Em Viagem pela Indochina – 11 – Laos por António Gomes Marques

 

Em Viagem pela Indochina – 11

por António Gomes Marques

III-9 — LAOS — Notas Finais

Direitos Humanos:

Quando tentamos ter uma visão sobre o país em análise, não podemos deixar de referir a questão dos direitos humanos. No caso do Laos, há jornalistas que se dizem independentes, e alguns são-no!, que se referem a várias violações dos direitos humanos neste país, sendo muitas dessas violações perpetradas por membros das respectivas forças armadas. Além desses jornalistas, também algumas organizações internacionais de direitos humanos e humanitárias fazem referência a esse tipo de violações, o que não posso confirmar ou desmentir por não ter elementos para tomar uma posição clara sobre se há ou não violações dos direitos humanos no Laos.

As lutas que levaram os comunistas ao poder deixaram marcas profundas nos lados opositores; no entanto, se temos, sobretudo no Ocidente, organizações que nos falam dessas violações, não temos o contraponto —pelo menos, eu não consegui obter esse contraponto, provavelmente por deficiência minha—, ou seja, não consegui encontrar da parte das forças governamentais alguns desmentidos.

No capítulo anterior, dedicado às Forças Armadas, já fiz uma referência a esta questão.

Volto a repetir, não posso negar a existência de violações dos direitos humanos no Laos, mas posso testemunhar que, no tempo que estive no país, não vislumbrei medo nos laosianos, não vislumbrei a inquietação, a submissão que é normal encontrar em povos que são oprimidos, inquietação essa de que nos apercebemos com relativa facilidade se estivermos atentos. Repito também que testemunhei algumas dessas inquietações no contacto que tive com vários representantes de países da chamada «cortina de ferro» em festivais internacionais e, particularmente na Bulgária comunista, testemunhei a mudança de comportamento de camponeses e pastores, mostrando uma submissão que me incomodou, assim como a outros delegados, nomeadamente dos países nórdicos, que eram aqueles com quem eu mais convivia e com quem discuti o sucedido, logo que chegava um membro destacado do Partido Comunista. Na Bulgária, lembro especialmente uma festa que proporcionaram a todos os Delegados ao Congresso e Festival Mundial do Teatro de Amadores, num parque atravessado por um riacho em que a água corria desde a montanha, onde todos tivemos a oportunidade de conviver com camponeses e pastores que vieram ao nosso encontro, naturalmente de acordo com a organização. Assaram cabritos que nos deram a comer, assim como outras iguarias. Com eles e elas cantámos e dançámos —lembro-me sobretudo de uma dança parecida com a do Zorba (o filme Zorba, o Grego, baseado no romance de Nikos Kazantzakis, com os espantosos Anthony Quinn e Alan Bates e essa não menos espantosa Irene Papas, filme que ficou também famoso pelo tema “Sirtaki”, de Mikis Theodorakis)— em que a alegria se estendeu a todos os presentes e, de repente, logo que chegou a Presidente do Congresso e esposa de um membro do Comité Central do Partido Comunista Búlgaro, demos por alguns desses populares a correrem a estender uma manta no chão para Sua Excelência se sentar, outros a correrem com pratos com as iguarias iguais às que nos tinham dado e que para ela estavam guardadas. A música e a dança acabaram, os Congressistas foram-se sentando em grupos, eu com os meus amigos nórdicos, e o silêncio impôs-se. A Senhora acabou de comer e, poucos minutos depois, todos os Congressistas estavam desejosos de voltar ao hotel.

Ora, esta subserviência não vi nos laosianos. Vi sempre sorrisos de simpatia, delicadeza no contacto connosco, mas não subserviência fosse para quem fosse. Evidentemente, isso não invalida que haja forças policiais e membros da milícia atentas a todo e qualquer movimento de oposição e às infiltrações de agentes secretos de algumas potências, não devendo ser o Laos, ainda mais com os comunistas no poder, diferente de qualquer outro país. Também admito que os oposicionistas sejam presos apenas por o serem e que não lhes dêem uma grande liberdade de expressão. Fome não vi, mas tive pouco contacto com zonas rurais; no Ocidente temos liberdade de expressão, mas muita gente com fome e a viver abaixo do limiar de pobreza, bastando fazer uma visita aos subúrbios de Lisboa ou do Porto, os casos mais gritantes aos nossos olhos. E no interior de Portugal como é?

