CARTA DE BRAGA – “chegar ao futuro” por António Oliveira

Alguém disse e muito bem, mesmo sem me lembrar quem foi, ‘Aquilo que conseguimos, ao alcançar os nossos objectivos, não é tão importante como aquilo em que nos tornámos, ao alcançá-los’.

A verdade é que, qualquer percurso andado (e) ou vivido, nas voltas da vida, pressupõe sempre um investimento, quase sempre desigual, das nossas capacidades físicas, mentais e éticas, se nos assumirmos verdadeiramente como pertença do universo, onde só essas capacidades serão consideradas e poderão ter algum aproveitamento.

Aliás, esta ligação é perfeitamente descrita por Iván Agulló, doutor em Física, mas especializado em cosmologia, ‘Perguntarmo-nos pelo universo desde que somos humanos. O morfema grego para «homem» é «anthropos» que, literalmente, quer dizer «o que olha para cima», para vermos manifestações divinas: o deus da terra recostado, como nos gregos, ou tartarugas em cima de elefantes, como nos hinduístas’.

De qualquer maneira, o que estará sempre em questão, são as nossas projecções e as nossas expectativas para o futuro, como diz em ‘O futuro e seus inimigos’ o sociólogo Daniel Innerarity, ‘A transformação que as sociedades democráticas necessitam, virá da abertura a considerar o futuro como um interessante espaço de acção, se aprendermos a libertar-nos da tirania do curto prazo’.

Aliás, vivemos já num mundo governado pela economia da atenção (distracções, sugestões, diversões, interrupções contínuas, um autêntico bombardeio de informação), tudo a constituir uma sobrecarga cognitiva, que esgota a mente e nos consome, tanto mais que a maioria é constituída por sons, mostras e exibições electrónicas.

Constatações que levaram George Steiner a afirmar em ‘No castelo do barba azul’, por cá publicado já em 1992, ‘Com a facilidade da exibição electrónica, grande parte da leitura e da música, passa a ser algo de puramente exterior e, o texto ou a obra de arte, correm o perigo de perderem a massa crítica, os poderes implosivos nas câmaras de eco do indivíduo singular’. 

É o caminho para o fim da crítica individual ou colectiva da mensagem, por ela se ter transformado em dogma, graças ao mensageiro e aos seus algoritmos, todos aptos para enfraquecer, até mesmo arruinar, qualquer discurso democrático. 

Convém não esquecer que o ‘mensageiro’, aquela entidade por onde passa mais de 90% das mensagens das redes, é constituído pelas grandes empresas das tecnologias, Google, Facebook, WhatsApp, Instagram, Microsoft, YouTube, Twitter e Amazon, mais algumas outras, todas já favorecidas por enormes privilégios. 

Mas não o fazem por serviço ou ideologia, fazem-no apenas pelo capital, seja qual for a moeda, usando sistemas automáticos, baseados na inteligência artificial que, no instante, sabem o autor e o destinatário da mensagem para, na primeira oportunidade, os fazerem alvo de mensagens ligadas às preferências de cada um, também logo identificadas. 

E a actual pandemia, mais restrições e confinamentos, leva-as a ampliar o número de ocupações e tarefas a exigir meios digitais que, obviamente, carrearem a todas elas, um aumento brutal dos seus lucros. 

É do conhecimento geral que estas multinacionais, também jogam com a engenharia fiscal, a que lhes permite simular a compra/venda de patentes e direitos, nos países com tributação societária mais baixa, como as Bermudas e as Ilhas Virgens, Irlanda, Holanda ou Luxemburgo e muitos mais (não sou capaz de os referenciar na totalidade), onde basta apenas alugar uma sala, para meter uma secretária e um computador.

Mas, passando sobre tudo isto, é do conhecimento geral que, além de alargar os níveis de desigualdade sectorial na sociedade, também se reduzem enormemente as receitas fiscais dos países, podendo arrastar o resto da população para uma situação e um sentimento de prejuízo continuado, que até podem servir de incentivo para a pequena fraude, como vemos, ouvimos e lemos todos os dias, nas páginas sociais (!?!) da maioria dos órgãos de comunicação.

Já em 1975, no texto ‘Vigiar e Punir’, Michel Foucault apresenta um caso semelhante, passado no séc. XVIII numa cidade francesa, para demonstrar como um período deste tipo, pode servir perfeitamente para pôr em prática e instalar definitivamente, um poder disciplinador e ‘biopolítico’. 

E salienta este palavrão, por só querer dizer que o proprietário dos meios de produção, terá também ‘o poder de administrar os corpos’ (por isso bio), para se assegurar que o povo, naquela atura, estaria em forma para trabalhar, práctica e maioritariamente manual. 

O escritor e economista francês Jacques Attali, numa entrevista no princípio de Janeiro, dá uma outra dimensão a este problema, mais de acordo com os tempos actuais, ‘O conflito pode acabar por ser entre os estados totalitários e as grandes empresas digitais’. 

E as eléctricas e as químicas? E as outras todas? Para que lado vão cair? 

Se por acaso houver alguém que se atreva a garantir uma resposta, importará fundamentalmente saber aquilo em que nos tornaremos, quando e se lá chegarmos (ao futuro, qual, quando e onde?); temos apenas uma garantia, como disse uma vez Abraham Lincoln, ‘A melhor coisa sobre o futuro, é que vem um só dia de cada vez’. 

Assim, talvez ainda se possa aprender… se nos deixarem!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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