CARTA DE BRAGA – “isolamentos e marés” por António Oliveira

Estes tempos de isolamentos, de estadias contrafeitas em casa para evitar males maiores, têm-me arrastado para considerações diversas e diferentes, mas de acordo com as marés, as do aborrecimento, da aceitação, da leitura, da escrita, das conversas com amigos (mesmo só pelo telemóvel) e muitas comigo mesmo.

No blog ‘Mãe preocupada’, uma boa amiga escreveu há já algum tempo ‘O sentido do dever é uma virtude com partes iguais de tristeza e conveniência’ e creio que poderá dar o sentido perfeito a esta crise nossa, de todos, até mesmo dos negativistas, os que só se sentem bem quando ‘à molhada’, ignorando o ‘outro’, aquele que até lhe poderá ser bem próximo, num exercício de egocentrismo puro.

Mas também voltei a dar mais tempo aos livros, àqueles que mais me marcaram, àqueles que me fizeram companhia há muitos anos, em tempos de procurar outros e novos rumos, para sair de uma inércia rotineira que me asfixiava.

Um livro pode ser sempre um incentivo a viajar encerrado, mesmo sentado num sofá, uma boa desculpa para me escapar e esquecer o mundo, evitando o estratagema onde se cai, quando se contam as páginas que ainda faltam para poder voltar a este mundo.

Basta entrar naquele outro, ali exposto pelo autor que, expondo-o, se expõe também, mas nos trata como um igual, pois a escrita, dizia Hannah Arendt, ‘É uma parte fundamental do processo de compreensão’, quando o leitor a assume também como sua.

E uma tarde destas, num confinamento tristonho, agarrei na ‘Odisseia’ aquela compilação de tradições orais feita no século VIII a.C. por um outro poeta, Homero, que nas palavras de Sylvain Tesson, geógrafo, explorador e escritor ‘Inventa a literatura! A literatura consiste em contar vivamente o não vivido e… que maravilhosas descrições geográficas!

E ali se conta de Ulisses, a quem a guerra roubou uma vida e a quer recuperar na paz da própria casa, um ‘Ulisses que podia ser imortal com Calipso, mas escolheu ser mortal! E só por isso, por querer ser mortal, vive na memória da humanidade, a lição maior do poeta helénico!

Mas um Homero que também deixou escrito, talvez pelas desventuras do seu herói ‘Não há um ser mais desgraçado que o homem, entre quantos vivem e se movem por esta Terra’ e, se calhar por isso também, carregamos dois mil e muitos anos de pessimismo e, agora, um fardo bem pesado!

Porque estes tempos parecem estar a acentuar tal pessimismo, por serem tempos em que ‘Faz falta uma plena solidariedade internacional e uma resposta coordenada à escala mundial, uma sociedade para além do estado nação e baseada na cooperação’ diz o filósofo Slavoj Zizek.

Tal como há dias li num jornal europeu, ‘Somos uma civilização que se acaba e a nova que aí vem, exige uma outra maneira de organizar a economia e de recriar o modo como convivemos, pois, estamos frente ao abismo e só o podemos cruzar se nos enfrentarmos com a sociedade que criámos’, palavras de Otto Scharmer, professor do MIT.

Scharmer, americano, professor e especialista em economia, parece conhecer bem o mundo de que fala, até pelos tempos que se aproximam para ele e para o mundo inteiro, com as eleições marcadas para 3 de Novembro próximo, onde se joga mais que a reeleição do patusco presidente americano.

E no DN, Viriato Soromenho Marques escrevia há alguns dias, ‘Hoje, no coração da política dos EUA, ninguém tem as mãos limpas de crude, para transformar o desafio ambiental e climático planetário numa Nova Fronteira. Tal é a doença desta América, dilacerada por dentro, amputada da sua própria memória crítica, e sem bandeiras a partilhar com o resto do mundo. Esse mundo de que um dia se julgou ser farol e exemplo supremo’.

E, talvez a propósito, perguntou o escritor Brett Easton Ellis aos americanos, ‘Se atiram a culpa toda para o trump, o que ficará para vós? Quem é o protagonista da vossa própria existência? Ele não merece tanto!

Para terminar de uma maneira mais de acordo com estes dias, transcrevo uma ideia que roubei do ‘Xilre’, outro blog que frequento todos os dias, ‘O mar é a saudade conservada em sal

Que cada um a aproveite, conforme se ajeitar às marés do seu isolamento!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

Leave a Reply