Corrupção e Índice de Desenvolvimento Humano:

Segundo a Transparência Internacional, o Laos é um dos países mais corruptos do Mundo, com repercussões, a ser assim, no investimento estrangeiro, para além de dificuldades da Justiça em fazer cumprir os contratos e até os regulamentos dos negócios; no entanto, os investimentos avultados da China, da Tailândia e do BAD – Banco Asiático de Desenvolvimento parecem desmentir estas conclusões daquela organização não governamental.

No Índice de Desenvolvimento Humano, o Laos aparece, dados de 2014, na posição 141ª.

Segundo a Transparência Internacional, no Relatório de 2019, o Laos aparece na posição 130 com 29 pontos, ou seja, tornou-se um pouco menos corrupto. Para termos uma ideia do que isto significa, lembremos que, segundo a classificação desta organização, quanto maior for a pontuação no seu índice, menor será o nível de corrupção. Para melhor se entender este Relatório, vou fazer uma comparação com outros países. Assim, Portugal está no 30.º lugar do índice juntamente com a Espanha, o Qatar e Barbados, com 62 pontos, mas com uma diferença significativa para os menos corruptos, pois, como habitualmente, Dinamarca, Finlândia e Nova Zelândia aparecem como os países menos corruptos, estando a Dinamarca na posição 1 com 87 pontos. Em posição absolutamente diferente, a Síria, o Sudão do Sul e a Somália ocupam os últimos lugares.

Saúde:

Para quem visita o Laos, convém ter presente que não existem acordos de segurança social, como adverte o Ministério dos Negócios Estrangeiros português (1).

O governo laosiano definiu uma nova política para a saúde —Estratégia e Plano de Acção para o Serviço Integrado de Saúde Reprodutiva Materno-Infantil—, determinando que as crianças com menos de cinco anos, assim como as mulheres grávidas, passem a ter acesso gratuito a serviços de saúde, incluindo exames médicos e tratamentos, de harmonia com as declarações do Director do Departamento de Higiene e Promoção da Saúde, do Ministério da Saúde do Laos, Phath Keungsaneth, programa este aplicado nos hospitais e dispensários governamentais em todo o país. (2)

Através do programa «Desenvolvimento do Milénio» das Nações Unidas, Banco Mundial e Fundo Internacional que visa promover o abastecimento de água potável e o saneamento básico, terão sido alcançados progressos significativos na melhoria do sistema de saúde, progressos esses que se mostram, nomeadamente, na diminuição de doenças como a malária, que reduziu em 60%,  aumentando em 75% o número de unidades de saúde por todo o Laos

Espero que, em breve, o programa se estenda a toda a população. Tratando-se de um país comunista, não pode haver desigualdades!

Água e saneamento:

O Laos tem um sistema de saneamento muito deficiente, com um abastecimento de água incompleto e falta de tratatamento de águas, o que, naturalmente, tem consequências graves em termos de saúde, causando muitos casos de desinteria e diarreia, sendo as crianças as primeiras vítimas, com mortes prematuras de milhares de crianças (6.000), situação bem mais grave nas zonas rurais e com grande contributo para o total das mortes. No entanto, pensa-se que a situação poderá melhorar significativamente a partir do momento em que o governo laosiano adoptou o acima citado programa «Desenvolvimento do Milénio» das Nações Unidas, Banco Mundial e Fundo Internacional.

Infra-estrutura, nomeadamente Sistema de Transportes:

Como já referi neste texto, a infra-estrutura de transportes é muito deficiente no Laos. Se, no que toca à ferrovia, já se iniciou um processo de desenvolvimento, não pode esquecer-se que, por enquanto, as necessidades do país estão longe do necessário planeamento e concretização, apesar de, para além das linhas já construídas, que referi no texto, há projectos para mais algumas linhas de ferrovia. Espero que entre os projectos e a sua concretização não se imite o exemplo português.

