Crónicas sobre o tempo que passa e que parece estar para ficar . Por Júlio Marques Mota

Pessoas usando máscaras fazem fila para votar nas eleições presidenciais portuguesas do lado de fora da Universidade em Lisboa neste domingo (17 janeiro 2021) — Foto: Patrícia de Melo Moreira/AFP

 

 Por Júlio Marques Mota

Coimbra, 20 de janeiro de 2021

 

Primeira Crónica. O voto antecipado de domingo.

Pela primeira vez na minha vida tinha decido não ir votar pela razão muito simples de que não entendi porque é que a Assembleia da República, a tempo, não modificava a Constituição de modo a permitir o seu adiamento. Sinceramente não entendi e tanto mais que, como é natural, esta pandemia estaria fora do horizonte temporal de todo e qualquer legislador da altura em que esta foi aprovada. O que o homem fez pode sempre desfazer e mesmo por respeito aquilo que fez, por respeito ao espírito da própria Constituição. Ter uma Assembleia incapaz de responder ao drama do tempo que passa em nome de um intervalo temporal, o dos prazos para as eleições, que quando criado nada teve a ver com uma situação excecional como a atual, escapa-me. Impor, subjetivamente a cada cidadão politicamente consciente, que “arrisque a vida” indo votar parece-me ser exigir demasiado para o que está em causa. Tanto mais que estamos em regime de confinamento cerrado e este nunca poderia ser desfeito por razões de ordem política mas sim por razões de ordem sanitária que, essas, tardam a serem vislumbradas no fim de um túnel que afinal nos parece demasiado longo para vislumbrarmos o seu fim. Não será agradável para muito pequeno comerciante, qualquer que seja o seu ramo, restaurantes, cafés, pastelarias, bares, ginásios, etc., etc., ir votar quando se é obrigado a ter a sua própria loja fechada para evitar a contaminação e quando se depara depois com as ruas cheias de gente. Um confronto nada agradável para quem estiver nessa situação e não creio mesmo que a Democracia ganhe alguma coisa com isso. O exemplo francês, em que cálculos oportunistas levaram a manter a data das eleições teve dois efeitos altamente incómodos: uma abstenção recorde e focos de infeção em larga escala. Macron adiou então a segunda volta, senão o desastre seria ainda muito maior

O chamado efeito de precaução levaria a que as autoridades tivessem muitíssimo cuidado com o processo eleitoral e tanto mais quando o processo impõe que se saia de casa, que se venha para a rua e o Primeiro-ministro diz, e muita com razão, que nos devemos manter em casa.

Face à minha angústia entre não ir votar, em nome da vida, da minha e da minha família, e estar assim a fazer o jogo de André Ventura ou ir votar para responder, numa posição à esquerda, ao desafio da extrema-direita que quer ter mais votos que toda a esquerda junta e arriscar todo o resto era uma opção nada fácil a escolher e qualquer que fosse a opção esta não era agradável.

Tenho 77  anos mais que feitos e não tinha o direito de arriscar a estabilidade da minha família por uma votação de que se sabe já quem muito provavelmente a ganhará. Neste contexto, objetivamente, acabei por decidir não ir votar. Ponto final da questão, sendo certo de que se tratou de uma decisão difícil.

Vários amigos meus com quem discuti esta decisão telefonaram-me informando-me de que poderia exercer o direito de voto antecipado. Bastava ir ao portal voto antecipado e inscrever-me.

Instalou-se-me a dúvida, ou votar ou não votar. Uma dúvida que gerava um profundo incómodo, incómodo este que se tornou quase insuportável quando ouço o André Ventura a dizer que queria ter mais votos que TODA a esquerda junta. Posta a questão nestes termos, não irmos votar, dois votos cá em casa, isto poderia significar o equivalente a estar a votar no André Ventura, tanto quanto ele pretende ter mais votos que TODA a esquerda junta. Não ir votar, à esquerda, era equivalente a estar a dar-lhe os vossos da minha casa. E isso nunca, nunca votámos na direita quanto mais na extrema-direita.

A sugestão dos meus amigos cativou-me. Fui ao portal e inscrevi-me. Mas o que li neste portal, li-o eu de forma apressada, é claro, caso contrário não me teria inscrito:

“A Lei Orgânica n.º 3/2020, de 11 de novembro estabelece um regime excecional e temporário de voto antecipado para os eleitores em confinamento obrigatório e a Lei Orgânica n.º 4/2020, de 11 de novembro, alterou as diversas Leis Eleitorais e alargou o voto antecipado em mobilidade a todos os municípios, pelo que, atualmente, o modo de exercício do direito de voto antecipado, em território nacional, abrange:

Doentes internados em estabelecimentos hospitalares

Presos não privados de direitos políticos

Em Mobilidade

Em confinamento obrigatório – COVID-19 

 

Assim:

Os eleitores que, no dia da eleição, se encontrem na situação das alíneas a) ou b) acima referidas, e mediante disponibilização do correspondente documento comprovativo do impedimento, podem requerer, na presente plataforma, ou por via postal, à administração eleitoral da Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna, até 4 de janeiro o exercício do direito de voto antecipado.

