Episódios da crise do Covid em Espanha: da ignorância da uma certa grande imprensa à incompetência da gestão autonómica de Madrid – alguns textos de análise. 6. De quem é a culpa? Da política ou da cidadania? Por Ana Bernal-Triviño

Seleção e tradução de Francisco Tavares

 

6. De quem é a culpa? Da política ou da cidadania?

 Por Ana Bernal-Triviño

Publicado por  em 05/10/2020 (ver aqui)

 

Uma rua deserta no bairro madrileno de Alcobendas. EFE/Patricia Cristóbal

 

Se isto fosse uma situação cómica poderiam responder com aquilo de a culpa é do chachachá. O problema é que não estamos para canções porque há muitos mortos debaixo de terra e infetados que enchem as UCIs. Normalmente, acusa-se a cidadania como parte responsável pelos contágios de Covid, com reportagens de câmara oculta mostrando imprudências, como por exemplo não levar a máscara bem colocada. Podia ser interessante também haver câmaras ocultas nas reuniões privadas de alguns políticos, e poder-se ver o porquê de determinadas decisões. Vamos por partes:

  1. Que Espanha seja, na segunda vaga, o país líder em contágios na Europa e Madrid seja a comunidade mais afetada não é por má sorte. É uma má gestão. Qual o principal problema? Segundo os peritos e peritas, a rapidez do desconfinamento. Relembremos que, por exemplo, em Madrid o desconfinamento foi feito sem que a capital respeitasse nenhuma das medidas das fases acordadas com as restantes comunidades. A comunidade de Madrid estava por conta própria. Tanto que Ayuso [presidente da Comunidade de Madrid] levou o governo a tribunal por não lhe permitir sair da fase 1. E isso apesar de a OMS ter determinado regras claras para o desconfinamento: melhoria dos cuidados de saúde primários e rastreadores. Madrid e algumas outras comunidades acharam que isso era desproporcionado até que chegou a nova vaga (que se sabia que podia chegar) e as arrasou.
  2. Estragar tudo com o desconfinamento teve muito a ver com as pressões dos empresários e do turismo. Já sabemos que Espanha é muito Benvindo, Sr. Marshall. Depois do esforço de meses fechados atirou-se tudo borda fora porque esse desconfinamento sem controles nem regras (por exemplo, a Itália fechou as discotecas) provocou um relaxamento brutal, como se não se passasse nada e a pandemia tivesse desaparecido. Não haverá economia até que a saúde esteja controlada e enquanto não exista vacina essas medidas dependem das administrações públicas. Porque afinal, se te preocupas apenas com o dinheiro e a epidemia aumenta acontecem duas coisas: com o medo de contágio os turistas não vêm, as empresas e os negócios têm que fechar e aumentas os gastos nuns serviços saúde já de si saturados. As contas não batem certo e o resultado é péssimo.
  3. Essas reportagens de câmara oculta sobre se as pessoas usam máscara em bairros do sul de Madrid (estigmatizando-os ainda mais) talvez tenham uma explicação. Não só o erro da OMS dizer no início “máscaras, não” com a desculpa de que não era necessária quando o problema era que não havia produção suficiente para atender a todos os países do mundo. Quando o erro foi reconhecido por parte da OMS tivemos o mesmo problema no desconfinamento, acompanhado de manifestações anti-máscaras. E o erro foi que nem todas as comunidades as tornaram obrigatórias ao mesmo tempo. De facto, Madrid foi a última a fazê-lo. A ver se isso tem alguma coisa a ver com que uma parte dos cidadãos se tenha relaxado em alguns momentos, além de que não houve campanhas públicas de consciencialização.
  4. Spain é diferente. E até o foi em plena pandemia, quando a nefasta oposição ocupou artigos da imprensa internacional onde era acusada de não estar à altura das circunstâncias. Aqueles países que mostraram união política tiveram melhores resultados, enquanto que aqui tínhamos partidos da oposição que passavam as sessões parlamentares, em plena pandemia, a responsabilizar e a levar a tribunal a manifestação de 8 de março e a dizer que o governo, com o estado de alarme, era “ditatorial”. Aqui as primeiras queixas começaram logo na terceira prorrogação [que foi até 10 de maio]. Em Itália, o estado de emergência continua vigente, o que permitiu que o governo governasse por decreto, sem passar pelo Parlamento, sem que em Itália isso tenha sido visto como uma ditadura. Só há que comparar, à data de hoje, os resultados dos dois países. Uma determinada parte da gestão autonómica atirou borda fora o esforço que foi feito com o confinamento. As pessoas já estão cansadas de mentiras. Não se pode dizer que serão feitos PCRs a todos os contactos para ficar bem na foto da conferência de imprensa e umas semanas depois dizer que não serão feitos PCRs aos contactos de uma pessoa contagiada. Isso é o descontrole.