O Laos possui uma companhia aérea nacional, a Lao Airlines, tendo eu viajado em dois dos seus pequenos bimotores, operando nos seus aeroportos internacionais, o de Viantiane, o de Luang Prabang e o de Pakse, para além de outras companhias asiáticas: Bangkok Airways, Vietnam Airlines, AirAsia, Thai Airways International, China Eastern Airlines e Silk Air.

Os principais centros urbanos estão ligados por estradas alcatroadas, mas as restantes localidades são servidas por estradas não pavimentadas, onde o trânsito no Inverno nem sempre é possível. As «pick-ups» com bancos são utilizadas no transporte de pessoas, como verifiquei.

Os rios são ainda um dos meios mais importantes de transporte, quer de passageiros, quer de mercadorias, como pude observar.

As telecomunicações internas e externas têm limitações, embora nunca tenha tido problemas com falta de rede no telemóvel.

Vi em pleno funcionamento ATM’s, dizendo-me o guia que também existem em zonas rurais, onde com fac ilidade se pode levantar dinheiro.

A electricidade já chega a muitas localidades rurais, mas ainda não a todas, o que, com tanta produção de electricidade, como atrás referi, talvez venha a ser uma das próximas conquistas, vindo a possibilitar a todos os laosianos o desfrutar de tão precioso bem, sem a qual nós já (quase?) não conseguimos viver.

Em 1995, apenas 10% da população tinha saneamento; passados 13 anos (2008), essa percentagem havia subido para 38%.

Como já referi na parte em que tratei da economia, o governo laosiano criou a possibilidade de haver alguma iniciativa privada, controlada, estando a ter êxito significativo com as parcerias público-privadas, assinadas com pequenas empresas.

Cultura (3)

Incluo aqui os jornais, os quais, no Laos, são todos publicados pelo governo, incluindo dois jornais em língua estrangeira, um em inglês, Vientiane Times, e outro em francês, Le Rénovateur. A agência de notícias oficial, Khao San Pathet Lao, publica também as notícias em inglês e francês.

Existem 9 jornais, 90 revistas, 43 estações de rádio e 32 estações de televisão a operar em todo o país.

Em 2011, foram autorizadas duas organizações da imprensa estrangeira, Nhân Dan (O Povo) e a Agência de Notícias Xinhua, tendo os seus escritórios em Viantiane.

Como facilmente se deduz, o governo controla todos os órgãos de comunicação, não havendo qualquer possibilidade de mínima crítica aos actos governamentais.

Nos centros urbanos, há cafés com «internet», naturalmente muito frequentados, sobretudo pelos jovens.

O Laos, com os seus 236.800 km² e com menos de 7 milhões de habitantes, é talvez o país asiático com menor densidade populacional; no entanto, tem mais de quarenta e sete etnias reconhecidas pelas autoridades governamentais, divididas em 149 subgrupos e 80 idiomas diferentes, embora a língua oficial seja o Lao, como já disse. Assim, é natural que tenha uma diversidade cultural muito grande, tanto mais que as etnias não perderam as suas tradições, sendo a mais vincada a dos H’mong. Uma das etnias, a Lao Sung, foi bastamente recrutada pelos EUA e pelos seus aliados nas guerras contra os comunistas e seus aliados na década de 60 do século passado, como recrutaram uma parte significativa de H’mong (v. capítulo que dediquei à História do Laos). Para além destas características, no Laos podemos encontrar influências de vários povos que, ao longo dos séculos, ocuparam o território, onde hoje está implantado o país, de povos asiáticos de países como a Tailândia, a China, o Vietname, o Camboja e a Birmânia, mas também de França, a potência ocidental colonizadora, o que faz do Laos um país asiático único, quer pelos seus costumes, quer pela sua prática cultural.

Há filmes produzidos no Laos, poucos, mas a ganhar reconhecimento internacional, com participações em alguns festivais, como o Festival de OzAsia, tendo mesmo havido um filme, «Querida Irmã», candidato ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, realizado por Mattie Do, que obteve uma Menção Especial do Júri, no Lind International Fantastic Film Festival (2016) e outra no Sitges International Fantastic Film (2016). Foi seleccionado para o Festival Internacional de Cine en Guadalajara 2017, Fantastic Fest 2016, BFI London FF 2016, Hawaii International Film Festivaçl 2016 e Singapore International Film Festival 2016.

É um filme de terror ─confesso não gostar deste tipo de filmes─, mas, pelos resultados obtidos, poderá ser um marco importante na história do cinema do Laos. Eis a sinopse: «uma moça pobre de uma aldeia no Laos viaja para Viantiane, a capital do país, com o objectivo de cuidar de uma sua prima rica que ficou cega, tendo-se ela apercebido que a prima, para além de ter adquirido a capacidade de comunicar com os mortos, pode também abrir um caminho para a riqueza.»

Seleccionando pelo título, os interessados poderão ver o filme na «internet».

Pelas vestes tradicionais, será possível saber a que etnia determinada pessoa pertence, o que exige um profundo conhecimento que, naturalmente, não está ao alcance de um visitante que não se tenha dedicado ao estudo necessário para ficar apto a distinguir uma etnia de outra; por outro lado, as vestes tradicionais não são utilizadas todos os dias.

Meninas Lao Loum a dançar. Repare-se na beleza das vestes e, já agora, na beleza das bailarinas
(Fotog. in: https://pt.qwe.wiki/wiki/Culture_of_Laos)

Jovem Akha com traje tradicional
(Fotog. in: https://pt.qwe.wiki/wiki/Culture_of_Laos)

Para além desta diversidade cultural, há outras actividades na área da cultura que convém referir, não devendo ser esquecida a presença do budismo na larga maioria das actividades culturais, com particular realce nas manifestações populares das várias etnias. Sabe-se que 60% da população é seguidora do budismo Theravada, nos outros 40% encontram-se os animistas, embora continuem budistas, que constituem a quase totalidade destes 40% da população. Há também quem professe outras religiões, como o islamismo e o cristianismo, mas não vão, na totalidade, além de 2% dos laosianos.

Falando dos animistas, devemos reter que têm tradições muito fortes, com as suas crenças em espíritos tradicionais que contribuem para estabelecer fortes laços entre os Lao Loum, os Lao Theung e os Lao Sung. Esta crença nos espíritos é referida como «Satasana Phi», sendo «Phi» os espíritos, como, por exemplo, os fenómenos naturais, ou seja, são deidades guardiãs de localidades, cidades ou aldeias, que protegem as pessoas, não deixando de haver também espíritos malévolos. Estas crenças levam os animistas a erigir uma «casa do espírito» na sua propriedade, com a convicção de que assim se garante o equilíbrio entre o mundo natural e o mundo sobrenatural.

Uma casa do espírito
(Fotografia in: https://pt.qwe.wiki/wiki/Culture_of_Laos)

Entre os Lao Loum, há (havia?) uma crença de que as serpentes míticas, conhecidas como «ngueak», habitavam as vias fluviais, sendo responsáveis por terem esculpido a paisagem circundante e por proteger os pontos chave dos rios, tendo o rio Mekong como nome antigo «Nam Nyai Ngu Luang», ou seja, «Rio Grande da Serpente Gigante».

Todas estas tradições propiciam, naturalmente, manifestações culturais bem diferenciadas dos que seguem o budismo Theravada.

Também será de relembrar que muitos jovens se tornaram monges budistas, o que ainda acontece, como única maneira de conseguir prosseguir os seus estudos, mas a base da sua educação não deixará de ser religiosa e, portanto, influenciando toda a actividade que vierem a ter esses jovens quando deixarem os Mosteiros, o que nos faz lembrar o que aconteceu em Portugal, sobretudo durante o Salazarismo, em que muitos jovens das aldeias tinham como única opção, para irem além da instrução primária, o ingresso nos Seminários, pensando eu que uma grande percentagem deles não chegariam a ordenar-se como padres, mas ficavam com habilitações para seguirem outros caminhos, nomeadamente no funcionalismo público. A PIDE, a principal força de repressão salazarista, fez uma boa parte do seu recrutamento entre os jovens saídos dos Seminários.

