CARTA DE BRAGA – “eles sabem o que fazem” por António Oliveira

Recuperando uma afirmação já com algumas semanas, do sociólogo Boaventura Sousa Santos, ‘Os dominadores da nossa regulação social, os mercados, pediram agora aos estados que consideravam ineficientes e incapazes, para lhes resolverem os seus próprios problemas e os estados fizeram o que puderam, apesar de muitos deles não estarem preparados’.

Não quero entrar aqui em qualquer reflexão de carácter religioso, mas e a propósito, sirvo-me de uma reflexão já com umas dezenas de anos, do alemão Peter Sloterdijk, considerado por muitos o maior renovador da filosofia, ‘A fórmula da ideologia actual, já não é <eles não sabem o que fazem>, mas uma outra <sabem o que estão a fazer e, mesmo assim, continuam a fazê-lo>.

Isto leva-me a pensar que os únicos responsáveis pela violência decorrente das desigualdades gritantes em todas as sociedades, são os que, com um poder determinante e mesmo decisivo, permitem ou facilitam que a injustiça esteja patente em todos os níveis, que aumentem a ignorância e o obscurantismo, sempre com o apoio solícito e reverente da maioria dos órgãos de comunicação que, por uma inegável coincidência, também comandam.

E, os últimos acontecimentos, principalmente os do Capitólio, mostram como a mentira assim propalada (outra forma de violência!), tem nas redes sociais o seu campo principal de actividade, beneficiando do discurso reduzido, da não apresentação de provas documentais e de ali passarem por honestos e bons comunicadores, quando na realidade, estão muito longe de o serem. 

Basta pensar como há países com vacinas suficientes para imunizar toda a gente três ou quatro vezes e outros onde, na melhor das hipóteses, há pessoas que só receberão a primeira dose lá para Junho ou Julho de 2022; mas todos os governantes declaram, ou tweetam, que fazem o melhor e, ainda outros como o boçalnaro, que a nega e se junta a todos os que garantem não haver ninguém que possa fazer melhor e a outros que nem satisfações dão.

Mas, esta calamidade que parece não ter fim, a ver pela quantidade de novas ‘vagas’ e outras ‘cepas’ do bicho coronado, que se anunciam e já estarão a caminho, serve também para nos mostrar como esta sociedade, aqui e em todo o lado, é profundamente egoísta. Vemos isso na enorme quantidade de festas ilegais que aos fins de semana se desmontam em toda a parte, a mostrar que, hoje, o indivíduo é só competitividade e egoísmo, esquecendo que a responsabilidade e a cooperação o deviam levar a ter a noção da comunidade, aquela a que pertence, onde vive e, até por isso, devia dar como recebe, ou seja, partilhando.

Uma espécie de equilíbrio que a História também regista, mas que as últimas dezenas de anos, viram praticamente destruído, principalmente depois da transformação conservadora da dupla Reagan e Thatcher, que abriu o caminho para a estatuição do neoliberalismo, com a submissão total da sociedade aos deuses do consumo e dos mercados, todos com casa própria e grandiosa, sempre situada no centro das cidades e com nomes a condizer, Bolsa, Centro Comercial, Hipermercado.

O sociólogo Daniel Innerarity, salientou no mês passado, os problemas desta herança ‘Creio que as democracias consolidadas têm um problema de negativismo, de ineficácia, de confrontação estéril, de curto prazo, de incapacidade para desenvolver políticas complexas a largo prazo… e tudo são factores que não favorecem uma democracia de qualidade, mas que são chamados a acabar com o sistema democrático’.

Note-se que a crise da democracia é, por todas estas razões, já anterior à pandemia, provocada pelos avanços e pelas consequentes mudanças tecnológicas, que em conjunto, deram origem a uma perturbação colossal nas estruturas sociais, de que só podemos ter uma ideia, se recuarmos à revolução industrial e apreciar como as suas consequências ainda se prolongam no mundo de hoje. 

E é precisamente nos sectores mais atingidos pelas desigualdades e, mais agora pela pandemia, constituídos por vastos sectores de populações marginalizadas económica e socialmente, em Portugal, na Europa, mas também em África, na América Latina, no sudoeste asiático e amplíssimos estratos sociais nas potências emergentes como Brasil, Índia, Rússia e até nos EUA, onde crescem os inimigos da democracia, vestindo disfarces só aparentemente diferentes. 

O escritor e jornalista José Antequera, deixou há alguns dias escrito ‘Enquanto houver alguém disposto a guardar palavras sagradas como igualdade, tolerância, justiça, fraternidade e liberdade, nem tudo esta perdido, por muito que o fascismo tenha voltado do inferno, com mais ânsia de ódio e poder que nunca’. 

Talvez seja bom recordar aqui e a propósito, um aforismo de Almada Negreiros, ‘Entre as palavras que querem salvar a humanidade e os actos que a podem salvar de facto, vai uma imensa e misteriosa distância’.

E que enorme distância para os mais desfavorecidos, pois Trotsky garantiu ‘Expor aos oprimidos a verdade sobre a situação, é abrir-lhes o caminho da revolução’!

É mais fácil e lucrativo mostrar-lhes as últimas apps e as últimas novas dos heróis moradores nos seus ecrãs!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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