Fim do período natalício: o radicalismo esquecido de Jesus Cristo ou a farisaica União Europeia de hoje – “O radicalismo esquecido de Jesus Cristo”. Por Peter Wehner

A Nave dos Loucos, de Hieronymus Bosch

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

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Por lapso este texto não acompanhou o artigo de Júlio Mota, “O radicalismo esquecido de Jesus Cristo ou a farisaica União Europeia de hoje”, que publicámos no passado dia 8 de janeiro.

FT

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O radicalismo esquecido de Jesus Cristo

Os cristãos do primeiro século não estavam preparados para a figura verdadeiramente inclusiva que ele era, e o que era verdade na altura ainda é verdade hoje.

 

 Por Peter Wehner

Publicado por  em 24/12/2020 (The Forgotten Radicalism of Jesus Christ, original aqui)

Cristo e a mulher samaritana no poço, por Annibale Carracci, 1594-95. Credit, Bridgeman Images

 

“Habitua-te ao que é diferente”.

Essa frase vem de uma nova e maravilhosa série televisiva sobre a vida de Jesus, “Os Escolhidos“, na qual Jesus, interpretado por Jonathan Roumie, convida Mateus a tornar-se um dos seus discípulos. Simão Pedro, já discípulo, mostra a sua forte objeção. Mateus é um cobrador de impostos, que eram vistos como instrumento das autoridades romanas, muitas vezes desonestos e abusadores. Foram, portanto, tratados como traidores e marginalizados por outros judeus.

“Não percebo”, diz Simão Pedro a Jesus sobre a sua decisão de convidar Mateus, ao que Jesus responde: “Também não percebeste quando te escolhi”.

“Mas isto é diferente”, responde Simão Pedro. “Eu não sou um cobrador de impostos”. Nesse momento, Jesus fez saber a Simão Pedro que as coisas não vão ser exatamente o que os seus seguidores esperavam.

Os cristãos do primeiro século não estavam preparados para a figura verdadeiramente radical e radicalmente inclusiva que Jesus era, e os cristãos de hoje também não o estão. Nós bem queremos domesticar e meter numa fôrma aquilo que Jesus Cristo foi, mas a sua vida e ministério não o permitem. Ele quebrou barreiras atrás de barreiras.

Um exemplo é o encontro de Jesus, no quarto capítulo do evangelho de João, com a mulher samaritana no poço. Jesus e a mulher falaram sobre Jesus ser o Messias, porque é que ele até se dignou falar com ela, e sobre o passado e o presente da mulher de mau nome, que ela inicialmente procurou esconder de Jesus. (Nisto incluía-se os seus cinco anteriores maridos, segundo o relato de João, e o facto de “aquele que agora tem não ser o seu marido”). No entanto, nem uma palavra de condenação passou pelos lábios de Jesus; a mulher sentiu-se ouvida, compreendida, cuidada. Jesus tratou-a, nas palavras de um comentador, “com uma dignidade e um respeito de espantar”.

O encontro com Jesus transformou a sua vida; depois disso, a mulher no poço tornou-se “a primeira mulher pregadora da história cristã”, proclamando na sua comunidade que Jesus era o salvador do mundo, segundo o estudioso do Novo Testamento Kenneth Bailey.

Esta história é um exemplo marcante da rejeição de Jesus do pensamento religioso e cultural convencional – neste caso porque Jesus, um homem, estava a falar com seriedade com uma mulher num mundo em que as mulheres eram frequentemente rebaixadas e tratadas como cidadãs de segunda classe; e porque Jesus, um judeu, estava a falar com um samaritano, que eram desprezados pelos judeus por motivos que remontam a séculos. Segundo o professor Bailey, “a mulher samaritana e a sua comunidade são procuradas e bem-vindas por Jesus. No processo, antigas barreiras raciais, teológicas e históricas são quebradas. A sua mensagem e a sua comunidade é para todos”.

Isto aconteceu repetidas vezes com Jesus. Ele tocou em leprosos e curou uma mulher que tinha um fluxo constante de sangue menstrual, ambos considerados impuros; perdoou a uma mulher “que vivia uma vida pecaminosa” e disse-lhe para “ir em paz”, curou um paralítico e um cego, pessoas consideradas inúteis e sem valor. E quando Jesus estava a ser crucificado, disse ao ladrão penitente na cruz ao seu lado: “Hoje estarás comigo no paraíso”.

Jesus foi repetidamente criticado por andar com as pessoas erradas e recrutar os seus discípulos nos degraus inferiores da sociedade.

E a parábola de Jesus sobre o bom samaritano, uma história sobre um homem que ajuda um viajante ferido no caminho para Jericó, faz que o herói da história seja, não um padre influente, não uma pessoa de classe social ou privilégio, mas um estrangeiro odiado.

Para os cristãos, a encarnação é uma história de Deus, na pessoa de Jesus, que participa no drama humano. E nesse drama Jesus foi mais atraído pelos abandonados e desprezados, os marginalizados, aqueles que tinham tropeçado e caído.

Ele era amado por eles, mesmo sendo alvo e eventualmente morto pelos poderosos políticos e religiosos, que viam Jesus como uma grave ameaça ao seu domínio.

Ao longo da minha jornada de fé, tenho-me interrogado: Porque é que uma característica distintiva do ministério de Jesus era a intimidade e a inclusão dos indesejados e dos proscritos, homens e mulheres que viviam à margem da sociedade, mais suscetíveis de serem ignorados do que notados, mais suscetíveis de serem escarnecidos do que respeitados?

Parte da explicação tem certamente a ver com a crença na imagem de Deus, em que Jesus vê dignidade indelével e valor inestimável em cada pessoa, mesmo “na menor destas”. Se mais ninguém as estimasse, Jesus fá-lo-ia.