  5. Depois temos algumas contradições que, por esta altura, os diferentes governos já deveriam ter esclarecido, uma vez que chocam frontalmente com estudos científicos. Não se pode exigir distanciamento social e não ligar a isso nos meios de transporte, metro e suburbanos. Não se pode dizer jardins não e fechá-los, e dizer sim a 50% em espaços fechados ou poder ir aos casinos. Estas contradições produzem uma perda de autoridade não apenas do político mas também da ciência e das regras. Porque as regras devem ser para todos os espaços, não para uns sim (onde se faz receita) e para outros não (espaços gratuitos). Nova Iorque somente desde esta semana abriu os restaurantes a 25% da sua lotação e não fechou os parques. Vejam os seus resultados e os nossos.
  6. A esta cadeia de erros junta-se o erro mais grave. Se apesar de cumprir as regras, levar máscara ou lavar as mãos… se quando uma pessoa necessita saber se tem o Covid, não há rastreadores, nem cuidados de saúde primários nem PCRs e os laboratórios estão saturados demorando dias a dar os resultados… que culpa tem nisto a cidadania? A cidadania não pode estar somente para manter a economia, consumir e trabalhar, necessita também clareza e ação de cuidados de saúde, ou então fica exposta. Prevenir sempre é mais barato que curar. Sempre. Por isso, quando agora saem os títulos sobre quanto perderá Madrid economicamente, a verdadeira pergunta devia ser sobre quantas mortes se evitam. Quer dizer, para estes economistas quantas vidas são demasiadas para serem salvas? Não teria sido muito mais barato ter PCRs e rastreadores desde o desconfinamento? Não sabem que não só se tem de pagar por cuidados de saúde imediatos, mas que também o Covid pode deixar sequelas, tais como doenças crónicas? Não sabem que o custo dos cuidados de saúde seria menor? Não sabem que o impacto económico no turismo também seria menor? Porque o perigo não é tanto que aqueles que vêm a Madrid por Barajas, mas que ninguém queira vir sabendo que somos o país com mais contágios. O confinamento é o último remédio quando antes se fez tudo mal. Seria bom se esses economistas, da próxima vez, falassem antes, quando não há investimento (que não é um custo) em prevenção e vamos a caminho do desastre sanitário e económico.

Enquanto tudo isto se passa há pessoas que continuam sem saber se estão doentes, outras têm operações suspensas, outras pensam sobre o que fazer de comida para o dia seguinte, outras esperam a bolsa de alimentos que lhes dão no bairro, outras pensam se a sua empresa irá encerrar, outras pensam a quem deixar o filho se ficar doente, outras pensam como ir ao médico devido á sua doença crónica se a fila de espera está em 15 dias, outras pensam que talvez estejam há muito a reutilizar a máscara porque não lhes chega [o dinheiro]… A cidadania empenha-se em cumprir, mas se a gestão pública não está presente, isto quebra. E aqui já se quebrou demasiado.

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A autora: Ana Bernal-Triviño [1980 -] é jornalista e investigadora espanhola, doutorada em jornalismo pela Universidad de Málaga e professora na Universitat Oberta de Catalunya. Publicou os seus trabalhos, muitos deles centrados na defesa dos direitos da mulher, em meios de comunicação internacionais como o USA Today ou The Washington Post e em meios nacionais como o Público ou El Periódico de Catalunya. Desde Setembro de 2018, ela trabalha como Tertualiana em La mañana de La 1 em RTVE (consulta em Wikipedia em 05/10/2020).

 

 

 

 

 

 

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