Uma das fotos que mais me impressionou nos últimos tempos, antes da vinda do ‘corona’, foi a da fila de espera para chegar ao cume do Everest, aquele celebrado pico das alturas dos Himalaias, como se lá houvesse um prémio para os primeiros cem a pôr lá o pé!
Marcaria talvez e apenas, a imensa vontade da ‘marcelice’ de uma selfie para a galeria individual dos troféus, tal como haverá outras na praia do Porto Santo, ou de fins idênticos com a Gioconda, a cara do Ronaldo e ou a Lady Gaga, só que a do Everest era mais complicada, por haver muito frio a exigir vestimenta apropriada, para ‘enricar’ a foto!
Mas marcou ainda o apogeu da ‘era das multidões’ com início nas últimas décadas do século passado e que teima em não nos largar, apesar das centenas de milhares de mortes por esse mundo fora, devido a um bicho bem feio, mesmo ‘coronado’ e que vive muito bem dos e nos ajuntamentos.
E parece marcar o fim dos amontoados festins nas praias, catedrais comerciais, balcões de hambúrgueres e batata frita, concertos de tudo e nada, futebóis para fanáticos de emblemas e bandeiras, viagens ‘low cost’ de difícil entendimento onde, as comemorações de finalistas trocam as praias daqui por outras iguais em terras estranhas, de nunca mais ir, mas a darem umas boas selfies para armazenar nos ‘fundos’ da secção das ‘pictures’.
Servem só para mostrar e ‘conversar’ com as dezenas de amigos das redes, um paleio já limitado por uma máscara incómoda que mal deixa respirar, mas a merecer formas e cores variadas, que isto de modas e massificação tem regras que não se podem esquecer.
Por outro lado, o apogeu dessas ‘amizades’ só veio a fortalecer a imitação gregária em que, aparentemente, a gente mal reflecte sobre as coisas em que crê, por ir atrás da ‘onda’ da maioria onde, o facto de juntar muita gente, nem quererá dizer que possa ser a mais correcta.
O isolamento, as ‘companhias’ dependentes da hiperligação, o pouco ou quase inexistente apelo à leitura e à cultura, podem levar (levam!) a que as massas se formem só por identificação sentimental, quaisquer que sejam as emoções que as congreguem, arrastando até para algumas formas de radicalização.
Entretanto devemos agradecer aos deuses as séries da Netflix, que conduziram ao final das novelas a imitar ‘brasis’, mas já aí estão as turcas e as indianas a pedir outros jeitos de usar o telemóvel, para nos manterem emudecidos.
Mas, até voltarmos a achar como é aprazível viver fora das políticas de multidões, talvez a gente (todos nós!), possa redescobrir o prazer e o encanto das pequenas coisas, como conversar com um amigo real, daqueles que, por acaso, até vivem na mesma rua, sentar numa esplanada e ler um conto ou uma estória curta, só para lembrar o prazer da leitura.
Uma curta série de reflexões, provocadas pela foto de uma fila de friorentos à espera de também chegar ao alto do Everest ou de outros na praia do Porto Santo, mas só para quem tenha mais tempo e dinheiro para uma selfie diferente!
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor