ENVIAR TRUMP PARA O INFERNO, por ARIEL DORFMAN

 

Tomgram: Ariel Dorfman, Trump’s Divine Fate

 

 

 

Sending Trump to Hell, por Ariel Dorfman

Tomdispatch.com, 22 de Outubro de 2020

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Revisão de João Machado

 

Caso não tenham reparado, usam-se máscaras no inferno. Eu próprio só este ano é que soube disso. No entanto, como tudo leva a crer, como a maioria dos americanos, estou agora num círculo do inferno. Sinto-o particularmente quando ando pelas ruas que começam a arrefecer, não a aquecer, à medida que o Inverno chega (por muito lento que seja) e um pico pandémico nos casos Covid-19 se aproxima, sinto-o enquanto que os hospitais enchem, o pânico cresce, e que o presidente de… bem, do inferno… nos assegura  que, a bem ou a mal  (sendo  mal talvez a palavra chave aqui), em 2021  espera supervisionar a maior recuperação económico da história. E atenção, ando a pensar neste pesadelo pelas ruas de Nova Iorque meio cego com os meus óculos embaciados, mesmo por cima daquela minha máscara, embaciados com o meu próprio fôlego. Não tenho dúvidas de que é o nevoeiro do inferno, pois, na minha idade avançada, os meus amigos estão cada vez mais isolados e sozinhos numa cidade, num país, num mundo sitiado.

E por muito mau que possa  ter sido, não tinha de ser assim, se  tivéssemos um presidente que se preocupasse com qualquer um de nós, mesmo só um bocadinho, mesmo microcosmicamente como ele se preocupa consigo próprio. É por isso que hoje me dá um prazer especial publicar uma obra daquele maravilhoso escritor chileno, cujo trabalho comecei a editar e publicar em forma de livro nos anos 80, o meu velho amigo (e colaborador habitual do TomDispatch) Ariel Dorfman. Li pela primeira vez um escrito de Dorfman em 1969 noutros tempos quando ainda era tipógrafo na New England Free Press. Era uma crítica a Walt Disney, de que era  co-autor, anos avançada para o seu tempo, chamada How to Read Donald Duck e eu nunca a esqueci. Hoje, ele faz o que muitos de nós, incluindo eu próprio, gostaríamos de fazer. Ele coloca  o “nosso” presidente, Donald Trump, para lá dos portões do Inferno. Junte-se a ele por um momento, mesmo que os seus óculos fiquem embaciados. Tom

 

A Enviar Trump para o Inferno

Dante Alighieri tem alguma coisa para dizer a Donald Trump, do lado de lá da morte

Por Ariel Dorfman

 

Há já algum tempo que quero enviar Donald Trump para o Inferno. Refiro-me a isto literalmente, não como uma figura de linguagem. Quero que ele vá habitar o inferno palpável e sensorial que as religiões há muito conjuraram, com cenas de enxofre, condenações e gritos de dor perpétua daqueles que outrora causaram danos gravíssimos aos seus semelhantes.

Quanto mais Trump vai abusando do seu poder e da sua posição neste mundo e quanto mais consegue escapar a qualquer vingança pelos seus crimes, mais obcecado eu fico com a visualização de  formas de o fazer pagar nalguma versão da vida após a morte.

Enquanto me debruçava sobre o tratamento que ele merece pelo caos que continua a causar às vidas de inúmeros outros aqui nos Estados Unidos e em todo o mundo, recorri quase automaticamente à obra de Dante Alighieri, o poeta italiano cuja Divina Commedia recriou minuciosamente num verso chamado terza rima o que esperava  os leitores do seu tempo uma vez mortos. Dante (1265-1321) mostrou a sua paisagem de outro mundo  em três volumes — Inferno, Purgatorio, e Paradiso — que foram justamente considerados entre as realizações literárias mais importantes e influentes da humanidade.

