CARTA DE BRAGA – “do futuro e da felicidade” por António Oliveira

O meu amigo João está cansado da vida, ‘Estou farto disto, o futuro já acabou, aquele futuro que sonhávamos quando entrámos no liceu ou para a universidade e depois para a «chamada» democracia, tudo entradas na esperança de um futuro melhor bem diferente do que tiveram os nossos «velhotes», mas acabaram por nos matar esse futuro!

Pediu mais um café ‘isto não me vai fazer bem, mas não me importa!’ e continuou depois de o questionar sobre a dimensão do seu cansaço.

– Cansei-me de ver este mundo de cócoras perante um bicho mal feito que ele próprio criou, do caos e das continuas crises económicas que nos caíram em cima, da morte do clima, dos muitos milhões em pobreza extrema, da fome que já sofrem e aumentará, de saber a água já com cotação na bolsa, do desaparecimento das espécies e das florestas, de ver idiotas à frente ou a preparar a entrada no «negócio».

– Mas…

– Espera aí que ainda não acabei! Já se está a sentir a diminuição do emprego por uma economia digitalizada, robotizada e automatizada, a riqueza a aumentar nos que já a possuíam, a saúde quase toda privatizada, tal como as farmacêuticas e a banca, os senhores disto tudo a pedirem o corte das pensões ou a dar uns míseros 10€ de aumento para as mais baixas e aquele tipo da TAP vai ganhar uns largos milhares por mês’.

– Mas…

– Espera só mais um pouco! Temos a vigilância a aumentar em todo o mundo, mesmo através das redes chamadas sociais, onde se inventa uma «realidade» absolutamente virtual e, por tudo isto, estou cansado de um futuro que não haverá e de um passado que também não vai voltar, porque o estão a «matar» lenta e dolorosamente, em todos os programas de ensino e, um dia destes, nem vai haver ninguém a conseguir falar dele!

-Mas…

-Ainda mais um poucochinho! E por cá temos uma multidão descontente, a mesma que votou num aldrabão encartado, só por viverem mal, mas olharem em volta e verem como ninguém cumpre preceitos e obrigações, como até ele anda por aí «à Lagardère», sem sequer se importar com a ideia de Estado’.

O João atirou umas moedas para cima da mesa e ‘Até amanhã ou depois e, se sobrar algum, que não creio, fica para a quantidade de cafés que já me pagaste!

Sei que já andou muitos caminhos, noutras latitudes, conheceu e viveu entre outros povos e terá falado com muita gente diferente nos costumes, tradições e no rasto cultural, vive numa casa minúscula entre livros e muita música que partilha com a companheira que nem gosta de sair, por a máscara a incomodar, a não ser nas idas ao ‘lugar’ lá do bairro, onde compra tudo para os dois.

Não há muito tempo e citando alguém, garantiu-me que ‘A pobreza, ou melhor dito, a existência de um único pobre, mostra o fracasso do sistema que nos governa, não só a nós, mas a todo o planeta. Sabes, garantir a dignidade de alguém, não põe de lado os investimentos e o crescimento económico, mas exige que se pratique a mais importante das virtudes sociais – a solidariedade’.

Recorrendo aos meus apontamentos, fui ter a uma entrevista com o ecologista e filósofo Javier Romero, ‘É curioso ver como no Ocidente se passou de uma visão do homem como um ser etéreo, angelical, espiritual e filho de Deus, para uma visão de homem moderno ao serviço dos seus próprios interesses, mas só os materiais e que, despois de «matar Deus» lhe ocupou o trono, como num acto de vingança’.

E um quase ignorado escritor e desenhador de jardins, Umberto Pasti, também afirma numa entrevista, ‘Se continuarmos a chamar progresso ao dinheiro fácil, se o poder não aprende a amar e respeitar a terra, se a lógica da ganância e da exploração do homem pelo homem, não for substituída pelo amor, ajuda e solidariedade, a esta pandemia outras muito piores se seguirão

E, num órgão de comunicação quase generalista, deparei-me com estes títulos ‘Se calhar dentro de uns anos não terás trabalho, porque o teu chefe já viu a tua informação genética’ logo seguido de ‘Perder o trabalho, resolver crimes ou juntar casais, os «perigos» e virtudes da informação genética’ para depois nos colocar uma outra questão ‘Estaremos preparados para saber tudo sobre o ser humano?

Não tenho respostas, nem tenho quaisquer conhecimentos para as poder reclamar, mas nunca esqueço um aforismo antigo, de já nem sei quem, ‘Felicidade é ter um projecto de vida coerente e realista, com quatro grandes recados lá dentro – amor, trabalho, cultura e amizade’.

Será que o meu amigo João terá razão para o seu cansaço?

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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