CARTA DE BRAGA – “de fuegos chicos” por António Oliveira

Cada persona brilla con luz propia entre todas las demás. No hay dos fuegos iguales. Hay fuegos grandes y fuegos chicos y fuegos de todos los colores

Eduardo Galeano

Lembrei-me deste aforismo de Galeano (teria feito 80 anos há um mês!) porque ‘los fuegos chicos’, podem ter uma luz mais brilhante que mil sóis.

O mundo de hoje, preocupado que está com a pressa de chegar a qualquer lado imposta por um link, um tweet, uma foto ou um spot publicitário, não quer saber das pequenas fogueiras emotivas que alguns ainda trazem, para nos recordar que é aqui, neste sítio, que vivemos.

Decidi nesta Carta contar algumas dessas estórias, alguns de ‘los fuegos chicos’ referidos por Galeano, colhidos em leituras avulsas diversas, sem outra intenção que não seja a de mostrar como andamos distraídos por aqui, sem nunca ler, cabeças-baixas agarrados a ecrãs móveis de visão e alcance diminutos, por muito perto que esteja o interlocutor.

Rezava a primeira dessas estórias, lida num só jornal por, aparentemente, mais ninguém lhe ter atribuído importância, que o cantor folk norte-americano David Olney, morreu aos 71 anos, vítima de um ataque cardíaco, quando actuava na Florida em Janeiro deste ano e, afirmou um dos músicos que o acompanhavam, pediu desculpa ao público antes de fechar os olhos.

Teria sido pela noção do lugar, do que fazia, ou de ter chegado a hora de partir?

Esta outra é de um velho actor que viveu sete anos na rua e li-a num jornal de Dezembro.

Conta aquele actor, agora ainda em horas baixas que, uma noite, entrou no desvão de uma caixa multibanco, mas já lá estava um outro deitado no chão. Perguntou-lhe se estava bem, se precisava de alguma coisa e se também se podia deitar ali ao lado.

Quando acordei já ele estava lá fora, deu-me os bons-dias e «ontem vi que tinhas passado um bom bocado a olhar as botas naquela montra. Quanto custam? 210 €, disse eu. Voltou a entrar, levantou o dinheiro na caixa do multibanco e deu-mo, dizendo que o fazia por ter sido eu a única pessoa que lhe tinha perguntado se estava bem». Ainda hoje não sei se era alguém que estava a experimentar a vida de um sem-abrigo, ou se era um lúcido excêntrico, mas foi o que me aconteceu!

Uma outra estória, tirada de um jornal mais antigo, conta de alguém que costumava dar um passeio num parque onde, quase sempre, encontrava um homem alcoolizado.

Na última vez que ali passou, viu-o sentado num banco, boca aberta e cabeça caída para trás. ‘«Morto?» Logo me perguntaram. Isso pensei eu, aproximei-me, toquei-lhe no ombro, ele olhou para mim e só me disse «Já não tenho pele!». Nunca mais esqueci esta frase e nem sei porquê! E o mesmo que me fez a pergunta, «Um homem a parecer morto no banco de um parque?» Sim, teria sido uma desgraça até para mim, mas… mas se aquilo fosse apenas… o máximo da liberdade para aquele homem?

Três estórias miúdas, três ‘fuegos chicos’, que deixam perguntas a que cada um poderá e, se calhar, deverá responder-se: quando alguém se encontra e está só, com que fica, além do próprio corpo e do tempo que até já parou para ele?

Mas, por outro lado, talvez possa ser também só mais uma estória, que poderá juntar a todas as outras, diferentes ou mais ou menos parecidas, que ainda poderá ouvir, nos não-lugares onde também poderá ir.

E até se poderá socorrer da linguagem comum para, com a estória, se aproximar do mundo, por lá poder encontrar também, alguém que lhe pergunte se está bem ou se precisa de alguma coisa.

Talvez seja bom terminar esta Carta com um outro aforismo do saudoso Eduardo Galeano, ‘Ojalá podamos tener el coraje de estar solos y la valentía de arriesgarnos a estar juntos’.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

2 Comments

  1. Agora que já tenho computador novo, virei visitar-te sempre que puder…Obrigada por estes três “fuegos chicos”.Banalidades? Não, às vezes, caneladas na alma…gOSTO DE TE LER….
    bEIJO! cl

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