Relativamente ao Voto Antecipado em Mobilidade foi alargada a sua possibilidade, permitindo o seu exercício a todos os eleitores recenseados no território nacional no sétimo dia anterior ao das eleições (domingo), numa mesa de voto antecipado, a constituir em cada município, escolhida pelo eleitor:

Existirá uma mesa de voto antecipado em cada município do continente e das Regiões Autónomas”- O sublinhado é nosso.

A inscrição  terminava na quinta feira à meia noite. A partir daí o número de leitores por cada local de voto, único por concelho, era conhecido. Mas repare-se, o voto antecipado era estendido a todos os eleitores e para todos os eleitores havia apenas uma mesa por concelho. No limite isto poderia transformar esse dia 17 como o dia da eleição geral, com uma só urna por concelho, e o voto do dia 25 como o dia de votação para os retardados! 

Fechadas as inscrições, que poderiam ter fechado um dia antes, um cálculo simples, a partir de um só dado, de quantos minutos demora um leitor num método eleitoral como este a votar, implicaria uma necessidade de recursos humanos e físicos suficientes para que o processo eleitoral decorresse sem longas filas de espera em cada local de voto. Esse cálculo não foi feito e deveria tê-lo sido, mas nunca deixado ao sabor de cada Câmara Municipal: deveria haver um órgão centralizado que efetuasse estes cálculos e lhes desse seguimento em termos dos recursos humanos e de espaços físicos de forma a evitar os grandes ajuntamentos. Felizmente esteve bom tempo, senão teria sido seria um grande desastre eleitoral. O resultado esteve à vista. Um mau serviço prestado à Democracia mas por quem? Do meu ponto de vista só há um responsável: o Ministro da Administração Interna.

Face à longa fila de espera, virei-me para a minha filha e disse-lhe: “eu e a tua mãe vamo-nos embora. Nestas eleições, não ponho cá mais os pés. Vão gozar com quem quiserem. Se isto é assim, hoje, como será na próxima semana? “ A minha filha retorquiu-me que tinha ouvido falar em prioridades, dada a minha idade. Dirigi-me então a uma das muitas funcionárias e questionei-a sobre as prioridades. Perguntou-me a idade e face à resposta disse-me: o senhor é um eleitor com prioridade, eu acompanho-o. Sublinhei-lhe que a minha mulher estava na mesma situação. Retorqui-me: eu acompanho-o e volto a seguir para acompanhar a sua mulher que é noutra mesa. E assim aconteceu. E assim votámos. A terminar este ponto devo sublinhar o cuidado e o profissionalismo dos funcionários em serviço a que assisti no Pavilhão Mário Mexia em Coimbra. Tanta qualidade também não é habitual., acrescente-se.

Esta é uma história triste em que, em nome da democracia, se parece estar a brincar com ela e com os sentimentos dos eleitores, uma vez que estamos em confinamento cerrado e sabemos que o medo se está a apossar das pessoas e com razão. Aliás para termos uma ideia do ridículo disto basta dizer que para uma só junta de freguesia de Coimbra, Santo António dos Olivais, haverá no próximo domingo muitíssimas mais salas do que houve no dia 17 para todo o concelho e possivelmente mais do dobro das mesas que houve nas últimas eleições. Dir-me-ão que é uma questão de números, dir-me-ão que se aprendeu com o acontecido neste último domingo. É pobre como resposta, pois em pandemia este deveria ser um processo meticulosamente estudado e não tratado às três pancadas como parece ter sido feito pelo Ministério da Administração Interna. Parafraseando um pouco Christian Salmon – no livro Storytelling- quando se olha para o espetáculo fútil encenado no teatro de uma Democracia vilipendiada, na qual os políticos desejam ser “constantemente devorados pela sobreexposição da sua própria imagem, vê-se que é a representação e a manipulação permanente do real que são chamadas para simular – e substituir funcionalmente – uma democracia real que agora se está a degradar, a evaporar. Tenha-se consciência que é isso que as autoridades responsáveis estiverem a fazer com as múltiplas manifestações de alegria pela tristeza do espetáculo a que se assistiu. Do Ministro da Administração Interna nada me espanta desde um terrível incêndio na serra de Monchique, mais um a somar a muitos outros nesta região algarvia, em que a seguir foi visitar a extensa zona ardida para festejar o facto de não ter morrido ninguém (!), mas dos outros, sinceramente esperava mais, esperava uma análise crítica ao acontecido!

