FRATERNIZAR – JORNALISTAS E PRESBÍTEROS – PROFISSÃO-MISSÃO DE ALTO RISCO? – por MÁRIO DE OLIVEIRA

 

Sou jornalista desde Janeiro de 1975. Integro ainda na altura a equipa pastoral da Zona Ribeirinha do Porto. Não por nomeação do Bispo, mas a pedido dos próprios padres-párocos, quando, escandalizados, concluem que o Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, está determinado a não me atribuir mais nenhum ofício canónico, nem na diocese, nem fora dela. A minha segunda prisão política em Caxias, enquanto pároco de Macieira da Lixa, apesar de culminar, como a primeira, na minha absolvição pelo Tribunal Plenário do Porto, deixa-o ainda perplexo, mas irredutível na decisão já tomada antes por ele, Pároco nunca mais! E um qualquer outro ofício canónico também nunca mais! De perplexo, o bispo passa a nervoso, quando lhe vou comunicar que acabo de aceitar o convite do vespertino República para ser jornalista na respectiva Delegação do Porto. E não consegue esconder a causa do seu nervosismo, ‘Então tiro-lhe uma tribuna – o altar e o púlpito da paróquia – e o Pe. Mário tem agora uma outra ainda mais ampla?!’.

Sei, desde então, que ser Presbítero da Igreja de Jesus Nazaré é missão de alto risco, tanto dentro do sistema de poder do Estado, como dentro do Sistema eclesiástico, uma realidade não só distinta da Igreja de Jesus, mas nos antípodas da Igreja de Jesus. E hoje, já jornalista reformado, mas ainda graciosamente activo na direcção do Jornal Fraternizar online desde 2011, sei igualmente que a profissão-missão de jornalista é também missão de alto risco. Os factos, a nível nacional e internacional, estão aí a comprová-lo. Aliás, toda a profissão que é simultaneamente missão, é de alto risco. O Sistema de Poder não suporta ver postas a nu as permanentes encenações com que os seus sucessivos agentes históricos mascaram os seus crimes institucionais. E se há profissão com tudo de missão que pode e deve prestar aos povos das nações este precioso serviço – o de desconstruir as encenações do Poder – é a profissão de jornalista.

Se em plena pandemia Covid-19, tudo tem estado a rolar sobre rodas para o sistema de Poder dos múltiplos Estados do mundo, também para o Estado português, é porque não há jornalistas profissionais com espírito de missão. E pressinto que nunca mais haverá. Porque as actuais Escolas Superiores de Jornalismo já são criadas pelo sistema de Poder dos Estados e o sistema eclesiástico. Formam bons profissionais, até com família constituída e integrada na classe média, baixa ou alta, não formam jornalistas com espírito de missão. Tudo hoje está centrado na Administração de cada empresa que concentra sob o seu domínio vários dos principais títulos de referência no Mercado. A Direcção de cada um desses órgãos mais não é, hoje, do que correia de transmissão dos interesses de cada Administração. E os profissionais contratados sabem que, se pisarem o risco, são depressa dispensados, a menos que, advertidos, jurem fidelidade aos interesses do seu patrão.

Como Presbítero-Jornalista, a minha missão é ainda mais de altíssimo risco, mas numa escala tão diminuta, que o gigantesco sistema de Poder nem chega a dar por ela. Para cúmulo, institucionalmente já nem sequer existo. Desde o remoto dia em que o Bispo do Porto D. António Ferreira Gomes decide, autocraticamente, tratar-me como um não-existente. Sem que, por uma vez, ao menos, levasse essa sua autocrática decisão ao Tribunal Eclesiástico. Uma postura muitíssimo mais arrogante e autocrática do que a do Estado Novo e sua polícia política, a Pide/DGS que, por duas vezes, me levou a julgamento e eu pude provar, via advogado Dr. José da Silva, que o Sopro que me move é simplesmente, o da Verdade que, praticada, é inevitavelmente geradora de liberdade. Pelo que se algo está mal, não são os conteúdos da mensagem, nem a honestidade do respectivo mensageiro, mas o sistema de Poder que, através dos seus sucessivos agentes de turno, fabrica vítimas em massa, sem que as populações dêem por isso, graças às suas hábeis encenações, se fazem passar por realidade.

Neste início do terceiro milénio, as encenações são a realidade e a realidade são as encenações. O trágico em tudo isto é que as pessoas nascem, crescem, vivem e morrem sem chegarem a conhecer a realidade-verdade. Somos por isso um planeta edificado sobre a areia e à beira da sua implosão. E já nem chega a ser preciso matar os mensageiros. Basta impedir que eles entrem nos grandes santuários e grandes media do sistema de Poder. Como faz comigo o Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, e todos os bispos residenciais que lhe têm sucedido na cátedra do poder episcopal, para os quais eu já nem sequer existo. O que vale às vítimas e à Humanidade no seu todo é que a última palavra cabe a elas, não aos seus verdugos, quaisquer que sejam as vestes com que eles se apresentem aos povos das nações.

 

 

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