou da Convenção dos Cidadãos para o Clima, em França, e de muitas instâncias do poder local europeu.(2)

E agora o cerne da questão: quais os  financiamentos que Portugal deve privilegiar na apresentação, à Comissão Europeia/Semestre Europeu, do seu Plano de Recuperação pós-covid19?

Claramente não aqueles que originam mais pandemias, perda de biodiversidade, erosão dos solos, contaminação dos aquíferos, aquecimento global, desflorestação, incêndios, mortes prematuras por poluição atmosférica.

No mundo pandémico de 2020, quando os pulmões da Terra ardem todos os anos, quando o deserto ganha latitude, quando os cidadãos eleitores exigem o cumprimento do Acordo de Paris, quando os jovens estudantes caminham pelo Clima, todas as 6as feiras,  é totalmente irresponsável e inaceitável a proposta de António Costa Silva -Partex, PTTEP Tailândia- (3) da exploração mineira de hidrocarbonetos, minérios, terras raras, sulforetos polimetálicos, seja no hinterland português, seja no mar dos Açores ou alhures, com ou sem robots/inteligência artificial/smart mining. Ninguém em Portugal tem interesse em ser apelidado de Bolsonaro II….

Eu, cidadã portuguesa, não quero que o meu País se danifique, se transforme numa plataforma logística de extração e escoamento de minério, uma escória esventrada por drones, robots e maquinaria automatizada. Lendo as redes sociais, seguindo a sociedade civil, temos consciência de que esta visão é partilhada por muitos milhares de portugueses.

O desejo e a visão é que  Portugal aposte em projetos de investimento genuinamente  GREEN NEW DEAL (4),  baseados em tecnologias limpas e sustentáveis (pensar em termos de 300 anos) que reduzam a sobrecarga da pegada ecológica no planeta.

Portugal tem FUTURO ao promover projetos de atividades económicas, postos de emprego, investigação baseados em energias limpas e tecnologias que respeitem a natureza, que preservem e recuperem a saúde dos rios, solos, ar, florestas, habitats, fauna e flora.

É isso que os cidadãos em geral e os jovens em particular querem para Portugal, que Portugal esteja na linha da frente da TRANSIÇÃO ECOLÓGICA (melhor do que a mera transição energética).  A Economia da Transição Ecológica é um investimento rentável e seguro.  Por quê escolher outra vez os maus caminhos, quando podemos escolher os bons?

Espero que o atual Governo de Portugal ouça os cidadãos portugueses, em vez de ouvir os senhores das minas e do petróleo. Ficará assim na história por ter realizado um bom trabalho, à altura do que é necessário fazer para preservar um FUTURO viável para as próximas gerações.

E os portugueses dirão que faz sentido viver em Portugal, voltar a Portugal, trabalhar em Portugal, investir em Portugal, que somos uma comunidade de valores, que cuidamos uns dos outros.

____________

(1)https://www.jn.pt/economia/producao-de-energia-renovavel-excedeu-a-consumida-em-portugal-pela-primeira-vez-9229899.html

https://www.youtube.com/watch?v=sNoRh1OC_U4

(2) https://www.publico.pt/2020/08/15/opiniao/opiniao/dinheiro-decisoes-investir-tambem-1927680

https://www.foundationfuturegenerations.org/sites/www.foundationfuturegenerations.org/files/documents/news/20190226_dgpermanentcitizensassembly_communiquepresse.pdf

https://www.baume-les-dames.org/conseil-consultatif-et-citoyen.html

(3) https://www.youtube.com/watch?v=IJ-u73CByUQ

(4) https://greennewdealgroup.org

__________

Sobre mim

Leave a Reply