O Inferno que Dante criou nada tem de  abstrato. Dante imaginou-se pessoalmente a fazer uma viagem ao além para conhecer homens e mulheres, tanto do seu tempo como do passado, que estavam a ser recompensados pela sua virtude ou eternamente castigados pelas suas ofensas. Dessa viagem através de fogos purgatoriais e maravilhas celestiais, guiado pela sua querida namorada  de infância morta Beatrice, foi a descida do escritor florentino aos círculos saturados do Inferno que mais fascinou e cativou os leitores ao longo dos séculos. Escutamos histórias dos ímpios enquanto exprimem o seu remorso e experimentam os tormentos altamente  sofisticados com que ele sonhou como represálias adequadas pelos danos que causaram durante a sua existência terrena.

Testemunhando as realidades infernais que o Presidente Trump desencadeou na América, não posso deixar de me perguntar onde Dante teria colocado o nosso canalha na sua vida de horror após a sua morte. No final, talvez não surpreendentemente, percebi uma coisa óbvia: o 45º presidente tem uma tal multidão de transgressões em seu nome que ele se encaixa em quase todas as categorias e em todos os cânticos  que Dante inventou para os pecadores da sua idade.

Enquanto pensava no que o autor italiano teria feito com Trump e a sua certeza de estar acima das leis da sociedade e da natureza, fui invadido pela voz divinatória e lírica de Dante. Surgiu-me como se estivesse numa alucinação. Ouvindo-o atentamente, consegui gravar as palavras com que aquele poeta visionário de outrora descreveria um homem que, até há pouco tempo, se acreditava invencível e invulnerável, e como seria julgado e condenado uma vez terminada a sua vida neste mundo.

Aqui está, então, a minha versão da profecia de Dante – a minha maneira, isto é, de finalmente entregar Donald Trump ao Inferno para sempre e mais um dia.

Dante cumprimenta Trump às Portas do Inferno e explica qual vai   ser o seu  castigo.

O meu nome, senhor, é Dante Alighieri. Entre os inúmeros mortos que habitam estas paragens, fui escolhido para vos  falar porque era necessário um perito na vida após a morte para descrever o que espera a vossa  alma quando ela passar, como devem todas as almas, por esta terra de sombras. Fui escolhido, seja isso uma honra ou não, para imaginar o vosso destino, logo que vos encaminhardes até nós.

Tendo aceite esta tarefa, fui tentado, Donald Trump, enquanto observava cada ato da vossa vida antes da morte, a tornar isto mais fácil para mim e simplesmente conjurar os círculos do Inferno que eu já tinha descrito na minha terza rima. Tê-vos-ia então guiado, passo a passo, pela minha cascata de versos, até às profundezas da escuridão que eu tinha concebido para os outros.

Não fostes vós  a encarnação egoísta de tantos pecados com que lidei na minha Commedia? Luxúria e adultério, sim! Gula, sim; ganância e avareza, oh sim; ira e fúria, certamente; violência, fraude, e usura, sim, de novo! Divisibilidade e traição, até mesmo heresia – vós que não acreditastes em Deus e ainda assim usastes a Bíblia para propaganda – sim, mais uma vez!

Será que não praticastes  todas essas iniquidades, será que não fostes  um escravo dos vossos apetites sem amor e sem limite? Não mereceis ser chamado a prestar contas da maneira  que em tempos imaginei: fustigado por ventos viciosos, afogado em tempestades de putrefação, asfixiado por águas borbulhantes de beligerância, imerso no sangue fervente que ecoa a fúria, sedento numa planície em chamas, mergulhado nos excrementos da lisonja e da sedução, despedaçado pelos demónios noturnos da corrupção, ou sentindo essas tuas garganta e língua que puseram aos bocados tantos cidadãos serem mutiladas e cortadas aos pedaços? Não seria justo que, tal como outros perjuros e impostores, rebentásseis com a  doença? Não faria sentido ficardes mergulhado no gelo ou nas chamas, mastigado infinitamente pelas mandíbulas da eternidade, como no meu tempo aqueles que cometeram traição contra o país e amigos?

E, no entanto, por fim, rejeitei tudo isso. Afinal de contas, fui escolhido não para me repetir, mas porque confiaram em mim para ser criativo e encontrar um novo modelo adequado para vós – algo, disseram as autoridades responsáveis por este lugar, menos selvagem e feroz, mais educacional, até mesmo  algo que seja terapêutico. Como os tempos mudaram desde que escrevi aquele meu poema!

