FRATERNIZAR – Enquanto o seu cadáver é levado para o Cemitério local, eu canto no Youtube – PARA ISAURINHA COM AMOR – por MÁRIO DE OLIVEIRA

 

Durante o tempo em que a urna fechada com o cadáver de Isaurinha permanece na Casa Mortuária de Macieira da Lixa, sem quaisquer flores, adereços e símbolos religiosos, e que ela deixa quando em meados de julho 2020, 88 anos de idade, se torna definitivamente invisível aos nossos olhos – o cadáver é uma coisa que nos deve merecer todo o respeito, mas não é mais a pessoa histórica que conhecemos e amamos – em momento algum alguém me vê lá presente. Muito menos me vê no cortejo organizado para o transportar na urna directamente para o espaço previamente preparado para a receber no cemitério da freguesia. Sem chegar a entrar na igreja paroquial, frente à qual não pode deixar de passar, uma vez que não há outro acesso ao local.

À mesma hora em que se inicia o cortejo, estou inteiro com Maria Laura, a filha mais velha de Isaurinha, que também decide não integrar esse momento final. Como, antes – é público e notório – estou inteiro com ela e com sua mãe, nos meses e meses em que Isaurinha se vê confinada a uma cadeira de rodas, primeiro, e depois permanentemente numa cama articulada plantada na sala da casa da filha, bem próximo do quarto dela. Uma vez que Maria Laura, contra ventos e marés, decide cuidar da mãe, 24 horas sobre 24, durante todo esse longo tempo. O próprio médico de família, comum à mãe e à filha, acha que Maria Laura não dispõe de saúde para semelhante responsabilidade. Mas ela a tudo e todos faz orelhas moucas. E nem sequer na fase dos chamados ‘Cuidados Continuados’, aceita que a mãe deixe a sua casa. De modo que o Centro de Saúde vê-se obrigado, na altura, a levar os Cuidados Continuados a casa dela.

O surpreendente é que, depois de todos estes meses de incondicional entrega por parte da filha a sua mãe, Maria Laura apresenta-se agora, nos seus 70 anos de idade, bem mais saudável, liberta, alegre, feliz. Como se a Vida, à medida que ‘sai’ de Isaurinha esteja a entrar directamente na filha que dela cuida. Ao ponto de, quando o alzheimer e o cancro já se fazem sentir de forma acentuada no corpo dela, e a filha lhe pergunta, Quem sou eu, mãe?, ela reiteradamente responde, És a minha mãe! A revelar à saciedade os insondáveis mistérios da vida humana que, nos actos de nascer e morrer mais intensamente se afirmam. Não como terror. Sim como revelação da grandeza e da fragilidade que somos, enquanto nascidos de mulher, por isso, seres humanos-consciência, concebidos e nascidos para Cuidarmos de nós, uns dos outros e da Terra, nossa casa comum.

E é aí a partir da sua casa que, quando o cadáver está a sair da Mortuária, eu disponibilizo no Youtube e nas redes sociais um vídeo com o Canto que Isaurinha tantas vezes nos diz que quer que eu lho cante nesse derradeiro momento. Na impossibilidade de o fazer presencialmente no cemitério, uma vez que o pároco que nunca visitou Isaurinha nos anos em que cá está, e já são muitos, nem mesmo nos meses que ela vive acamada em casa da filha Maria Laura, surpreendentemente, aceita presidir ao cortejo e ao sepultamento do cadáver. Apesar de ser informado que, por vontade expressa de Isaurinha, o cortejo nem sequer pode levar a cruz paroquial, muito menos terá missa de corpo presente, nem nenhuma outra, porque ela sabe, desde há bastantes anos, que esse tipo de ritos indignificam quem a eles preside e quem a eles assiste. O surpreendente é que, mesmo assim, o pároco, depois de todas as investidas falhadas que faz para levar a dele avante, lá acaba por aceitar todas essas restrições. De modo que um funeral assim nunca se houvera visto em Macieira da Lixa!…

Felizmente, quando, depois de tudo consumado, a Agência funerária apresenta a conta a Maria Laura, dela não consta qualquer verba para o pároco. É, pois, previsível que ele nunca mais caia noutra. E se, como devia, já não tivesse caído nesta, teriam sido os familiares mais próximos de Isaurinha, comigo também presente entre eles e com eles, a conduzir todo o processo, como sempre deverá ser. E só não é, porque os clérigos e outros líderes religiosos sistematicamente roubam a voz e a vez às populações. O que perfaz um crime de lesa-humanidade que, como se sabe, continua aí impune. E a impedir as populações de crescerem em dignidade, liberdade e autonomia. Um crime que a Covid-19 acaba de pôr ainda mais a nu!

(link de acesso ao canto)

 

www.jornalfraternizar.pt

 

P.S.

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