Muitas destas etnias, como os Lao Theung ou os Lao Sung, estavam fora das estruturas de classes tradicionais do Laos. Teoricamente, a revolução socialista, com a tomada do poder em 1975, pôs fim às distinções de classes, mas na verdade não terá ido além de transformar as estruturas tradicionais num conjunto diferente de elites. Será que os dirigentes do partido comunista constituem uma destas elites com mais privilégios, como as sociedades de estilo soviético nos habituaram? Não tenho informação documental que me permita fazer uma afirmação destas, seria pura especulação à moda ocidental, no que não embarco. Também não tenho informação documental que me permita afirmar o contrário, para além de conversas com um ou outro laosiano, nomeadamente o guia, como já referi, dizendo-se satisfeitos com a actuação do governo; por outro lado, o meu tempo de permanência no país também não me permitiu aprofundar esta questão.

O diálogo não é fácil com a população em geral; entre os mais velhos, encontra-se uma ou outra pessoa que fala francês, embora haja já muitos jovens que falam inglês ─o que significa que, dentro de alguns anos, a segunda língua no Laos possa vir a ser o inglês e não me consta que a França faça alguma coisa para contrariar o que me parece uma inevitabilidade—, mas o tipo de interrogações a que um visitante pode ser levado só poderá ser aprofundado quando se cria uma relação de confiança que, pelas razões que apontei, não tive tempo de criar no meu diálogo com os poucos laosianos com quem falei.

Os princípios budistas não deixaram de estar presentes entre os laosianos, com especial destaque no respeito pelos mais velhos, pela família e, até, pelos monges, sendo que, no caso destes, a frequência de muitos jovens das camadas populacionais mais deserdadas do ensino ministrado nos mosteiros budistas terá grande influência. A unidade familiar é fundamental na interacção social, ao ponto de se referirem uns aos outros como irmãos ou tios sem que haja um laço familiar/parentesco real.

No relacionamento entre as pessoas, lembro-me de o guia me ter dito que apontar com as mãos ou os dedos é insultuoso entre os laosianos, sobretudo se houver um desentendimento.

Passando a outras manifestações culturais, no campo da literatura há uma tradição muito rica dos séc. XVI e XVII, destacando-se a poesia épica com algumas obras-primas, nomeadamente a que relata a lenda da chuva do Rei Sapo («Phya Khankhaak»). Nesta literatura tradicional, há uma série de lendas como, por exemplo, «O pecado Xay», um conto mitológico de um rei e a sua irmã, raptada pelo Senhor do Nyak, e o «Thao Hung Thao Cheuang, uma das obras literárias mais importantes da cultura do Sudeste Asiático, se não a mais importante, que trata das lutas dos Khmmu, povos indígenas do Laos, aquando das migrações tai, um ramo das línguas tai-cadai, da Tailândia —a língua laosiana pertence ao mesmo ramo tai—, cujas migrações para o vale do rio Mekong e outras zonas do sudeste asiático foram provocadas pela expansão chinesa e pelas invasões do império mongol.

O budismo Theravada tem muitas histórias religiosas e moralidades que são muito populares, desde o épico «Phra Lak Phra Lam», que tem como conteúdo uma nova versão, esta laosiana, do «Ramayana», contando uma vida anterior do Buda. Uma outra obra-prima da literatura laosiana, o «Vessantara Jataka», que fala da vida passada de um príncipe condolente, Vessantara, que oferece tudo o que possui, incluindo os próprios filhos, o que é apresentado como o exemplo da caridade perfeita, obra esta apresentada como o «Grande Sermão do Nascimento». Este conto é celebrado num festival anual não só no Laos, mas também na Tailândia, em Myanmar, no Sri Lanka e no Camboja. Esta história tem algumas variantes na China, no Tibete e até no Japão, em que o nome do príncipe vai variando.

Luang Prabang, Wat Mai, «Cenas do príncipe Vessantara Jataka»
(in: https://pt.qwe.wiki/wiki/Literature_of_Laos)

Há também no Laos uma grande tradição de lendas, de histórias de fantasmas, ou seja, histórias de «naga», como são referenciadas. Há que considerar também uma outra tradição, a dos chamados contos malandro, conhecidos como «contos de Xieng Mieng», tão populares como as histórias «naga»; em conjunto, dominam a tradição oral na literatura laosiana.