A minha missão, ao que parece, não era inserir-vos em anéis de um inferno de vingança aterrador já concebido. Assim, comecei a procurar inspiração nos meus companheiros de sofrimento ao longo de tantos séculos mais tarde e ali estavam, de facto, as vossas multidões de vítimas, as que precisam de ser curadas, as que nunca quisestes ver ou lamentar, cuja dor nunca   partilhastes, que agora te querem saudar,  Donald Trump,  de uma nova forma.

Talvez ainda não tenhais reparado, mas eu já reparei. Têm feito fila desde o momento que chegaram. Agora, eles estão aqui ao meu lado, contando os dias até que o seu tempo chegue e tiverdes de os enfrentar. E assim decidi que lhes seria dada uma oportunidade de fazer exatamente isso, um a um, através de toda a eternidade.

Afinal, cada um deles ficou devastado por vossa causa: um pai que morreu da pandemia que fizeste menos do que nada para a evitar; um rapazinho baleado com uma arma que não proibisteis; um operário  que sucumbiu  aos  fumos tóxicos cuja libertação a vossa administração assegurou; os manifestantes mortos por um supremacista branco inflamado pela vossa retórica; um negro que expirou graças à violência policial que  recusais condenar; um migrante que sucumbiu ao calor do deserto do outro lado do muro para a construção do qual  roubastes o dinheiro dos contribuintes para (apenas parcialmente) o   fazer. E não esqueçamos que uma militante curda foi massacrada porque traístes  o seu povo.

Podia ir e voltar, nomeando os mortos injustamente, os mortos prematuros, os mortos evitáveis, agora todos amontoados à minha volta, de resto não representados e esquecidos, mas à espera da vossa chegada para o seu momento de verdade. Cada um deles terá de ser paciente, uma vez que, de acordo com o meu plano, cada uma das vossas baixas terá o tempo que desejar para reviver uma vida e voltar a rever os seus últimos momentos. Será forçado, Donald Trump, a ouvir as histórias deles uma e outra vez, até  finalmente aprenderdes a fazer da sua tristeza a vossa própria, até que as suas tragédias se alojem verdadeiramente nas entranhas da vossa mente, enquanto demorardes a pedir verdadeiramente o seu perdão.

Trump tenta encontrar uma maneira de sair do inferno

A vossa primeira reação será, sem dúvida, a de vos  entregardes à fantasia de que, tal como jurastes que a pandemia seria magicamente despachada, assim esta nova situação irá milagrosamente fundir-se no nada. Quando abrirdes os olhos, porém, e ainda vos encontrardes aqui, o vosso desejo será o de recorrerdes  a todos os vossos velhos truques, os do último e maior vigarista, para evitar afundar-vos mais profundamente no abismo moral que vos preparei.

Tal como subornastes, comprastes, e  te desenrascastes  de escândalos e falências, assim também ireis acreditar que conseguireis desenrascar-vos  deste momento. Ides tentar fingir que estais apenas a ser convidado para mais um programa de televisão, um show(ir)real  em que este Dante pode ser transformado noutro dos vossos aprendizes, competindo pela vossa generosidade e aprovação.

E quando nada disso funcionar, fareis  crer que expiastes, de facto, pelos teus terríveis feitos e caireis novamente nas mentiras e na bravata macho que foram a vossa segunda pele. Ides jurar que vos arrependestes para poderdes escapar a este confinamento, estes quartos onde vos tornastes a presa e não o predador. Ides apresentar-vos como um salvador, vangloriar-vos de terdes inventado sozinho uma vacina contra a responsabilidade, descoberto uma cura masculina para os terrores do Inferno. Sonhareis – eu sei que sonhareis – em reaparecer vitorioso e, claro, sem máscara naquela varanda da Casa Branca.

Desta vez, porém, simplesmente nada disto vai funcionar, não aqui, nesta morada transparente da morte. E, no entanto, tentareis certamente apressar o processo porque ficareis a saber — já decidi isso há muito tempo — que aqueles que haveis arruinado  enquanto ainda éreis vivo serão  apenas  o início da vossa viagem, não o fim. Ficareis demasiado consciente, enquanto passais horas, dias, anos, décadas com os homens, mulheres e crianças a quem submetestes  a uma morte  precoce e a uma mágoa permanente, que uma multidão de outros irá chegando, todos aqueles que perecerão no futuro devido às vossas negligência e maldade.

Eles irão, garanto-vos, entrar incessantemente na vossa  mente, juntando-se  através de muitos amanhãs, todos aqueles que ainda estão para morrer, mas que o farão precocemente  à medida que a brutalidade que adorais  e alimentastes  cobrar o seu preço, à medida que a terra, os céus, e as águas que devastastes  conhecerem vagas de  calor como  vingança – furacões e secas, fomes e inundações, cada vez mais vítimas a cada minuto que passa, incluindo as mulheres que irão morrer em abortos clandestinos por causa das vossas nomeações judiciais. As próximas décadas já estão a preparar-se para acolher as legiões dos vossos mortos.

Esse é o desespero que imagino para  vós agora que já não sou aquele homem amargamente exilado da sua amada Florença. Os séculos passados no além amoleceram-me evidentemente em compaixão por aqueles que pecaram. Beatriz, o amor da minha vida, teria admirado a minha transformação, aquela que, à medida que ficares deitado por terra te permitirá, também ser levantado até que realmente te arrependas, até que implores por uma absolvição, que (se fores verdadeiramente sincero) te será concedida.

Mesmo assim, mesmo quando falo e adivinho, dou por mim comido por um verme de dúvida. Isto, segundo me dizem, já foi tentado antes. As névoas do tempo estão cheias de homens que, como vós, pensavam que eram deuses e que, após a sua morte, foram levados a uivar por  salas que transbordaram com as vidas que eles tinham destruído, com os danos irreparáveis que causaram. E estes criminosos — Benito Mussolini, Mao Tsé Tung, Augusto Pinochet, Napoleão Bonaparte, Andrew Jackson, Saddam Hussein, Joseph Stalin, Idi Amin (oh, a lista é interminável!) — nunca deixaram o espelho deformado das suas próprias salas de penitência.

Ainda não saíram delas. É isso que está a ser sussurrado ao meu ouvido, que a profecia redentora de Dante Alighieri nunca se tornará realidade para vós, Donald Trump. Talvez, como os outros malditos malfeitores, vós recusareis  a responsabilidade do que foi feito. Talvez continueis a afirmar que sois a verdadeira vítima. Talvez vos reveleis tão incorrigível e defeituoso e teimosamente cego como eles continuam a ser. Talvez haja um mal em vós e no universo que nunca irá desaparecer  completamente, uma crueldade que não tem fim. Talvez quando a dor é infinita, seja impossível apagá-la.

Receio, então, que possa ser desumano prometer qualquer tipo de justiça quando não haverá nenhuma para aqueles que se encontram na fila esperando encontrar o seu atormentador do outro lado da morte. Porquê, pergunto a mim mesmo, ressuscitar os mortos se é apenas para frustrar as suas esperanças mais uma e outra vez?

O que significa a eternidade

E no entanto, que mais posso eu fazer senão completar a tarefa que me foi confiada? De todos os poetas, fui escolhido por causa da Divina Commedia que escrevi enquanto vivo  e banido de Florença, porque desci ao Inferno e subi ao monte do Purgatório e tive um vislumbre de como eram  o sol e as estrelas do Paraíso. Fui escolhido dos campos dos mortos para vos preparar estas palavras como um aviso ou um apelo ou uma acusação fulminante, uma tarefa que aceitei e à qual já não posso agora renunciar.

O que me resta, então, senão concluir estas palavras respondendo à única objeção que legitimamente podereis   levantar à minha visão do vosso destino na vida após a morte? Imagino que gritareis — “Mas Dante Alighieri”, dirás, “o futuro que pintou levará uma eternidade”.

E eu responderei: sim, Donald J. Trump, de facto demorará uma eternidade, mas para sempre é tudo o que tendes, que todos nós temos, afinal de contas.

 

Ariel Dorfman, a TomDispatch regular, is the author of Death and the Maiden. His most recent books are Cautivos, a novel about Cervantes in jail, and The Rabbits Rebellion, a story for adults and children. He lives with his wife Angélica in Chile and in Durham, North Carolina, where he is a Distinguished Emeritus Professor of Literature at Duke University.

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Copyright 2020 Ariel Dorfman

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Para ler este artigo no original clique em:

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