A GALIZA COMO TAREFA – sefirot – Ernesto V. Souza

Interpretar uma realidade, sempre aberta e inacabável, como um sistema não deixa de ser uma fantasia, uma necessidade de dar uma forma, um molde, uma estrutura que nos permita imaginar que abrangemos as cousas arredor, que as dominamos ou temos dentro de um curral ou num armazém repleto de diversas caixas bem ordenadas com as suas classificações, rótulos, etiquetas, códigos, índices, guias e bases de dados.

Não pouco peso nestas fantasias tem a ciência e a sua tradição classificatória e compilatória a partir do século XVIII. Mas enselar as sociedades humanas, a história, a política as relações de poder, é bem mais difícil que as cavalgar a passo, a andadura, a trote, a galope, com o cavalo próprio deixando-o ir parelho com os outros cavalos arredor.

A história, a política, a arqueologia, o direito galego, os projetos, sonhos e objetivos da natureza política da Galiza podem continuar imitando com variantes de sabor regional tudo quanto vem da modernidade por via académica, cultural e temática de Madrid? E podem continuar decepando e (auto)amputando-se todas as vias e esquemas que não passam por Madrid?

Sepher Yetzirah, (editio princeps) publicado por Ya’akov ben Naphtali Gazolo. Mântua, 1562, 4 ° (via Wiki)

Desenhar um sefirot para entendermos as combinações dos atributos da Galiza passa pelo o celtismo, o atlantismo, o reintegracionismo, a diáspora, a antiguidade do relacionamento dos habitantes com a Terra, entre eles e com os poderes políticos nos que se integra o conjunto.

Passa pela compreensão do Território, antigo, moderno e contemporâneo, pelas suas geografias e países, pela sua articulação, pelas suas estruturas populacionais, de poder, de comércio; passa por entender os nodos diversos e as hierarquias.

Passa por ver como se relacionam e interatuam com os Sistemas tradicionais de organização, poder e representação e como interatuam com as realidades políticas do Estado-nação moderno. Como o poder funciona com sequencias de tábuas redondas e primus inter pares (que por sua vez num sistema complexo de diagramas de venn inter-relacionam entre elas), geram as suas próprias tábuas arredor de um chefe.

E passa por situar nesse esquema de tábuas hierarquizadas e inter-relacionadas uma elite que estabeleceu por uma banda um pacto de representação e defesa com a gens e com o território concreto e por outra um pacto de classe e de interesse com outros membros dessa elite. Isto gera um jogo complexo de alianças, fidelidades, pactos, lealdades, legitimidades, narrativas justificativas e míticas e um imenso trabalho de diplomacia.

Passa também por entender como essas elites civis e religiosas, antes príncipes, depois condes e bispos, mais tarde vereadores, e deputados, com os seus agentes, esbirros, párocos, abades, e caciques chefe, com os seu pactos e repartos entre eles se relacionam e circulam (em representação dos seus interesses e dos dos territórios) nos diversos Reinos Peninsulares e Atlánticos, e depois no império e na Igreja Católica Romana (nas suas grandes políticas e geoestratégias internacionais) e nas políticas dos Poderes centrais modernos.

Portanto passa por entender os relacionamentos entre os equilíbrios internos, os interesses das famílias, dos grupos de poder, dos conjuntos e as soluções aos conflitos de interesses e representação entre a gens e o Reino, entre o território e o Império, entre a paróquia, os mosteiros, os bispados e as Sés. Combinados com os mais diversos conflitos de classe derivados da rotura e violentação dos pactos cara abaixo em favor dos pactos no mesmo nível e cara a níveis superiores da hierarquia.

E depois está a Terra, como espaço de habitação, distribuição e propriedade. Como se vai organizando e modificando no decurso do tempo em combinação com as demais peças. Os espaços definidos dos velhos reinos, das tribos, das comarcas especializadas na produção. Os espaços de relacionamento comercial, religioso, civil. As defesas e fortificações antigas. As internas, as defensivas territoriais, as de ocupação, e as de controlo feudal do território. As militares e as policiais modernas. Os mosteiros e as suas funções de vínculo com a nobreza. A propriedade coletiva e foros. As ocupações e os despejos. As prolongações cara o Leste e Sul em enormes latifundios de senhorio.

Tribos, clãs, reinos, confederações, alianças, a velha Província Romana, depois reino com Suevos, Império e Reino outra vez num império. Região, Provincias, sonho de estado na República e Autonomia. E a gente nessas divisões, nos seus relacionamentos e agrupamentos sociais. Internos, inter-grupos, cara arriba e com e contra os poderes. Com permanência esvaindo-se de clãs e tribos, paróquias, comarcas, dialetos. Com a existência em paralelo de uma moral, de uma filosofia de vida, do bem e do mal, de um jeito de enxergar o mundo e falar dele, uma prática divergente do direito civil, funcional e omnipresente, nos contos, nas lendas, nos ditos, sentências, advertências e nas quadras da memória coletiva, mas não compilada.

E quem sabe quantos grandes atributos perdemos que cumpria colocar no esquema. Arriba, abaixo, acarão, no passado, no presente e no porvir. Perceber tudo ao tempo é impossível. Mas podem-se ligar uns e outros nodos, a combinatória cabalística é talvez infinita, mas vão-se intuindo imagens ricas e diversas.

 

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