Faço votos de que os impactos deste desastre eleitoral possam ser nulos no próximo domingo. A democracia merece-o, mas merece igualmente que lavremos o nosso protesto pelo que aconteceu e, a partir daí mas sem o esquecer, deixemos de lado a incompetência de um ministro e da sua comissão eleitoral assim como a opinião de todos aqueles que consideram esse dia como um dia de vitória para a Democracia.

 

Segunda crónica. Sobre os comportamentos que seriam de esperar

Estamos a passar por um tempo difícil, um tempo que não quer passar, um tempo que quer ficar, que quer agravar todos os nossos tormentos, como uma maldição da natureza, a dizer-nos que o que estamos a viver é o resultado de múltiplas incapacidades, de muitas hesitações e de muitos egoísmos, naturalmente. Uma situação que expressa bem o quadro cultural e moral da nossa população e dos valores que a sociedade está a assumir como os seus: um egoísmo brutal, um desrespeito total pelo outro.

No plano político poderíamos estar a considerar que a responsabilidade é exclusivamente das pessoas mas direi que para mim não é bem assim. Quando se tomam decisões gerais sobre os comportamentos das pessoas, estamos em sociedade, não podemos ignorar como elas de facto se comportam, não podemos confundir o nosso desejo de comportamentos coletivos com o que objetivamente dessas pessoas se pode imediatamente esperar. Um erro fatal que está a custar centenas de vidas, simplesmente isso. Quando o PC e o Bloco de Esquerda e outros se distanciaram das propostas de confinamentos com o argumento de que o fundamental era consciencializar as pessoas, ignoraram, tal como o António Costa também o fez, o que não podiam, que a rapidez da difusão do vírus é bem superior à lentidão da nossa capacidade de interiorizar os riscos que resultam das nossas atitudes.

Ainda no plano político saliento o caso da greve de fome de um proprietário de restaurantes Gourmet, quando desde há muito se sabia que uma das grandes vias de contacto são exatamente as refeições em grupo. E este grevista da fome exigia ser recebido pelo Governo, não deixando de ter a visita de apoio dos líderes do CDS e do Chega, partidos que passam a vida a demolir o governo no que diz respeito à pandemia no sentido do significado da sua presença em sinal de apoio ao referido grevista.

Quanto aos comportamentos banais das populações em dificuldades dou 9 exemplos:

1º exemplo

Uma pessoa A está com Covid em confinamento. Vai ao supermercado (tipo Pingo Doce médio) fazer compras. Uma vizinha B passa à distância por ela no mesmo estabelecimento e vê-a. Imediatamente dirige-se a uma caixa que quer falar com o responsável da loja. Este vem e ela informa-o do sucedido. Este chama a Polícia. Aos microfones é dito que a pessoa com Covid no estabelecimento deve abandonar o espaço comercial. Curiosamente, não saiu uma pessoa, saíram 6 pessoas!. Inacreditável para ser real, mas foi assim. Que aconteceu depois? Não me contaram mas podemos sem nenhuma maldade pressupor que nada aconteceu a não ser mandar as pessoas para casa. Terá sido assim?

Esta história relata-se como tendo acontecido em vários locais mas no que me toca esta é-me relatada por uma médica que me diz ter presenciado a cena. Mas mesmo que imaginada traduz um facto bem conhecido: muitas pessoas atingidas por leves efeitos Covid simplesmente escondem o facto.  Os jornais americanos estão cheios de relatos de situações desse tipo, o que tem a ver com a ausência de mecanismos de proteção nos USA mas haverá por aqui muitas situações economicamente semelhantes sobre as quais haverá igualmente comportamentos individuais semelhantes.

Mas tendo como base múltiplos casos destes não deveria haver um controle sobre as pessoas colocadas em confinamento obrigatório? Ou deixamos às pessoas contaminadas o direito a não respeitarem as regras de saúde pública? Este problema não é só nosso. Um analista americano numa das suas crónicas sobre a pandemia, John Mauldin em Thoughts on the line, contava uma história curiosa: em Wuhan, houve confinados que simplesmente desapareceram de casa. A polícia foi à procura deles, apanhou-os e que fez a seguir? Fechou-os em casa e selou-lhes a porta de casa !!!! Como é que se alimentavam, nada nos dizia, mas isto mostra o desespero a que as autoridades chinesas de Wuhan terão chegado. Como se vê é um problema comum a todos os países e cabe a cada sistema social encontrar as respostas possíveis e adequadas quando as há. 