Entre as pessoas que melhor articularam esta ética estava Abraham Lincoln, que num discurso em Lewiston, Illinois, em 1858, no qual explicou o verdadeiro significado da Declaração da Independência, disse: “Nada que tenha a ver com a imagem e a semelhança Divina que foi enviado ao mundo para ser pisado, degradado, e embrutecido pelos seus semelhantes“.

Uma outra razão ainda para a ligação de Jesus com os párias, sem dúvida, teve a ver com a sua compaixão e empatia, o seu desejo de lhes aliviar a dor e de lhes dar ânimo para enfrentarem a pesada vergonha que acompanha quem é tomado como um pária social e um intocável.

Mas essa não é a única razão. Jesus modelou a inclusão e a solidariedade com os “impuros” e marginalizados não só pelo seu bem, mas também pelo bem dos poderosos e dos privilegiados e para o bem de todos.

Jesus deve ter compreendido que nós, seres humanos, debatemo-nos com a exclusão, o autoconvencimento e a arrogância, e temos um dedo rápido no gatilho quando se trata de julgar os outros. Jesus sabia quão facilmente podíamos cair na armadilha de transformar “o outro” – os de outras raças, etnias, classes, géneros e nações – em inimigos. Colocamos a lealdade à tribo acima da compaixão e das ligações humanas. Vemos as diferenças como sendo ameaças; o resultado é que nos tornamos isolados, rígidos no nosso pensamento, duros e impiedosos.

Jesus acreditava claramente que os excluídos tinham muito a ensinar aos privilegiados e aos poderosos, nomeadamente quanto às virtudes da humildade e ao vício da certeza suprema. Ao invés de ver Deus exclusivamente como um mestre da ordem moral, Jesus entendeu que os fracos e os sem-nada muitas vezes sentiam Deus de uma maneira diferente – como alguém que lhes fornece a graça, é uma fonte de conforto, um redentor. Eles veem o mundo, e Deus, através de um prisma diferente do dos poderosos e dos orgulhosos. Os humildes no mundo oferecem uma correção para os astigmatismos espirituais que se desenvolvem entre todas as outras pessoas.

É fácil para nós olharmos para 20 séculos atrás e ver como as autoridades religiosas eram demasiado severas e implacáveis na forma como tratavam os marginalizados do seu tempo.

A pergunta mais sensata que aqueles de nós que são cristãos poderiam fazer a si-mesmos não é porque é que somos muito mais humanos e esclarecidos do que então a generalidade de todos os outros; é antes perguntarmo-nos quem são os párias modernos e se os estamos ou não a maltratar.

Quem são os cobradores de impostos da nossa época, as pessoas que desprezamos mas que Jesus acolheria, aqueles contra os quais estamos determinados a construir um “muro de hostilidade”, para usar a imagem do Apóstolo Paulo?

A forma como os cristãos, incluindo eu, responderam à crise da SIDA nos anos 80 assombra-me“, disse-me recentemente o meu amigo de longa data Scott Dudley, pastor à frente da Igreja Presbiteriana de Bellevue em Bellevue, Wash. “Se nós, como os primeiros cristãos, nos tivéssemos preocupado primeiro e mais com as vítimas da ‘peste’ moderna, penso que estaríamos num diálogo totalmente diferente com a comunidade LGBTQ. Podemos ainda ter diferenças significativas de opinião. Contudo, acredito que o diálogo seria um diálogo de mais respeito mútuo, e penso que a comunidade LGBTQ sentiria menos medo das feridas que os cristãos podem infligir“.

Mas mesmo que a conversa não fosse diferente, como Scott sabe, cuidar primeiro e cuidar mais das vítimas de uma praga teria sido a coisa certa a fazer.

Nenhuma sociedade e nenhuma fé religiosa pode viver sem regras morais. Jesus não era um antinómico, não era alguém que acredita que os cristãos, porque são salvos pela graça, não estão vinculados às leis religiosas. Mas compreendeu que o que acaba por mudar a vida das pessoas são as relações em vez dos livros de regras, a misericórdia em vez das exigências morais.

Os ensinamentos de Jesus são tão estimulantes, tão distintos das reações e comportamentos humanos normais que, face a eles, temos de renovar constantemente o nosso empenho em os seguir. Cada geração de cristãos precisa de refletir sobre como o seu exemplo se aplica aos tempos em que vive. Precisamos que a nossa sensibilidade alinhe mais com a sua mensagem.

De outra forma, caminhamos à deriva para a autossatisfação e o legalismo, até ao ponto de corrompermos a própria instituição, a igreja, que foi criada para o adorar e amar os outros.

A lição da vida e ministério de Jesus é que compreender as histórias e as lutas das pessoas requer muito mais tempo e esforço do que condená-las, mas é muitíssimo mais gratificante. E a lição do Natal e da encarnação, pelo menos para aqueles de nós de fé cristã, é que todos já nos sentimos alguma vez marginalizados e quebrados, porém amados e merecedores de um abraço e da redenção.

Se Deus fez isso por nós, porque é que cada um de nós tem tanta dificuldade em fazê-lo pelos outros?

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O autor: Peter Wehner [1961 – ], é um escritor estado-unidense e antigo escritor de discursos para as administrações de três presidentes [republicanos] dos Estados Unidos. É vice-presidente e membro sénior do Centro de Ética e Políticas Públicas, um grupo de reflexão conservador, e membro do Fórum da Trindade, uma organização crista sem fins lucrativos. É um colaborador de opinião do New York Times, do The Atlantic e autor de “A Morte da Política: Como Curar a Nossa República Desgarrada Depois do Trump”.

 

 

 

 

 

 

 

 

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