CARTA DE BRAGA – “da pandemia e de política” por António Oliveira

A pandemia e os confinamentos que originou, alteraram brutalmente a vida na e da sociedade.

Somos, temos sido, o resultado da relação com o mundo, a começar pela comunidade, a do contacto físico com as pessoas, a da relação directa onde se passam todas as coisas, as suficientemente importantes e emocionantes, para nos exigirem participação e implicação. 

Ao fim deste tempo todo, fechados atras de uma máscara, abertos apenas para o reduzido número de pessoas com que partilhamos likes e ecrãs, tal relação com o mundo vai ficar reduzida a cacos, uma vez que a presença corpórea leva a afinidades, compromissos e laços que o ecrã nunca poderá validar. 

E as pessoas (nós todos!) estamos já a sentir esse problema até porque, à medida que forem abandonadas as restrições, a maioria vai regressar às ruas, para ‘voltar a viver!’ (e quantas vezes não ouvimos isso já?), ansiosos que estamos para reassumir a condição de seres eminentemente comunitários e sociais, para voltar a comungar das emoções, depois de tantos meses escondidas atrás das máscaras, que um bicho nojento nos impôs.  

Por outro lado, esta pandemia levou já a enormes transformações na economia e no mundo do trabalho. As mutações para uma economia 4G ou 5G, a degradação ambiental e ecológica, a óbvia progressão para uma mudança energética e dos modelos produtivos daí recorrentes, mais os ‘acertos’ indispensáveis nos sistemas e nos diferentes mercados do trabalho, vão exigir ‘gente preparada’ para tais tarefas, para nunca se esquecerem de que o grande e prioritário objectivo do neoliberalismo, foi a mercantilização de todos os aspectos da vida. 

Note-se que entre estes aspectos, estão os que alguém apelidou de ‘bens puros’, aqueles que pelas suas características ‘não podem ou, pelo menos não é conveniente, serem deixados à mercê do mercado, como a educação e a saúde’, garantem os comentadores da política internacional, Torremocha e Eddoghmi, no diário ‘Nueva Tribuna’ de 8 de Março. 

É um mundo novo que se abre para todos nós, especialmente para quem depende dos salários, por esta crise ter destruído milhares de postos de trabalho em toda a parte, lugares que não vão aparecer outra vez, mas que, a continuarem as políticas actuais, se destinam apenas a enfraquecer o valor do trabalho, seja qual for a área, por assim servir de acicate e pressão, para a recuperação ou criação de outros, novos mas idênticos, lugares de trabalho. 

Abeira-se um mundo novo, a exigir uma acção conjunta na política, também nas empresas e nos sindicatos, para reformar, melhorando, o sistema educativo, bem como a rever a utilidade das estratégias de criação de emprego, passando sempre por uma eficaz e adequada formação profissional. 

Não parece que estas considerações venham a ter alguma aceitação, apesar de não passarem de um apanhado das muitas que por aí circulam, pois até o Secretário Geral das Nações Unidas, António Guterres salientou, no final de Fevereiro, ‘As restrições ligadas à pandemia, servem de pretexto para minar os processos eleitorais, enfraquecer as vozes dos opositores e suprimir as críticas’, acrescentando depois ‘Os defensores dos direitos humanos, jornalistas, advogados, ativistas e até profissionais de saúde têm sido sujeitos a detenções, processos judiciais, intimidação e vigilância, por criticarem as medidas – ou a sua falta – tomadas para fazer face à pandemia’.

De qualquer maneira, diz Daniel Innerarity, ‘quando começarmos a verificar a profundidade da crise, vão chover as perguntas que remetem para uma teoria da sociedade depois do coronavírus, para tudo o que pensávamos sobre a democracia e a política, sobre a relação entre o público e o privado, sobre o sentido das nações, sobre a justificação da Europa e, mais ainda, sobre a natureza do mundo em que vivemos’.

E, só por isso, ‘o conhecimento é, cada vez menos, aprender uma lista dos acontecimentos gloriosos do passado; tem agora a ver com a aprendizagem, isto é, com o conhecimento do futuro’, acrescenta o filósofo basco.

Mas as aprendizagens nunca estão asseguradas e haverá, certamente, lições que nunca chegarão a ser aprendidas. A crise do coronavírus é um acontecimento que não se pode compreender sem um pensamento complexo, multifacetado e plural, como outras dificuldades dela decorrentes, a exigir de todos nós uma outra e nova maneira de analisar e pensar a realidade. 

Nada melhor para terminar esta Carta, que recorrer a Antonio Machado, o enorme poeta sevilhano, ‘Haced política, porque si no la hacéis, alguien la hará por vosotros y probablemente contra vosotros’.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

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