A vida do homem é uma viagem, uma andança contínua entre aquilo que é e o que quer ou poderá vir a ser.
Esta andança pode mostrar, mostra mesmo, a progressão toda que faz como pessoa, o percurso que vai percorrendo sem nunca atingir a plenitude do momento, ou da situação sonhados, mas sim a dimensão do seu desenvolvimento pessoal.
De qualquer maneira, seguindo Erich Fromm, ‘O homem vive hoje dependente da ilusão de saber o que quer, mas na verdade, deseja apenas o que, socialmente, deve desejar’.
Mas a progressão foi feita através da linguagem onde o homem cria as imagens, as que que adquire através dos sentidos e das outras que lhe são propostas também pela imagem, pela oralidade, pela escrita ou, por um outro mundo aparte, o da poesia.
Talvez seja bom usar agora a imagem metafórica do enorme poeta que foi Mário Quintana, ‘O poeta-grilo insiste em transmitir, de seu esconderijo secreto, uma mensagem poética e misteriosa que se torna um traço distintivo, modernidade’.
E as mensagens de todos os ‘poetas-grilo’, dão origem a pensamentos e palavras que vão servir para criar outras e novas imagens na mente de muitas mais pessoas, pois a linguagem veste ou disfarça o pensamento.
Por isso a importância do poeta, pois as suas mensagens tomam sempre a rota das estrelas como o gri-gri do grilo, mas também haverá sempre neste mundo, quem saiba o modo de as apanhar, por ter aprendido como lhes interpretar o significado e o sentido, fazendo delas ícones e lemas para a humanidade.
Porque esse é, sempre foi, o objectivo da poesia – alcançar o maior espaço possível, tanto mental como psicológico, por serem esses os lugares da escrita e do poeta.
E Octávio Paz no ‘O Arco e a lira’, explica bem este objectivo, ‘A poesia vive nas camadas mais profundas do ser, ao passo que as ideologias e tudo o que chamamos de ideias e opiniões, constituem os extractos mais superficiais da consciência’.
E aquelas camadas profundas são também o local do amor, como entende escreve Walter Riso, especialista em terapia cognitiva e com cátedra em bioética, ‘O amor a alguém não é para sempre, por não se determinar amar, respeitar sim, por ser um sentimento inesperado. Não se pode decidir!’
Talvez esta afirmação possa servir a muita gente e para analisar muitas situações, por nos sobejarem resmas de opiniões e haver tão pouca consciência ética e poética.
Como nos sobejam os ‘manhas’ de todas as manhãs, mais o seu lixo e respectivos corifeus e serem tão raros os amores, como se afirma no ‘Xilre’ do passado dia 23 de Dezembro, ‘Há amores que se aparentam a civilizações: nascem logo com pilares e eternidade neles’.
E só por isso, não posso terminar sem evocar o poeta surrealista Robert Desnos, que conviveu e foi amigo de, entre outros artistas e escritores, Picasso, Artaud, John dos Passos e Hemingway. Foi também membro da Resistência francesa, até a Gestapo o prender em 1944.
Morreu de tifo no campo de concentração de Terezin, já o campo libertado, mas depois de ter penado uma longa e desumana peregrinação por outros campos.
Entre os seus restos, encontraram o último poema, sem uma única referência ao inferno nazi, apenas uns poucos e belos versos de amor, para a esposa:
‘Último poema’
‘Sonhei tanto contigo,
Andei tanto, falei tanto,
Amei tanto a tua sombra,
Que nada mais me resta de ti.
Resta-me ser a sombra entre as sombras
Ser cem vezes mais sombra que a sombra
Ser a sombra que virá e voltará
à tua vida ensolarada’
De lá, das camadas mais profundas do ser!
Mas, nas andanças da vida, também há coisas que não têm opções!
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor


