A Galiza como tarefa – onirismos – Ernesto V. Souza

Pousei o livro que ando a ler nessa estrutura de tábuas recicladas que nalgum momento aproveitei para mesa de cabeceira em estilo moderno e minimalista; ativei maquinalmente o despertador e desliguei a lâmpada. Mal dormi, mas sonhei, fragmentar em ambos casos.

Sonhei com viagens e bibliotecas repletas de livros velhos. Com acontecimentos do passado retornados como alegorias fantasmais e simbólicas. Com pessoas amigas e com outras que há muito que não estão ou que já nem nos falam. Com arquiteturas misturadas, combinadas ou estendidas até tornar fantasias.

O livro que lia é inglês, dos anos 40, tem um cheiro a humidades e a outros países. Um cheiro que me leva À Crunha, a Santiago, Vigo, a La Habana, a Montevideu, a Buenos Aires, a Pelotas, a Porto Alegre, Chicago, a Bruxelas, a Bruxas, Antuérpia, Mastrique, a La Valetta, a Londres, Birmingham, Warwick, Leaminton Spa, não sei. A todos esses lugares onde a chuva e a humidade fazem parte da paisagem e impregnam amarelando os livros resgatados dessas lojas de a peso, a cento, a cêntimos, centavos, a frações arredor ou por baixo da unidade ou a décima. Livros de caixas ou prateleiras sem ordem.

Chicago Public Library

Lembro e sonho-me em bibliotecas: em imensos halls e acessos de pedra, mármore, cristal e aço. Vidraças, colunas, placas, madeiras nobres, paneis orientativos. Balcões de obrigada parada e orientação. Nem sempre se entra à primeira e por vezes nunca se entra. Lembro salões de leitura humildes e ordenados de bibliotecas públicas e arquivos locais, os simples gabinetes com uma mesa de Associações e bibliotecas de fundações. Lembro os grandes espaços de leitura das ricas bibliotecas nacionais ou de investigação; as funcionais e modernas dos centros de pesquisa. E lembro depósitos, coleções especiais e catacumbas. Lembro os cheiros, as velhas prateleiras e armários, as caixas de catálogos, os paneis, decorações e retratos em gravado e óleos nas paredes, de próceres, fundadores, filantropos, escritores.

Lembro o cheiro intenso da biblioteca da RAG, as lindas mesas do Circo de Artesanos, o cheiro do fundo Rodó na Biblioteca da Faculdade de Humanidades de Montevideu, lembro a monumentalidade exterior, vermelho e verde cobre e hall da Public Library de Chicago, ou a sala de pesquisa da Biblioteca da Deputação da Crunha mirando livros do fundo Blanco Maneiro. Lembro a Xeral de Santiago, com os seus primeiros catálogos OPACS no baixo, a velha do Padre Sarmiento, na do Jardin de São Carlos da Crunha a mirar expedientes que se me misturam com os do Arquivo e sala de pesquisa do da Guerra civil de Salamanca; lembro a biblioteca de janelas abertas e pátio interior tropical do Instituto de Literatura e Linguística da Havana, das conversas com Xosé Maria Dobarro; da Penzol, e da primeira vez que me sentei a ler na Nacional de Madrid. Recordo ter entrado com o Fernando Corredoira de cicerone na Nacional de Lisboa. E lembro também os meses que passei trabalhando na Histórica de Santa Cruz, em Valladolid, entre incunábulos e raros. Prateleiras, mesas, depósitos-catacumbas. Todas se me combinam nos sonhos e misturam com livrarias.

 

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