Nem por assomo enxergamos o fim desta loucura. Um ano andado nestas, e talvez a enfermidade assusta menos que a desmoralização social, o futuro e a evidencia de desconcerto e incapacidade, não apenas dos governos, quanto do modelo de sociedade em que andamos submersos. Sem qualquer solução a uma crise sanitária, ou primeiras fases de uma crise múltipla, talvez assistido ao declínio do predomínio de Ocidente, que se estudará no futuro.
E cá estamos, e imos tirando, com a proteção de umas máscaras, produtos higieneizantes e ordens contraditórias. Prova e erro. Se não é boi, será vaca. Os mortos, pinga a pinga, ao longe ou perto, partes de enfermos, arriba, arriba e por vezes abaixo. Baixas assumíveis parece.
A medicina, as vacinas, um produto em venda ao que mais pagar. Quem podia imaginar. Comerciar com a saúde renda. As oligarquias dissimulam, o capital vende caras as vacas fracas. A bolsa sobe, a vida continua. Discursos, gráficas, palavras, gestos e por entanto tecnologia, tele-trabalho, supressão de espaços e revolução calada, mas imparável.
Ruína para o pequeno comércio e os autónomos para o tacho. Miséria para as classes menos favorecidas. Preocupação nos proprietários e rendistas. Os ricos mais ricos e os pobres mais pobres. A classe media, barreira e ponte, esvaece no ar. Agitação nos inversores e empresários. Ascenso da ultra direita. Um medo surdo impregna o ar, com essas melodias conhecidas de fascismos que se pensavam superados.

Das cousas que mais me impressionou sempre foi ler nas narrativas e ensaios, ver nos filmes e velhas fotografias, conhecer nas testemunhas depois o absurdo massacre das trincheiras na Grande Guerra. Nunca entendi como era possível que acontecesse, uma e outra vez, depois da primeira vez e durante semanas, meses, anos.
“Over de top”, as tropas sem cobertura nem parapeto, a campo aberto na “terra de ninguém”. Repetindo uma mesma pantomina trágica, a correr, entre obstáculos e restos de arame farpado, direitos contra um muro de balas e artilharia, sem que ninguém, nos châteaux questionar a táctica.
Mas já vou entendendo. Imos safando porque em todas partes há algum profissional e gente que choia firme, bolseiros/as e pessoal que passava por aí que toma as cousas a sério.
É de imaginar que chegados lá, pode que em cem mais anos, as historiadoras saibam lhes explicar como caímos em tanto desconcerto, como não soubemos prever isto tudo, as políticas sociais, a sanidade, a economia, as barreiras e a contenção. Como não soubemos ver e agir a tempo, e em cada momento, com tudo quanto havia arredor, com todas as experiências e as ferramentas tecnológicas como nunca houvera? Como foi que os estados, as potências, os governos, as sociedades internacionais fracassaram? Como a humanidade fracassou? Como fracassamos mais uma vez? Como repetimos, olhando em desespero por instruções, para as luzes de festa nos châteaux?
