FRATERNIZAR – Com a pandemia a abrandar – DESCONFINAR, E DEPOIS? – por MÁRIO DE OLIVEIRA

 

 

São muitas as vozes que hoje dizem, Nunca mais voltamos a ser o que éramos antes da Covid-19. É bonito e dá gosto ouvir. Só que estas vozes deviam também dizer, e não dizem, que o coronavírus veio para ficar. Na melhor das hipóteses, controlado pelas vacinas, mas sempre presente e em constante mutação. E quando nos dizem que nunca mais voltamos a ser o que éramos antes, tão pouco nos dizem se saímos desta Pandemia mais humanos e mais peritos na Arte de Cuidar de nós, uns dos outros e do cosmos, ou se, pelo contrário, saímos das nossas casas mentalmente mais blindados do que nunca em relação aos outros, assim a modo de multidões com tudo de rebanho, muito juntos, porventura até aos encontrões, mas cada um por si. Em que o medo do outro é ainda mais presente do que antes. Se assim for, vamos voltar a ver-nos de novo juntos, mas cada uma, cada um muito mais só e ainda muito mais desamparado do que antes.

E porque, neste prolongadíssimo Estado de Emergência – o que era excepção, ‘virou’ regra – os espaços culturais e as livrarias, os restaurantes e os bares foram obrigados a manter-se fechados, sob pena de pesadíssimas multas aos infractores, as populações viram-se privadas do Pão e do Vinho outros absolutamente essenciais para sermos e crescermos de dentro para fora fiéis à nossa matriz original de nascidos de mulher. Porque nem só do pão e do vinho do Mercado as populações vivem, ainda que o Poder nos queira convencer de que sim e, por isso, manteve abertos e acessíveis todos os supermercados do país. Ao privar-nos das Comidas-Comensalidade, servidos com Poemas e a culminar em Danças eucarísticas à Vida que nos fez acontecer na História, o Poder mostra bem quanto é inimigo do Humano. E o que mais teme é ver-nos crescer de dentro para fora em liberdade, em autonomia e em responsabilidade.

Com os espaços culturais e as livrarias, os bares e os restaurantes, compulsivamente fechados, definhamos por falta desta Comida outra que só a Convivencialidade que neles se respira nos garante. Ao acatarmos em bloco tão autocrática decisão do Poder político, ficou bem a nu que continuamos ainda a anos-luz de sermos sujeitos dos nossos próprios destinos, dos destinos uns dos outros e do cosmos. E ao impor o encerramento desses espaços, o Poder mostra bem que só lhe interessa ter súbditos votantes em eleições por ele super-controladas e em Partidos políticos por ele reconhecidos e com cada um a puxar para o seu lado contra os demais. De modo algum, lhe interessa ter cidadãos de corpo inteiro, por isso, políticos praticantes maieuticamente religados às populações.

Desconfinamos, e depois? Esta é a grande questão que ninguém ousa formular, muito menos quer ver respondida. Porque se o Poder, durante o prolongado confinamento, nos privou do Pão e do Vinho outros, bem podemos dizer sem medo de errar que vamos sair desta Pandemia mentalmente muito mais enfraquecidos, por isso, muito mais à mercê das minorias chico-espertas e bem falantes. Culturalmente subnutridos, com as mãos e os pés mais entorpecidos, a respiração muito mais alterada, sem sabores e sem olfacto por isso, multidões ainda mais à deriva do que antes da Pandemia. E consequentemente mais à mercê de mercenários que se nos apresentem vestidos de cordeiro, quando, por dentro, são lobos rapaces.

Todavia, nem tudo é assim tão negativo. Porque com os espaços culturais e as livrarias, os restaurantes e os bares de novo a funcionar em pleno, vai-nos ser possível regressar depressa a Convivencialidade e, com ela, voltar a saborear o Pão e o Vinho outros que o Grande Mercado desconhece, mas que os povos com fome e sede de Beleza, de Dança, de Livros lidos e escutados em outras tantas Oficinas de Leitura-Escuta, e de Comidas-Comensalidade em redor de Mesas comuns nunca mais dispensarão, confinados que, porventura, voltem a ter de estar. E, assim, depressa nos ergueremos novos deste desastre e bem mais avisados em relação ao Poder.

Por isso, o Poder e seus agentes de turno que se cuidem, porque podem enganar-nos uma vez, não podem enganar-nos sempre. Confesso que, para mim, esta nova consciência dos povos pós-confinamento compulsivo, é o pilar de uma grande e fundada esperança e causa de grande e fecunda alegria. Assim todas, todos ousemos praticar esta via da resistência política activa ao Poder, nos três poderes.

 

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