CARTA DE BRAGA – “Os nadas os filhos de nada, os donos de nada” por António Oliveira

Tirei este título de uma das muitas reflexões que nos deixou o jornalista e escritor uruguaio Eduardo Galeano, abalado há alguns mas poucos anos e que marcou de forma indelével a cultura ocidental, principalmente no continente americano.

E sirvo-me daquele título para transcrever uma notícia ouvida e lida na emissão e diário digital da ‘Cadena Ser’, nos passados dias 23 e 24 deste mês e terão de me desculpar a extensão da transcrição.

Uma pandemia no terceiro mundo, não tem nada a ver com o primeiro mundo. Dedico-me a resgatar crianças da morte, do horror, do inferno. Eu era uma pessoa normal. Fui a Salvador com muito dinheiro e falaram-me de meninos que esquartejavam para traficar com os órgãos.

Comprovei que era verdade e com um enorme perigo, descobri que a minha vida poderia ter sentido, salvando a vida desses meninos. Perguntei quanto custava e disseram-me que a vida de um ser humano custava 26 dólares. Fiz-me passar por um traficante de órgãos, meti um na camioneta e levei-o ao hospital.

O menino pensou que o ia matar, que íamos a um hospital para o matar. Quando o médico lhe pediu para tirar a camisa, começou a tremer. Aquele menino, que se chama Manuel, olhou para mim e vi o olhar de Deus. Naquele morro havia mais meninos para salvar’.

Esta declaração foi feita pelo padre Ignacio Maria Doñoro, num programa sobre os estragos que o Covid está a fazer na selva amazónica. É também o fundador do ‘Hogar Nazaret’, um projecto para ‘resgatar meninos’ do ‘inferno’ que ali vivem.

E o padre Doñoro, salientou ainda que um dia, às quatro da manhã, lhe deram uma sova tremenda, mas ‘tudo o que me ocorreu e nos ocorre, serve para nos tonarmos pessoas melhores e há casos de meninos desfigurados fisicamente, com feridas purulentas e mais, mas as feridas do coração não se podem curar’.

Mas há perguntas que não podem deixar de se fazer: ‘Porque se globalizam os mercados e as cadeias de abastecimento, mas não a livre circulação de pessoas, se globalizam as redes sociais, mas não salários e oportunidades?’ questões postas pelo ex-vice-presidente da Bolívia Álvaro García Linera, no diário ‘Nueva Tribuna’ já em 19 de Abril.

E conclui Linera ‘A globalização não é mais do que um alibi de uns quantos países e de umas quantas pessoas, para impor o seu domínio, o seu poder e a sua cultura, não uma verdadeira integração internacional dos êxitos humanos para benefício de todos’.

E de um outro sul americano, o ex-presidente uruguaio Pepe Mujica, ‘Haverá algum dia batalhões de médicos capazes de ir lutar pela vida em qualquer lugar, ou continuaremos a gastar três milhões de dólares por minuto em orçamentos militares? Só depende de nós!

E há milhões de nadas, filhos de nadas e donos de nada, espalhados por todo a parte!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

2 Comments

    1. Estamos todos a penar-lhe os efeitos. apesar das «inteligências brilhantes» que a comandam e que, quando este planeta falir já terão o futuro assegurado em qualquer parte!
      E não se importam com os nadas, os filhos de nada e os donos de nada! Só os incomodam!
      Um grande abraço
      A.O.

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