A GALIZA COMO TAREFA – over the top -Ernesto V. Souza

Nem por assomo enxergamos o fim desta loucura. Um ano andado nestas, e talvez a enfermidade assusta menos que a desmoralização social, o futuro e a evidencia de desconcerto e incapacidade, não apenas dos governos, quanto do modelo de sociedade em que andamos submersos. Sem qualquer solução a uma crise sanitária, ou primeiras fases de uma crise múltipla, talvez assistido ao declínio do predomínio de Ocidente, que se estudará no futuro.

E cá estamos, e imos tirando, com a proteção de umas máscaras, produtos higieneizantes e ordens contraditórias. Prova e erro. Se não é boi, será vaca. Os mortos, pinga a pinga, ao longe ou perto, partes de enfermos, arriba, arriba e por vezes abaixo. Baixas assumíveis parece.

A medicina, as vacinas, um produto em venda ao que mais pagar. Quem podia imaginar. Comerciar com a saúde renda. As oligarquias dissimulam, o capital vende caras as vacas fracas. A bolsa sobe, a vida continua. Discursos, gráficas, palavras, gestos e por entanto tecnologia, tele-trabalho, supressão de espaços e revolução calada, mas imparável.

Ruína para o pequeno comércio e os autónomos para o tacho. Miséria para as classes menos favorecidas. Preocupação nos proprietários e rendistas. Os ricos mais ricos e os pobres mais pobres. A classe media, barreira e ponte, esvaece no ar. Agitação nos inversores e empresários. Ascenso da ultra direita. Um medo surdo impregna o ar, com essas  melodias conhecidas de fascismos que se pensavam superados.

Troops “going over the top” at the start of the Battle of the Somme in 1916. (Wiki)

Das cousas que mais me impressionou sempre foi ler nas narrativas e ensaios, ver nos filmes e velhas fotografias, conhecer nas testemunhas depois o absurdo massacre das trincheiras na Grande Guerra. Nunca entendi como era possível que acontecesse, uma e outra vez, depois da primeira vez e durante semanas, meses, anos.

“Over de top”, as tropas sem cobertura nem parapeto, a campo aberto na “terra de ninguém”. Repetindo uma mesma pantomina trágica, a correr, entre obstáculos e restos de arame farpado, direitos contra um muro de balas e artilharia, sem que ninguém, nos châteaux questionar a táctica.

Mas já vou entendendo. Imos safando porque em todas partes há algum profissional e gente que choia firme, bolseiros/as e pessoal que passava por aí que toma as cousas a sério.

É de imaginar que chegados lá, pode que em cem mais anos, as historiadoras saibam lhes explicar como caímos em tanto desconcerto, como não soubemos prever isto tudo, as políticas sociais, a sanidade, a economia, as barreiras e a contenção. Como não soubemos ver e agir a tempo, e em cada momento, com tudo quanto havia arredor, com todas as experiências e as ferramentas tecnológicas como nunca houvera? Como foi que os estados, as potências, os governos, as sociedades internacionais fracassaram? Como a humanidade fracassou? Como fracassamos mais uma vez? Como repetimos, olhando em desespero por instruções, para as luzes de festa nos châteaux?

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