Obrigado a Ángel Ubide e a El País
Seleção e tradução de Francisco Tavares
Por Ángel Ubide
Publicado em
Negocios, em 5 de julho de 2020 (ver aqui)

Porque motivo há recessões que duram pouco e outras que parece que nunca mais acabam? Porque motivo, depois de um choque, o desemprego, por vezes, aumenta rapidamente, mas depois demora muito tempo a regressar ao nível em que estava no ponto de partida?
Porque motivo parece que as recessões das últimas décadas tiveram um impacto negativo, quer sobre o nível de crescimento potencial quer sobre a taxa de crescimento potencial das economias?
A resposta a estas perguntas faz-se em torno do conceito de histerese. A histerese descreve situações nas quais um choque económico transitório provoca efeitos permanentes. A histerese rompe a dicotomia clássica segundo a qual somente as políticas estruturais (as famosas reformas) têm efeitos permanentes e introduz um elemento de dependência histórica na evolução da economia. Isto implica, por exemplo, que um aumento transitório do desemprego, se se mantiver durante demasiado tempo, pode aumentar o desemprego de equilíbrio. E que, portanto, não se pode deixar a meio caminho a resolução de uma recessão: uma recessão mal tratada gera efeitos negativos permanentes. A escassez da procura destrói a oferta.
Felizmente, a histerese funciona de maneira simétrica. Como se viu nos EUA na última década, é possível que a procura crie a sua própria oferta: o longo ciclo expansivo regenerou a oferta de trabalho e reduziu o desemprego até 3,5%, o valor mais baixo em 50 anos, sem provocar inflação, bem por debaixo dos 5% que em 2015 era considerado o nível de desemprego não inflacionista.
A reação à crise do Covid-19 refletiu algumas das lições da década passada. Ante um choque profundo e persistente, mas transitório, os bancos centrais e os governos reagiram rápida e agressivamente, afastando (corretamente) os medos relacionados com o risco moral (o possível impacto negativo da sua ação em relação aos incentivos dos governos ou dos agentes privados) e com o nível da dívida e do défice.
Uma inovação que foi adotada por muitos países europeus, com resultados muito positivos, foram os esquemas de manutenção do emprego de curto prazo (os ERTE em Espanha), fundamentais para evitar a histerese. Uma das razões pelas quais o desemprego leva tempo a reduzir-se após uma recessão é a ruptura das relações entre trabalhadores e empresas. A flexibilização dos ERTE reduziu esta fricção e melhorou a resposta do mercado de trabalho espanhol ao choque do Covid-19, um exemplo positivo e imediato de reforma estrutural. E uma das medidas de êxito será o número dos ERTE que seajm reabsorvidos como emprego em vez de acabarem em despedimentos.
A recessão será, talvez, a mais curta da história, mas o tempo de recuperação será longo, até que haja uma vacina que permita o regresso à normalidade. A chave para que esta crise deixe apenas alguns arranhões ou cicatrizes menores, e não tenha sequelas económicas permanentes, é que se estabeleça um processo de recuperação tão longo e generoso quanto for necessário.
Ante um choque sistémico os governos têm que agir como recurso de última instância. Isso evitará que se estabeleça o pessimismo, o investimento caia, e o crescimento enfraqueça. E para isso há que evitar a obsessão com o “custo” orçamental imediato das medidas necessárias, como no caso dos ERTE. Se estiverem bem desenhadas, estas medidas não são uma despesa mas antes um investimento que evita a redução do crescimento potencial. Não devemos esquecer que o défice e a dívida não são objetivos em si mesmos, mas tão só instrumentos de política económica. A questão chave é a qualidade das políticas, não a quantidade do défice.
Nesta situação impõe-se desenhar uma estratégia de saída baseada em parâmetros económicos, e não em horizontes temporais predeterminados.
Por exemplo, preservar os esquemas de manutenção do emprego, de apoio às rendas de aluguer das famílias, e de garantias públicas, até que as restrições económicas sejam eliminadas. E comprometer-se, no mínimo, com a manutenção de política orçamental expansiva até que o PIB recupere os níveis anteriores ao Covid-19. Para isto deve contribuir a reforma do pacto de estabilidade. É um conceito semelhante ao adotado pelo BCE que afirmou que manterá o plano extraordinário de compra de ativos até que a inflação recupere os níveis preCovid-19.
Esta estratégia de saída terá de ser complementada, certamente, com um plano a médio prazo de reforma orçamental, de melhoria da produtividade e de redução das desigualdades, de forma coordenada com o novo Fundo Europeu de Reconstrução. Estas necessidades de médio prazo não devem, porém, desviar a atenção da necessidade imediata de prolongar o estímulo orçamental tanto quanto for necessário. Para crescer no médio prazo haverá que, primeiro, sobreviver no curto prazo.
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O autor: Ángel Ubide, é diretor de Citadel LLC desde 2018, foi diretor da Goldman Sachs (2016-2018), foi membro senior do Peterson Institute for International Economics (2009-2016), é um especialista em bancos centrais, assuntos europeus, finanças e política macroeconómica. Ubide trabalhou durante uma década e meia no sector dos fundos de cobertura, primeiro na Tudor Investment Corporation, uma empresa de gestão de fundos de cobertura multiestratégia e mais tarde no D.E.Shaw Group, uma empresa global de investimento e desenvolvimento tecnológico. Tem estado profundamente envolvido no debate de política económica global como membro do Comité Director do Grupo Euro50; como membro do Conselho de Administração do Comité Reinventing Bretton Woods; como membro fundador (2002-12) do Shadow Governing Council do Banco Central Europeu; e como membro associado no Center for European Policy Studies. Escreveu sobre macroeconomia internacional, política monetária, questões de política europeia, banca, e taxas de câmbio. Ubide tem sido um colaborador frequente dos media espanhóis, actualmente como colunista económico no El País, e também tem sido publicado ou citado nos principais jornais mundiais, incluindo o Economist, Financial Times, Wall Street Journal, e Newsweek. O seu recente trabalho centra-se na dinâmica da crise financeira global, com especial ênfase nas perspectivas da zona euro, e na política monetária. É licenciado em economia e administração de empresas pela Universidade de Saragoça e tem um mestrado e doutoramento em economia pelo Instituto Universitário Europeu de Florença, Itália.


Com este curriculum deixa-me muito assustado.CLV
Independentemente do CV (ou precisamente com esse CV), parece-me um texto que assume posições num sentido bem interessante, isto é, que, ainda que de forma indireta, leva a questionar as ruinosas políticas da UE, e o próprio pacote recentemente aprovado.