Um Phaya Naga guardando o Templo de Wat Si Saket, na capital do Laos.
(Fotografia in: https://en.wikipedia.org/wiki/Phaya_Naga)

Na mitologia laosiana, os «Naga» são os protectores não só de Viantiane, mas de todo o país, com uma presença muito acentuada na cultura do Laos, particularmente na literatura, presença esta muito acentuada a partir do rei Anouvong, também conhecido como Chao Anu, de que falei no capítulo dedicado à História do Laos, estando hoje incorporada na iconografia do país de forma bem evidente e não apenas em Viantiane. A influência tailandesa é aqui evidente, afirmando-se também na mitologia laosiana que os Phaya Naga são semicriaturas, semidivinos, naturalmente com poderes sobrenaturais.

Mas esta mitologia não é exclusiva do Laos e da Tailândia, estando espalhada, nomeadamente, pelo Sul da China e Sudeste da Ásia, havendo a crença de que o Lago Erhai é habitado pelos Naga, sendo o criador do rio Mekong.

No ponto em que o rio cruza a fronteira da Tailândia com o Laos, ocorre um fenómeno para o qual os cientistas ainda não encontraram explicação. Esferas flamejantes saem do rio e projectam-se na vertical, o que levou uma equipa de cientistas, do Ministério de Ciência e Tecnologia da Tailândia, em 2003, a pôr como hipótese serem essas bolas de fogo produto de ignição de gases de metano e nitrogénio provocadas por bactérias existentes no fundo do rio. (4)

Toda esta mitologia parece essencial na vida dos laosianos, independentemente da etnia a que cada um pertença. Retomando a tradição dos «contos malandro» de que atrás falei, posso acrescentar, para a sua melhor compreensão, que estas sátiras irreverentes surgiram no período das guerras dos séc. XVIII e XIX, quebrando tabus culturais, a que não escapou a própria autoridade religiosa. Nessas histórias, Xiang Miang aparece como um noviço, esforçando-se por enganar quer o rei, quer o abade, com sentido de humor, do que resultam contos moralmente instrutivos.

Mas esta tradição literária do Laos, contando histórias dos seus povos, tem, pelo menos, 600 anos, embora tal tradição não seja exclusiva deste país, estendendo-se a todo o sudeste asiático, numa encruzilhada que envolve as guerras em que estes povos se envolveram, sem esquecer as conquistas coloniais dos europeus, notando-se no Laos uma influência cultural dos países vizinhos ─Tailândia, Camboja, China, Vietname, Birmânia─, como também da potência colonial, a França.

A literatura do Laos tem vários géneros: filosofia, história, religião, combinação de filosofia e religião, prosa, poesia épica e lírica, folclore, astrologia, rituais, dramas, comédias, romances. A escrita com temática religiosa nem sempre tem nome de autor, nem uma forma fixa, havendo releituras e reinterpretações do texto inicialmente publicado.

A literatura clássica e antiga foi divulgada por cópias sucessivas de manuscritos em folha de palmeira, preparadas a partir de folhas secas, fazendo nelas incisões com um objecto cortante, de onde resulta a escrita que, depois, é coberta com tinta ou carvão vegetal, posteriormente limpa e, assim, revelando as palavras escritas. Na sua preservação destacam-se os templos budistas, guardando os manuscritos em caixões de madeira, em especial pelos budistas de tradição Theravada, mas também pelos budistas animistas, como se demonstra pela existência de bibliotecas nos respectivos templos.

Há também textos em papel, em livro, papel esse produzido a partir da casca de amoreira ou a partir de algodão lacado, não tão duráveis como os manuscritos em folha de palmeira.