2º exemplo

Um curto diálogo num centro de saúde. No centro, não há à entrada nenhum aparelho de medição de temperatura. Chega um cidadão com consulta marcada e são-lhe feitas as perguntas habituais para detetar Covid. Pelas respostas nada a assinalar de especial. Dão-lhe ordem de entrada. Depois de entrar, a mesma funcionária, roída pela curiosidade, faz-lhe uma pergunta que deveria ter feito antes e que aparentemente era dispensável uma vez que o cidadão tinha consulta marcada: mas vem aqui porquê? Pânico geral: tinha todos os sintomas de Covid: dores de costa, de cabeça, tosse! Instalou-se o pânico geral. A pessoa que me contou isto e que estava a acompanhar a filha, de sete anos, fugiu, fugiu como todos os outros. A funcionária mandou-o sair e se tinha carro que se metesse no carro e esperasse até que o pessoal se equipasse.

3º exemplo

Num outro centro de saúde um doente tem consulta marcada. Fazem-lhe o mesmo tipo de perguntas e as respostas levam a concluir que não tem nada de Covid. Entra no consultório médico e afinal era Covid 19 e não era a brincar. Foi tudo isolado e a médica de serviço estive 15 dias em confinamento. Mas casos destes conheço vários e dou razão a um amigo meu, distinto médico em Coimbra, que só recebia os doentes munidos de um teste rápido feito no dia ou na tarde do dia anterior.

4º. exemplo

Equipas ao serviço da Comissão Eleitoral deslocam-se a casa de doentes em confinamento para recolherem o seu voto. Surpresa. Há vários que não estavam em casa. Talvez estivessem num supermercado a fazer compras, deixem-me fazer alguma ironia.

5º exemplo

Verificou-se há dias um exame na Faculdade de Medicina em condições inacreditáveis quando se está em pandemia, e mais grave ainda quando isto acontece numa Faculdade de Medicina. Penaliza-se o pasteleiro se vende uma nata ao postigo, penaliza-se o café se serve um café ao postigo, mas que penalização suportou o reitor ou o diretor da faculdade? Mas esta pergunta faz-me colocar uma outra: que aconteceu, em termos de penalização, aos organizadores das festas coletivas de Odiáxere, de Carcavelos e outras, feitas em período de confinamento? Possivelmente nada mas se não é assim, porque é que nada é dito em contrário?

6º exemplo

Festas de Ano Novo – Era proibido circular entre as onze da noite e as cinco da manhã de 31 de Dezembro para 1 de janeiro. Que fizeram as pessoas? Organizaram festas entre amigos em ambientes fechados e privados que se iniciavam bem antes das onze da noite e iam bem para lá das cinco da manhã. Os resultados estão agora à vista. E estas festas em ambientes privados fechados não eram organizadas por gente sem formação, não, eram organizadas por gente bem formada, gente diplomada possivelmente em muita coisa mas em muito pouco no que se refere a cidadania, gente geralmente de classe média ou acima. Os outros não têm meios materiais para isso.

7º exemplo

Um paciente vai a uma escola superior dentária. É recebido pelo professor e por três estudantes graduados, com os alunos a estarem completamente equipados com duas máscaras ou máscara e viseira. O professor, com ar de enfado, apenas ar de … (?), apenas dispõe apenas de uma máscara KN95 e mal posta. O doente, é um doente asmático, sentiu-se sucessivamente incomodado ao receber sucessivamente na cara o bafo do referido professor e pela primeira vez nesta maldita pandemia sentiu-se em grande risco. Lamentável, muito lamentável.

8º exemplo

Numa das mais prestigiadas escolas para a infância de Coimbra, à hora da refeição os seus funcionários almoçam todos juntos e juntos preenchem o resto do tempo de almoço no recreio a conversarem. Humanamente normal e perigosamente anormal em tempo de pandemia. Ninguém é responsável nem a direção que possivelmente dirá, se interrogada, que não sabia. Pode ser mesmo verdade mas se não sabe deveria saber.

9º exemplo

Estou a falar do meu país mas pelo que vejo na imprensa devo estar a falar de alguma região de Marte, porque o que me dizem é que a população tem tido um comportamento exemplar. Anedótico, face à realidade que temos pela frente.

Com as pessoas a comportarem-se desta maneira há muitas responsabilidades que se devem não ao governo mas sim aos comportamentos individuais, simplesmente a estes, mas uma coisa é certa, as autoridades não podem ignorar como é que as pessoas funcionam e têm a obrigação de criar mecanismos que procurem minimizar os efeitos destes comportamentos, impondo e aplicando penalizações, quando caso disso, devido à obrigatoriedade do respeito pelas normas impostas, o que, sinceramente não temos visto.

 

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