A hegemonia dos templos budistas na educação, como já referi, contribuíram para uma sociedade letrada no Laos, quer através dos monges e do seu trabalho nas bibliotecas dos templos, na formação dos noviços que, depois, não se tornavam monges, mas esta hegemonia viria a ser substancialmente diminuída por uma educação secular com a colonização do país, passando a educação então a ser dada em siamês ou em francês, o que trouxe uma renovação na literatura laosiana ─em que o instituto cultural francês, École Française d’ Extreme-Orient, teve papel preponderante, com um pequeno grupo de intelectuais franceses a ter a preocupação de estudar as tradicionais formas literárias do Laos─, sendo a política, a partir da tomada do poder pelos comunistas, a dominar hoje a literatura que se vai desenvolvendo no país, mas que não destrói a milenária cultura popular, um grande património do Laos, assim como a tradição oral; no entanto, há que registar que as influências ocidentais e tailandesas não deixaram de existir, sobretudo nos jovens escritores.

Como não poderia deixar de ser, os conflitos havidos na história do Laos são muito tratados na sua literatura.

Quanto ao património artístico, há hoje uma grande preocupação de o preservar, nos mosteiros e nos poucos museus, mas com a consciência plena de que os três séculos de conflitos originaram não só a destruição de parte significativa deste património, mas também saques, assim como proporcionaram que uma boa parte fosse vendida.

A tecelagem mantém-se uma arte bem presente, graças à grande produção de seda, como tive ocasião de observar. As várias etnias têm as suas próprias técnicas de tecelagem. Na zona de Luang Prabang podem encontrar-se bordados com fios de ouro e prata de grande beleza.

A escultura é, sobretudo, religiosa, com estátuas de Buda em várias posições, de pé ou sentado, de tamanhos os mais variados.

O artesanato tem uma grande pujança, sobretudo com a produção de objectos artísticos em madeira, sendo de referir o mobiliário esculpido, que os museus mostram, nomeadamente o Museu no Palácio Real de Luang Prabang, e a cestaria.

Na música, há que referir o «lam», com um ritmo veloz e um cantor a improvisar, tratando temas como o amor, a pobreza, as dificuldades da vida, temas esses às vezes tratados com muito humor, sendo esse humor muito utilizado em disputas entre um cantor e uma cantora, poesia popular cantada e que virá da tradição da poesia oral.

O instrumento tradicional da música laosiana é o «Khaen», que é um órgão de boca livre feito de cana de bambu, com os conjuntos musicais a utilizarem também cítaras, flautas, tambores, pratos e xilofones, não fugindo a outros instrumentos mais modernos como, por exemplo, teclados eléctricos.

O teatro é, sobretudo, musical. Os temas mais frequentes utilizam os contos «jataka», «uma famosa coletânea de lendas sobre as vidas anteriores de Buda. Segundo a tradição, teria sido o próprio Buda quem as teria contado a seus discípulos, usando a imagem das contas de um colar. Cada conta é uma vida inteira, onde o ser que viria a se tornar o Buda aparece como homem, mulher, animal e até divindade, aprimorando virtudes como paciência, sabedoria ou generosidade.» (5)

A ópera laosiana é uma versão mais teatral do já referido «lam», utilizando cenários, figurinos, com acompanhamento orquestral, tratando não só temas tradicionais, mas também sociais.

Espectáculos de dança folclórica são frequentes, como o «Mor Lam», que é uma dança de origem tailandesa, utilizando uma forma de música parecida com o pop ocidental.

Mor Lam

Laos – Notas Finais

  1. in: https://www.portaldascomunidades.mne.pt/pt/conselhos-aos-viajantes/l/laos#cuidados-de-saude;
  2. in: https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2017-04/criancas-do-laos-irao-receber-cuidados-de-saude-gratuito;
  3. Consultar https://pt.qwe.wiki/wiki/Culture_of_Laos; https://en.wikipedia.org/wiki/Vessantara_Jātaka; e https://pt.qwe.wiki/wiki/Literature_of_Laos;
  4. in: https://pt.wikipedia.org/wiki/Rio_Mecom;
  5. in: https://www.saraiva.com.br/contos-jataka-2532233/p;
Escrito predominantemente em Lagos e terminado na Portela (de Sacavém) em
2020-10-06
A continuar com «Em Viagem pela Indochina – Vietname»

2 Comments

  1. Como comentário só posso felicitá-lo pelo brilho do seu trabalho, muito em particular, pela pormenorização que se não foi exaustiva esteve lá muito perto. Abração do CLV

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